DODGE CHARGER: MELHOR DO QUE O ESPERADO.



Desde o lançamento do Charger moderno, uma certa rejeição sempre foi a marca registrada desse modelo para mim. O motivo principal era ele ser tão diferente do conceito apresentado em 1999, esse bastante agressivo.

Considero o Charger americano, em sua segunda carroceria, de 1968 a 1970, um dos desenhos mais bonitos de todos os tempos. Logo, esse quatro portas lançado nos EUA em 2006 era algo totalmente sem sentido, apenas um sedã familiar que aproveita o nome famoso, coisa de empresa em dificuldades que parecem ser eternas.
Aproveitamos as férias da família para ir a um dos maiores paraísos de turismo, a região de Orlando, na Flórida, o estado-pântano. Ao vasculhar o estacionamento da locadora com as opções disponíveis pelo mesmo preço, fui logo procurando o que seria interessante para dirigir e que tivesse porta-malas grande e aproveitável.
Ao me lembrar que aquele carro azulão com o emblema do cabrito montês tinha tração traseira, parei de escolher e abri o porta-malas, com aquele frio na barriga me dizendo que ele seria grande e caberiam as malas da família. E deu certo, baixando um dos lados do encosto do banco traseiro, tudo ficou bem acomodado.
Ficaram para trás, para outros turistas, Camry, Accord, Maxima, Impala, G6, HHR e Galant. O HHR seria melhor no quesito espaço para malas, mas minha diversão seria menor, e férias são para se divertir.
Na partida do motor já uma agradável surpresa. Apesar de ser na versão SXT V-6, o borbulhar da lenta é agradável, mesmo não chegando perto de um V-8. Nada daqueles carros com 4 cilindros onde mal se escuta o motor. Por sorte, o modelo era equipado com a maquinária de melhor performance, trazendo a inscrição "High Output" nos pára-lamas dianteiros, logo abaixo da inscrição 3.5L, um pouco fora do padrão de polegadas cúbicas ao que os americanos estão acostumados. De notar o litro abreviado por "L" maiúsculo, quando o correto seria minúsculo. Esse motor significa 250 hp a 6400 rpm e 340 Nm a 3800 rpm. Com coletor de admissão variável, e quatro válvulas por cilindro, o funcionamento é muito regular e com potência bem distribuída, não demonstrando falta de força em nenhuma rotação de uso em rua. Nada mau para passear em três pessoas.

A ficha técnica mostra aceleração da imobilidade até 60 mph em 8,9 s. Parece mais rápido na realidade, auxiliado pelo empurrão da tração traseira.

Saímos do aeroporto naquele piso impecável que caracteriza a região de Orlando, um carinho para com o estrangeiro, com os vidros abertos para escutar o motor e respirar um ar melhor, depois de tantas horas de ar condicionado de avião.
Depois de alguma distância percorrida, percebi que a transmissão trocava de marcha sem que se notasse, a não ser que estivéssemos prestando atenção no momento da troca. O balanço de carroceria, e a interrupção de entrega da potência para as rodas é mínimo e suave. Com ar condicionado ligado, o comportamento é o mesmo, sem falhas. Acelerando bem forte, porém, as trocas são mais bruscas.
No dia seguinte, com um pouco mais de tempo, descobrimos o botão do prazer: ESP, o controle de estabilidade que trabalha em conjunto com o ABS, e é equipamento básico de todas as versões de Charger. Esse item é desligável, e até a luz espia é divertida, com o desenho do carrinho derrapando.
A partir desse momento, toda alça de acesso a viadutos e algumas curvas de esquina eram encaradas de uma forma mais a contento de quem gosta de dirigir. Mesmo a baixas velocidades, algumas balançadas no carro e acelerações ilógicas eram aplicadas, para se conhecer melhor o que tinhamos em mãos. E o que constatamos foi bom. Pesadão em ordem de marcha, com 1725 kg, o Charger tem uma agilidade muito boa, e ficamos imaginando como seria melhor se a transmissão fosse manual, ao invés de automática de 4 marchas . Mas isso é coisa inexistente em carro de locadora, exceto se formos especificamente procurar os esportivos de aluguel.

