A BESTA

Na década de 60 um maluco qualquer julgou que seria no mínimo interessante a aplicação de um grande motor aeronáutico em um automóvel. Paul Jameson (um especialista em motores Rolls-Royce Merlin) decidiu que iria executar essa idéia pouco usual. Começava ali a história de 40 anos do carro conhecido como "The Beast" (A Besta).

Para quem não conhece, o Rolls-Royce Merlin é um V-12 de 27 litros, utilizado pelos aviões Supermarine Spitfire na II Guerra Mundial, capaz de alcançar uma potência superior a 1.500 hp quando sobrealimentado. Mede 2,25 metros de comprimento, 1 metro de altura e quase 1 metro de largura. Tamanha grandeza se mostra presente no peso de 744 kg, embora seja inteiramente construído em alumínio. Um colosso que requer 38 litros de óleo no reservatório do cárter seco.

Incapaz de encontrar um carro capaz de acomodar tamanha monstruosidade mecânica, Jameson decidiu construir um chassi próprio e empregou componentes de outros veículos ingleses da época: a carroceria em  plástico reforçado com fibra de vidro foi inspirada no Ford Capri e a a suspensão dianteira veio de um Austin A110. Um Jaguar XJ12 doou todo o sistema de freios e a suspensão traseira independente.


Jameson não fez uso da sobrealimentação e a potência estimada do motor ficava em torno de 950 hp a aproximadamente 2.500 rpm. Por se tratar se um motor aeronáutico de baixa rotação (com marcha-lenta de apenas 120 rpm) e altíssimo torque (105 mkgf), Jameson enfrentou grandes dificuldades na hora de escolher uma transmissão adequada a essas características.

A solução foi recorrer a John Dodd, um especialista em transmissões automáticas, que projetou e construiu uma caixa de multiplicação para acoplar o enorme motor a uma transmissão GM Turbo Hydramatic 400 de 3 velocidades. Dodd gostou tanto do brinquedo que resolveu adquirir a Besta, que serviria como um show car de sua oficina. Jameson abriu mão do projeto, mas chegou a projetar outro brinquedo de 6 rodas, também equipado com o motor Merlin.

Depois de pronto, o carro media quase 6 metros e pesava 2.250 kg, com a tradicional grade dos carros da Rolls-Royce, sem esquecer é claro do Espírito de Êxtase, a pequena estátua que lhe serve de ornamento. O carro acabou sofrendo um incêndio e foi reconstruído, desta vez com o desenho inspirado nas shooting-brakes, pequenas peruas de 2 portas comuns no Reino Unido.

Com suas dimensões nada apropriadas para as pacatas rodovias inglesas, Dodd tratou de colocar a Besta num hábitat mais apropriado: as autobahnen alemãs. Depois de algum tempo brincando em solo teutônico, a Rolls-Royce Limited recebeu o telefonema de um suposto barão alemão, dizendo estar interessado no "novo modelo que estava sendo testado na Alemanha".

Intrigado, o empregado inglês perguntou do que se tratava. O nobre germânico alegou que estava trafegando com seu Porsche em velocidade máxima, quando foi repentinamente ultrapassado por um Rolls-Royce a aproximadamente 320 km/h. Logo depois do barão, outras pessoas ligaram para empresa, questionando a respeito do fantástico Rolls.

A Rolls-Royce investigou o caso e não gostou nem um pouco quando descobriu que uma aberração de fundo de quintal ostentava a criação de Charles Sykes a mais de 300 km/h, ainda que tal façanha não resultasse em nenhuma mácula para a obra de Henry Royce. Tratou logo de convocar uma reunião com seu departamento jurídico para conter as brincadeiras insanas de John Dodd, que considerava sua Besta um produto melhor do que os aristocráticos Rolls.


A decisão final da justiça inglesa favoreceu a empresa e Dodd foi obrigado a redesenhar a dianteira da Besta, sem os elementos característicos dos Rolls-Royce. Mas a polêmica envolvendo o carro foi muito bem utilizada por ele como publicidade gratuita em sua oficina de transmissões automáticas.

Dodd tem hoje 75 anos de idade e vive na Espanha, ainda trabalhando com transmissões automáticas. Em uma recente entrevista concedida para a revista inglesa Evo, John disse que nunca existiu um barão alemão telefonando para a sede da Rolls-Royce: "Era eu mesmo. Estava apenas me divertindo um pouco. Costumava fazer isso com certa frequência. Ligava para o vendedor imitando um sotaque engraçado e dizia que tinha visto o Rolls-Royce a 320 km/h".

