Um de nossos leitores, o André Andrews, perguntou quem é o Mestre Mahar citado no post "Passado e Presente".
Bem, o Mestre Mahar é o José "Mahar" Ribeiro de Rezende. Um ser sensível e romântico que ama o automóvel de uma maneira única. Além desse amor ele tem um conhecimento enciclopédico sobre tudo que tem rodas; automóveis, motos e caminhões, além de aviões e barcos, principalmente dos antigos.
Eu o conheci quando um dos integrantes do AUTOentusiastas o convidou para fazer parte do nosso grupo (fórum) na internet. Logo percebi que se tratava de uma pessoa especial, refinada nas ideias sobre o automóvel, mas ao mesmo tempo simples e generosa. Sempre dividiu seu conhecimento com paciência e muito incentivo ao entusiasmo.
Ele já trabalhou em tudo que é revista de automóveis sendo que a Motor 3 é o motivo de maior orgulho. Numa busca rápida pelo Google dá pra ver que ele contribui para os principais sites de antigomobilismo do Brasil. Atualmente anda escrevendo para as revistas Transporte Mundial, Moto e Oficina Mecânica.
Desde o início do blog AUTOentusiastas nós o convidamos para escrever aqui. Pode ser que ele se sensibilize com a insistência de alguns leitores.
A pedidos, ele nos enviou essa uma pequena grande autobiografia (que já anda pela internet). Ao ler o texto dá pra entender porque eu insisto para que ele escreva aqui nesse blog.
Bem, o Mestre Mahar é o José "Mahar" Ribeiro de Rezende. Um ser sensível e romântico que ama o automóvel de uma maneira única. Além desse amor ele tem um conhecimento enciclopédico sobre tudo que tem rodas; automóveis, motos e caminhões, além de aviões e barcos, principalmente dos antigos.
Eu o conheci quando um dos integrantes do AUTOentusiastas o convidou para fazer parte do nosso grupo (fórum) na internet. Logo percebi que se tratava de uma pessoa especial, refinada nas ideias sobre o automóvel, mas ao mesmo tempo simples e generosa. Sempre dividiu seu conhecimento com paciência e muito incentivo ao entusiasmo.
Ele já trabalhou em tudo que é revista de automóveis sendo que a Motor 3 é o motivo de maior orgulho. Numa busca rápida pelo Google dá pra ver que ele contribui para os principais sites de antigomobilismo do Brasil. Atualmente anda escrevendo para as revistas Transporte Mundial, Moto e Oficina Mecânica.
Desde o início do blog AUTOentusiastas nós o convidamos para escrever aqui. Pode ser que ele se sensibilize com a insistência de alguns leitores.
A pedidos, ele nos enviou essa uma pequena grande autobiografia (que já anda pela internet). Ao ler o texto dá pra entender porque eu insisto para que ele escreva aqui nesse blog.
Cabotinice,
Ou eu sou GASOLINÔMANO
Mahar
A única razão válida para fazer isso aqui é talvez inspirar algum garoto a fazer algo diferente no pais do futebol. Mesmo arriscando o rabo ao ser classificado como exibido, gostaria de dizer aos garotos que vêm me perguntar coisas, que é valido e bom ser furiosamente apaixonado por veículos, como sempre fui. É uma coisa de não ver interesse algum em qualquer coisa que não queime gasolina, que não ronque ou faça calor.
Foi assim que comecei em 1960, lá pelos nove anos de idade. Meu pai tinha desde zero um impecável Chevrolet Styleline Sedan 1951, claro que preto e funcionando como um relógio suíço. Tratado a cotonete, em 1960 era o sonho de consumo de nossos irmãos bigodudos da praça. Eram mecânicas menos estressadas, de baixo giro, e mesmo com o conhecido sistema de lubrificação a salpico, onde o óleo é espirrado nos pés de biela, duravam muito. Não era incomum achar uns carros desse com 500.000 km só tendo tido os inevitáveis preenchimentos de metal branco no virabrequim. Mas foram exatamente essas características que me deram um trauma que explica os carros que tenho hoje em dia, o Mahalet e a Baleia Branca. Mais sobre isso adiante.
Sempre gostei de carro antigo. Há mais de 30 anos frequento o Veteran do Rio, desde os tempos da Praça do Miguel Couto. Acho firmemente que desconhecer o passado do automóvel é não ter as ferramentas para entender o presente. Essa fissura de gasolinômano orientou toda a minha vida. Sempre foi automóveis o tempo todo, com erros como ser advogado sem diploma (nunca tive saco pros estágios e OAB).