Com distribuição de massas de 53% na frente e 47% traseira, ocorre substerço (saída de frente) em curvas muito quentes, em baixa velocidade e com giro rápido do volante. Os pneus arrastam para valer, e uma boa acelerada escorrega de leve a traseira, minimizando a saída de frente. Em uso normal, nada no comportamento dinâmico preocupa. Nem mesmo as inclinações de carroceria (rolling) são exageradas ou desagradáveis. A bateria fica no porta-malas, auxiliando um pouco no equilíbrio.

Freios a disco nas quatro posições trabalham bem, e seguram o monstrão com autoridade, ainda que atrapalhados pela transmissão automática que demora bastante a reduzir de marcha. Como outros amigos de nosso blog, prefiro eu mesmo colocar a marcha que tenho vontade, e não ser substituído nessa função.
A direção é leve, como tipicamente acontece em carros americanos, mas não tão leve a ponto de incomodar ou gerar preocupação com um simples espirro ou tosse repentinos (do motorista). Também a quantidade de voltas é reduzida, ou seja, um bom sistema, sem maiores críticas.
O motor com 3,5 litros atende bem ao que o carro se propõe, ainda que não seja o modelo SRT ou melhor ainda, o R/T Daytona com o V-8. O nosso seis - em - vê dava conta do recado, largando fácil dos semáforos junto com carros bem mais leves, e deixando a massa trafegante longe, um bom fator de segurança.
Lógico que não foi brincadeira todo tempo, lembrem-se que se tratava de uma viagem de férias com a família, mas mesmo assim, a diversão foi feita com certa frequência.
Para quem dirige, os bancos são um pouco mais macios do que o aceitável, cansando um pouco depois de algumas horas. O ajuste lombar compensa bem, permitindo uma reconfiguração da coluna vertebral e um certo relaxamento com a mudança de posição. Esse ajuste é manual na lateral do encosto e existe também para o passageiro, mas o ajuste de distância , de altura e de reclinamento são elétricos, com as teclas localizadas no assento. O ajuste de altura funciona na parte dianteira e traseira do assento, tornando-o mais plano ou mais inclinado, favorecendo a melhor acomodação independente de pernas longas ou curtas. Os pedais também são ajustáveis em distância, e o volante é ajustável em altura e distância, com bom diâmetro e pega, e o visual é decente, sem componentes muito flexíveis que poderiam passar a sensação de carro barato.
Apesar de ser bem plástico, tanto painel de instrumentos quanto os painéis de porta não passam a impressão de serem ruins, naquele nível de carro popular brasileiro.
Se pensarmos que esse carro custa entre 27000 e 30000 dólares, está num nível razoável, mas não é o melhor dessa categoria, longe disso.
Tive um gerente canadense certa vez que me disse algo simples e importante. Os Mopar nunca foram excepcionais de carroceria nem de acabamento, mas sim em mecânica. Isso permanece até hoje, nessa moderna geração.
Para coroar as boas características do carro, o consumo de gasolina. Rodar 998 km e descobrir que você gastou 80 dólares (uns 145 reais), o que traduzido na nossa unidade cotidiana, dá cerca de 8,9 km/l é ótimo. Muito bom mesmo, apesar de toda a massa de uns 1900 kg com 2 adultos e uma criança, mais alguns poucos bagulhos como carrinho de bebê e mochila, e as acelerações fortes induzidas em várias oportunidades, com mais de 90% do tempo com o ar-condicionado ligado.
A conclusão é que 14 centavos de real por quilômetro rodado para tamanho conforto é muito barato. Barato não. Justo e civilizado, ao contrário dos nossos custos brasileiros para se andar de carro. Sem contar que pouco se danifica suspensão, e assim o carro dura muito tempo sem começar a parecer um carroção barulhento. E os americanos ainda acham que a gasolina está cara por lá....

Após doze dias sendo bem tratado pelo carro, por uma sinalização perfeita, rodando por um asfalto e concreto muito bons, e encontrando alguns trechos com pequenos remendos e alguns buracos rasos que não se cobriam mais de 500 metros no total, devolvemos o cavalo de batalha com muito pesar.
A vontade de apresentá-lo no check-in do aeroporto e tentar trazê-lo como excesso de bagagem foi grande.
JJ

14 comentários :

  1. JJ

    Como eu sempre disse: com 4 portas, o nome desse carro deveria ser CORONET, nunca Charger.