O inglês também afirma que apesar da baixa autonomia de 160 km (com um consumo médio de 1 km por litro) a Besta já completou a viagem de Londres a Málaga três vezes, ida e volta. A velocidade máxima alcançada até hoje foi de 296 km/h, embora a Besta tenha desintegrado um jogo de pneus a 240 km/h quando este se dirigia aos estúdios Pebble Mill da BBC.

Sem dúvida, um grande feito para uma aberração de fundo de quintal. Certas diversões simplesmente não têm preço.

FB

Imagens: Evo Magazine/divulgação.

34 comentários :

  1. Custava ao menos ser bonito? Hehehe.
    Mas tal obra de arte eu teria até rosa com bolinhas verde-limão.

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  2. Joel, para um carro da década de 60 é bonito até demais.

    Eu fico pensando com ele faz para estacionar um carro desses, ou manter distância de algo a sua frente. Vejam o tamanho da frente do carro....

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  3. Demais Bitu, esse eu não conhecia.
    Foi um belo achado, parabéns.

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  4. Isso é que é História..

    Bitu, no P51 H, construído quase pós guerra, parece-me que o motor Rolls Merlin atingia 3.500 hp e me parece que o record de velocidade a pistão no ar é dele,na década de 80, com 700 e poucos Km/h.

    Esse senhor aí deve ter se divirtido a valer...

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  5. Isso é que é História..

    Bitu, no P51 H, construído quase pós guerra, parece-me que o motor Rolls Merlin atingia 3.500 hp e me parece que o record de velocidade a pistão no ar é dele,na década de 80, com 700 e poucos Km/h.

    Esse senhor aí deve ter se divirtido a valer...

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  6. ah, por que eu nao ganho na mega sena para ter um frankstein deste? imagina, o cara com a sua M3 zero km, tendo que abrir passagem para o monstro hehehehe.

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  7. Anderson

    Mais de 2 toneladas e quase 6 metros de comprimento. Sem direção hidráulica.

    FB

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  8. Isso sim que é motorzinho de dentista, Cada cilindro tem mais de 2 litros, 1 cil já passa do motor do meu carro hehehehe.
    depois desses 27 litros de motor tô passando a achar 1km/l econômico até, imagina isso sobrealimentado... anda até a esquina e ficou sem gasolina... hehehe

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  9. Como eram os freios desse monstro?
    Fico imaginando o sofrimento para parar essa Besta...
    Apesar que na velocidade que deveriam andar, nem deviam pensar muito em parar o monstro...
    Muito boa matéria B2...

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  10. Carlos Galto26/11/09 08:39

    Tudo leva a crer que esse troço é uma autêntica cadeira elétrica!!!
    Suspensões, freios, pneus, tamanho, complicação para dirigir...
    ESPETACULAR!!!!!

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  11. 105|KGMF.... ai ai!!! Verdadeiro carro de Macho!! Excelente matéria!

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  12. Brilhante!! Adoro essas "jabiracas" malucas, lol!!
    O problema do alto consumo de combustível eu acho que poderia ser resolvido se ele fosse movido a diesel...mas se ele já gira pouco a gasolina...a diesel num deve passar de 1000 rpm!! rsrsrs

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  13. Delirei! Praticamente, duas pessoas trabalharam no carro. 40 anos depois, a VW precisou d eum batalhão para fazer um Veyron...

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  14. Po, vão querer comparar isso com o Veyron agora...

    Cada maluco.

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  15. sem palavras, somente BRUTAL!


    o motor parece ser maior, mas é a perspectiva mesmo!

    grande abraço bitu

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  16. Diâmetro x Curso equivalente a uma garrafa de coca cola... só faltou um turbinho... uahuahauhauhuah

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  17. Uma coisa dessas, só mesmo na Inglaterra. Eles são autênticos gênios pra inventar essas geringonças malucas. Mas, na hora de desenhar a carroceria, aflora todo um lado cafona que normalmente é reprimido pelo bom gosto oficial do "establishment". Não estou nem me referindo ao sarapatel de Ford Capri com Lincoln Continental com Rolls Royce (que até ficou engraçado), mas à frente do carro na sua reencarnação como perua. Parece carro de parquinho de diversão!

