UMA HISTÓRIA DE DOIS HENRYS


A história que vou contar hoje é bem conhecida, mas eu gosto muito dela, e por isso não resisto à tentação de contá-la novamente aqui em nosso querido blog.

Henry Ford deixou de ser um mero inventor para se tornar um homem de negócios quando, com ajuda de um grupo de investidores de Detroit liderados por William Murphy, fundou a Detroit Automobile Company, a 5 de agosto de 1899, 110 anos atrás.

Mas Ford ainda não havia conseguido aperfeiçoar sua ideia de automóvel, aquela que ia desabrochar no modelo T e fazê-lo o mais importante industrial do século. Naqueles tempos em que a tecnologia desta nova máquina ainda não era dominada, acabou por falhar em criar algo que pudesse ser produzido e vendido com lucro, e a empresa logo acabou. Ford de certa forma ainda tinha muito a descobrir.

A próxima tentativa veio com a Henry Ford Company, incorporada no fim de 1901. De algum jeito, Henry conseguiu que William Murphy investisse novamente a maior parte do dinheiro necessário, mesmo depois de perder bastante com o fracasso anterior.

Mas Henry ainda não estava pronto para ser um industrial; tinha àquela época descoberto as competições automobilísticas. Em busca de mais conhecimento sobre o animal automóvel, de glória e publicidade, e de dinheiro, Henry devotava a maior parte de seu tempo a um monstro cuspidor de óleo, um carro de corrida que atendia pelo nome de “999”, que traria a ele tudo isso, menos a parte do dinheiro...

Logo, Murphy estava possesso com a incapacidade de Ford de criar um carro vendável. Foi aí que ele teve uma ideia sem nenhuma possibilidade de sucesso: Achou que podia contratar um chefe para Henry Ford.

Entra em cena Henry Leland (foto no fim deste post), um dos diretores da Leland & Faulconer, uma oficina de usinagem famosa em Detroit. Leland fora treinado na fábrica da Colt (o lendário Springfield Armory), e era famoso pela elegância, precisão e durabilidade de suas peças usinadas. Àquela época, a L&F ficara conhecida por produzir excelentes motores para os Oldsmobile de Ranson Eli Olds. Em visita à fábrica de Ford, pintou um quadro aterrador de fracasso iminente para Murphy, e acabou sendo contratado como supervisor geral da Henry Ford Company.

Henry não durou muito ali; logo em seguida abandonou a empresa, e com ele foi-se o nome da companhia. Alguns dizem que ele foi demitido; outros, que pediu demissão; o que sabemos com certeza é que Ford não saiu contente. Murphy reorganizou-a com Leland como líder, e adotou um nome que todos conhecemos: Cadillac Automobile Company.

Cadillac era o sobrenome do fundador da cidade de Detroit, um nobre francês chamado Antoine de La Mothe Cadillac. Sob a batuta de Leland, a Cadillac ficaria famosa por iniciar a intercambiabilidade de peças, e seria comprada pela jovem General Motors em 1909, para ser a sua marca de prestígio e de luxo. Leland é reconhecido hoje como um dos maiores pioneiros do automóvel, e sua contribuição em técnicas de usinagem, precisão e tolerâncias é absolutamente inestimável.

Todos sabemos o que aconteceu com Ford: sua nova companhia (a terceira), Ford Motor Company lançou o modelo T em 1908, e em 10 anos ele era um dos homens mais ricos e poderosos do planeta.

Alguns anos depois da compra da Cadillac pela GM, em 1917, Leland e Murphy criam uma nova companhia: a Lincoln Motor Company, com a intenção de competir com a sua antiga empresa, com carros de alta qualidade.

Alguns anos depois, com a empresa em concordata, a Lincoln acaba por ser comprada por quem? Henry Ford. Em menos de um mês, Henry Leland estava desempregado.

Ford jurava de pé junto que fora uma lógica decisão empresarial, mas todos sabemos que, afinal de contas, o velho Henry conseguira, finalmente, sua vingança.

MAO

5 comentários :

  1. Celso Antunes03/11/09 14:05

    A história de Henry Ford como anti-semita apaga toda a sua carreira. Não há motivo para admirar este cretino.

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  2. Imaginem se os dois Henrys tivessem se dado bem um com o outro. O que não teria aparecido no mundo dos carros, naquela época de absoluta adoração ao automóvel. Mas ambos eram genios e como sempre ocorre na lei das compensacoes, muito genio em um campo, problema em outro, como é esse caso da simpatia ao nazismo de Ford.
    A contribuicao para a historia da humanidade o coloca num dos pontos mais altos da escala de valores.

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  3. Mister Fórmula Finesse03/11/09 15:41

    Ah...esses capitães das indústrias! Ford era anti semita ou apenas um ignorante em relação ao nazismo que só escancarou as portas da maldade com a descoberta dos campos de concentração? Ele era ameaçado de morte sim por valorizar o trabalho dos seus funcionário simplesmente dobrando o salário e diminuindo o turno (imaginem as filas em Dearborn!), mas em relação ao nazismo acho que muito ainda pode ser contado...até porque a máquina de guerra americana premiou bastante as indústrias de Ford. Lembremos que o nacionalismo brasileiro (Getúlio e cia) tinha forte identificação com os nazis dos anos 30, até o momento, nazismo era um partido e uma corrente política que só depois seria reconhecido como a monstruosidade final protagonizada por Hitler.

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  4. Muito interessante. Não sabia que Henry Ford precisou fundar três empresas para, finalmente, conseguir produzir um carro de sucesso.

    E justamente por pensar à frente do tempo, teve outros fracassos na carreira. Tentou, sem sucesso, produzir a própria borracha, necessária para fabricar pneus, montando uma cidade completa em plena floresta amazônica brasileira.

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  5. Paulo Keller04/11/09 19:00

    MAO, não conhecia essa parte da história. Muito boa!

    Incríevel como o mundo dá voltas.

    Esse período deve ter sido muito intenso e rico. Muita gente desbravando o mercado e fundando as bases do que temos hoje.

    Quanto ao Ford, ele era meio louco, como quase todos os gênios. Tem algumas passagens estranhas sobre ele. Mas fica difícil julga-lo sem saber de tudo. Pelo menos sabemos que ele construiu muita coisa, ao contrário de outros líderes que só destruíram.

    PK

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