    Vai entender esse povo da Chrysler...

    FB

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  2. Também tive a oportunidade de dirigir um Charger 2009.
    As minhas impressões foram:
    - acabamento péssimo
    - visual "really really fucking horrible"
    - espaço interno incompatível com o tamanho do carro
    - câmbio de 4 marchas? Em pleno século XXI? Sem comentários
    - 250HP para fazer 0-100km/h em mais de 9 segundos??? Então é uma bigorna
    Não entendo como eles ainda continuam fazendo carros que são enormes por fora e nada espaçosos por dentro. Diante disso, não me surpreende que a Chrysler esteja na situação em que chegou.
    E para acabar de piorar, a aerodinâmica é péssima. Num mundo que preza cada vez mais pela eficiência, isso é inaceitável.
    De novo: 0-100km/h em mais de 9 segundos? Legal, esse carro toma pau de Accord V6. Não é à toa que o Accord V6 vende muitíssimo bem.
    Resumindo eu dirigi esse carro já com poucas expectativas. E ele ainda conseguiu me decepcionar. Pior que ele foi só a Caravan que eu dirigi. Que diferença para as Caravan de 7 anos atrás! Conseguiram fazer um carro razoável se transformar num verdadeiro lixo ambulante.
    E pensar que os americanos já tiveram carros espetaculares como o Pontiac G8, a preço praticamente igual.
    É muito triste ver quando uma indústria mata o produto bom e fica com o produto ruim.
    E a Ford então? Vai ter que encerrar o Crown Victoria/Grand Marquis/Town Car? Está esperando o que para fazer um carro grande baseado na plataforma do Ford Falcon australiano??? Isso sim é que é CARRO.

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  3. JJ,

    Bateria no porta-malas, ótimo!!

    Parece ser um ótimo carro, mas como é feio esse Charger...simplesmente horrendo.

    MAO

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  4. Mister Fórmula Finesse06/11/09 08:46

    Realmente é um carro que peca muito em harmonia, mas o conjunto mecânico parece ser muito interessante, ainda mais para nós acostumados com a maré de quatro cilindros. Mas é um tanto pesado não?

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  5. Clésio Luiz06/11/09 10:43

    Eu vi um desses por aqui, preto, com um aerofólio na tampa da mala, então eu acho que deveria ser uma versão V8. Não achei feio não, pelo contrario. Causou boa impressão em mim e em quem estava perto de mim.

    Me parece que a comparação com o Accord não é sensata, pois eles estão em seguimentos diferentes de preço.

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  6. JJ,
    Minha única simpatia pelo Charger é ele ser quase um cross-badge do 300C, este sim, my car.
    Quanto ao peso, não sei o que acontece com os americanos, realmente parece quererem que os sedans pesem como um SUV grande... Estes dias li excelente relato do novo Buick La Crosse V6, da mesma classe, elogiadíssimo, etc. mas me assustei que ele chega perto de 2ton, ou seja, mais pesado ainda que seu Charger...

    CZ

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  7. Também não sei o que acontece com o peso dos carros americanos.
    Andei num Chrysler Sebring de um amigo meu na California. Trata-se do modelo "pé-de-boi", com 4 cilindros e câmbio automático.
    Mas que grande desgraça de carro!!! Não anda neeeem a pau. O motor fica lá berrando, e o carro apenas se arrasta. É muito pesado e o acabamento é, digamos, ruim (tá, é péssimo vai).
    Sem brincadeira, carro 1.0 brasileiro perde pra ele por muito pouco.
    Essa mania de americano só ter transmissão automática também acaba com o carro. As perdas de transmissão são bem maiores, e o número de marchas geralmente é menor. Sem falar no consumo de combustível.
    Mas duvido que eles aprenderão de que não precisam de jamantas para se locomoverem.

    PS: Chrysler 300C? Carro dos irmãos metralha? Pode até ter bom desempenho, mas devem ter contratado algum parente do Chris Bangle. Devia ganhar o prêmio de pior design do mundo!!!!!