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  18. Acho muito legal esse tipo de carro, violência total, motor completamente ignorante... é carro pra chegar na voadora!
    Parece que depois da segunda guerra essas sobras militares ficaram relativamente baratas, pois o mesmo cara comprou dois!
    Pena que o carro é tão feio. Ele podia ter copiado o estilo de um Mercedes 540K, ia ficar show e ia combinar com a frente longa; além disso toda a elegância da carroceria faria um contraste muito legal com a brutalidade do desempenho. Aproveitando a deixa do blog, pintava de branco e ia ficar um monstro violento mas muito refinado. De Frankstein para Drácula, haha...
    Taí, mais um pra lista de coisas a fazer quando ganhar na Mega Sena!

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  19. Pronto! Achamos o pai do Ogro do Cerrado!!! Alexandre Garcia já pode reclamar sua herança inglesa! hehehehe...

    Brincadeiras a parte, um carro fenomenal e excêntrico. Encontrar beleza neste modelo é impossível. Ao menos que ande-se sempre com o capô no porta-malas.

    Um belo achado, Bitu. Sem dúvidas, um belo achado.

    Grande abraço aos AE.

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  20. Aqui em Fortaleza no final dos anos 60 ou início dos 70 a Italdiesel construiu um protótipo para competições utilizando um motor Franklin de avião que deveria ter algo como 200 cavalos e os problemas para sua utilização foram exatamente relacionados a câmbio e transmissão. Mas como aqui não tinha nenhum "nobre inglês" o propulsor terminou sendo substituído por um Volkswagen e vencendo o extinto campeonato Norte-Nordeste pilotado por Antônio Cirino.

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  21. Eu já conhecia a versão atual desse mastodôntico "sports wagon", ao procurar vídeos sobre os Merlin V12 no YouTube. Mas não sabia que, antes, "The Beast" havia encarnado um visual a lá Rolls-Royce...

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  22. FB,

    Bacana a historia.

    Apenas uma correcao de traducao.

    The Beast significa A Fera e nao a besta.

    Um abraco.

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    1. Besta é sinônimo de fera.
      ;-)

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  23. a historia é interessante ! mais o carro.....rsrs

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  24. .:run4fun:.

    Boa essa, quase me engasguei de rir!
    Eu já vi esses Merlin ao vivo, inteiros, em pedaços, cortados, são no meu entendimento o motor mais exotico e fantástico jamais feito. Uma obra de arte.

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  25. Scheidecker

    Não se esqueça do significado bíblico de "Beast", no Apocalipse de São João.

    Ou será que você nunca ouviu Iron Maiden?

    :)

    FB

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  26. Graças a loucos como esse é q nascem varias engenhocas boas...

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  27. Ingleses e suas engenhocas...tá certo que o lado estético foi cuidado somente depois de abastecer o tanque num pub...mas é um brinquedão interessante.
    Só lá que veremos kit cars em profusão, com toda sorte de motores e estética.

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  28. Bruce Dickinson27/11/09 11:38

    The number of the beast, 666

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  29. Sandoval Quaresma27/11/09 14:48

    950/27 = 38,185 hp/l

    considerando sobrealimentação

    1500/27 = 55,56 hp/l

    Tio Sam se sentiria orgulhoso se essa traquitana fosse american.
    belo representante da filosofia: Nada substitui polegadas cúbicas

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  30. De repente o Merlin ficou parecendo motor compacto.


    http://www.youtube.com/watch?v=32hQ8mtSNGc

    Sr. MAO, por favor providencie a história desse outro monstro, o Brutus. :-)

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  31. Esse motor chegou a ser porduzido nos EUA (pela Packard, se não me engano). Uma "besta" com o estilo de carroceria do Sting Ray ficaria fantástica. E olhe que com o tamanho daquela dianteira, se bobear a carroceria original veste o motor com sobra!

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  32. Os P-51, P-38 e P-40 usavam a versão fabricada pela Packard nos EUA, licenciado pela Rolls-Royce.
    O Merlin e lindo, ve-lo montado em cima de um cavalete, e logo do lado ele em corte, no Musal aqui no RJ, foi demais. Lá tem uns 4 ou 5 exemplares, inclundo Packards.
    Até.

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