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  8. Já vi que o Bussoranga é uma pessoa difícil de agradar.
    CZ,
    acredito que o excesso de massa seja causado principalmente pelos projetos não muito refinados de estrutura de segurança. Ao menos se compensa com uma solidez muito boa, sem nenhum tipo de ruído de torção (claro, Orlando é bem lisa, precisaria ver em cidades menos civilizadas).

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  9. JJ,
    Não é difícil me agradar não! A receitinha é simples: pegar o que cada um faz de bom, juntar tudo num carro só, e pronto.
    Americano sabe fazer motor como nenhum outro.
    Europeu sabe otimizar estrutura e fazer suspensão como nenhum outro.
    Japones manja tudo de confiabilidade e otimização de produção.
    Pronto, taí a solução. O que temos hoje que mais se aproxima disso, por mais incrível que pareça, são carros... australianos!

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  10. O Maxima é bonito e o Dodge das férias do Juvenal é feio? Não quer um Gelol pra esse cotovelo, MAO?

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  11. Com certeza absoluta o Maxima e muitos carros da década de 90 (melhor época em termos de design) é bonito e o Dodge atual é pavoroso.
    Essa onda retrô que, felizmente só existe nos USA, podia, para o bem de toda a humanidade, queimar no inferno!!!
    Mas claro, quem não concordar pode fazer um test-drive em ambos.
    Depois de ter feito um test-drive num Chevrolet Malibu e num Chevrolet Impala, no começo de 2009 (época em que eu alugava muitos carros, pois viajava bastante) e ter constatado que ambos tem uma suspensão tão podre que o carro, em linha reta, muda de faixa sozinho a 160km/h, entendi perfeitamente porque "the big three" conseguiram afundar tanto. Fizeram por merecer! Só sabem fazer motor, não sabem mais fazer carro.
    O mundo mudou e os caras continuam fazendo carros pesados e com estabilidade totalmente precária. Talvez isso explique os limites de velocidade tão ridículos.
    Continuo parabenizando os alemães por sempre fazerem projetos bem feitos (com raras exceções, claro) e os japoneses pela brilhante evolução, saindo dos lixos da década de 60 e chegando na excelente qualidade de hoje.
    Mas nem tudo está perdido! Eles já provaram que têm competência para melhorar, como ocorreu no Corvette ZR1, Viper ACR e no Ford GT. Resta aplicar a mesma Engenharia aos demais carros.

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  12. Eu nem acho o atual Dodge Charger tão feio, me agrada o desenho da carroceria. Só assusta mesmo o peso dos carros atuais, não somente os americanos.

    A BMW lançou o M3 GTS, voltado para uso em track days. Peso? "Moderados" 1500 kg, segundo a notícia que li. Isso porque não há banco traseiro e outras bossas de luxo...

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  13. Paulo Keller09/11/09 18:58

    Esse Charger tem uma frente bem agressiva, que não combina nada com as tiazinhas que aparecem dirigindo essa versão V-6 lá na Flórida.

    No geral o desenho é muito estranho. A versão com o Hemi e detalhes esportivos deixa o carro bem mais legal.

    O Challenger também parece um trambolho. Como o CZ fico com o 300C Hemi, Touring, ou a finada Magnum SRT8.

    Pena que tudo isso acabou!!!

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  14. Eu aluguei em LA a perua desse carro, a Dodge Magnum. Apesar dos 250 cv, não pareceu acelerar melhor que meu Marea de 160 cv. Gostei do carro, mas algumas impressões:
    -Desenho externo bonito e ameaçador, tanto mais pelas enormes rodas de 17.
    - Acabamento interno peca pela simplicidade de desenho e materiais. Destaque para o rádio por satélite, excelente mesmo no deserto.
    - Espaço interno poderia ser maior para um carro de 5 metros... Janelas baixas são claustrofóbicas, em especial no banco de trás.
    -Estrutura parece sólida. Bom compromisso na suspensão entre estabilidade e conforto.
    -Motor suave e progressivo. Consumo moderado para o tamanho e peso da peruona.
    -Câmbio de 4 marchas insistia em tranquear feio nas reduções em descidas.
    Em suma: um carro desses com um ano de uso custava apenas U$13 mil... Queria trazer a peruona pra cá, a despeito do cabamento interno espartano, a meu ver o calcanhar de aquiles do carro.

    Abs!
    Ricardo Montero

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