Quem já viajou comigo sabe que não tem museu, shopping ou restaurantezinho aconchegante na Rive Gauche. É museu, coleção, loja de carros ou peças, coisas de caminhão, clube náutico, autódromo, motocicleta. Tenho um bom amigo, o Sanzio, que foi pra Argentina comigo em 2004. Lá pelo décimo dia perguntou: mas é só motor? Não, a loja do Louis Vuitton e da Lancôme tão aí mesmo... E olha que ele gosta muito do tema, tem moto e vários carros estranhos.
Acho que ficou claro o nível de fissura por isso tudo. Vivi a vida inteira envolvido por essas coisas, inclusive com coisas obscuras. Uma delas é o fato de que o Barão foi pioneiro em imprensa náutica a motor no Brasil. Grande coisa, só copiei o teste técnico da Boating, já que desde priscas eras me toquei de ter de saber falar mais de uma língua pra corresponder ao vicio. Então enquanto todo mundo fugia e aprendia no ginásio só o suficiente pra passar, eu queria ler a Bíblia, a Road & Track, e naturalmente aprendi. Também falando de sexo o tempo todo...
Assim foi com mais francês, italiano e espanhol, o que me permitiu aprender tanta coisa.
Tive muitos carros. Claro que o primeiro foi um Fusquinha. Era um 68, ganho do pai numa barretada de almoço dominical do tipo você nunca vai passar no vestibular. Naquela época podia incluir no exame varias línguas e as matérias do Clássico eram humanistas, do tipo Psicologia, Sociologia e não tinha física, química ou biologia. Além disso, era possível fazer uma redação com muito valor...
Num outro domingo cheguei na frente da família toda e mostrei que não só passei como foi lá em cima na PUC e na UEG. Papai Mahar a contragosto comprou, isso em 1971: um 68 de uma vizinha com 6.000 km rodados, embora a promessa fosse de um carro zero. Mas eu preferia o modelo mais antigo e rodei 300.000 com ele. Viagens de final pra sumpa e muitos lugares, não era o Vital, mas passei a me sentir total. Foi aí que me entreguei aos encantos dos carros sobresterçantes com meus Cinturatos 155-15, minha trombinha, uma alavanca de câmbio de Karmann-Ghia e uns faróis de longo alcance. Um prazer e um conhecimento que a geração atual não tem mais, com seus carros sanitizados do tipo tudo na frente, que não exigem mais arte e sutileza para controlar. Foi uma escola.
Daí tive um JK 2150 1970. Outra escola completa, que ensinou o que era um carro europeu legal, esportivo e veloz, embora complicado e temperamental. Não é à toa que tem na Itália um ditado que diz:
Donne e motori, gioie e dolori.
Queimava junta, ameaçava pegar fogo, deu uma apodrecida rápida em um ano, mas quando funcionava era inesquecível. Seu motor me ensinou que havia uma outra espécie de vida fora dos EUA. Cheguei até a arranjar uma namorada na embaixada da Suíça por causa dele. O primo corria rali de Alfa por lá e tinha peças inacreditáveis. Foi assim que tive uma dupla Weber 40, pistões oversize pra 2.200 cm³, coletor 4x2 e 150 cavalos.
A Alfa que tinha já se foi, mas merece uma menção honrosa. Era uma Giulia Super de 1967. 1.600, dois Weber 40 e 122 cavalos para 900 quilos. Um carro que é a expressão pura do tesão automotivo. Comprei em 1980 do paulista que a comprou de Ubaldo Lolli, o chefe da equipe Alfa Romeo Corse daqui, a Jolly-Gancia do comendador Piero Gancia, famosa nos anos de ouro do automobilismo no Brasil. Parou há muito tempo e agora está com um dono amoroso e abonado para uma restauração. Mas voamos muito por esse país com ela...

O resto foi uma longa sucessão de Opalas 4 e 6 e Belinas, principalmente quando descobri a MOTOCICLETA. Um amigo trouxe do Acre uma Honda 350 72 e aprendi a andar nela junto com o Lula, seu irmão. Daí foram anos de equilíbrio instável, e um longo aprendizado de que não era necessário ter uma tonelada de lata em trono de você para ser feliz. Cheguei a andar entre os dez mais rápidos do Rio nos anos 70.
Tive moto de 73 a 92, quando a hora das contas em uma separação dolorosa impôs que o acervo de motos tivesse que ir embora. Uma Honda 500 Four braba até a alma, mais uma 750F1 e uma Kombi de peças. Foi tudo pelo ralo.
Ou eu sou GASOLINÔMANO
Mahar
A única razão válida para fazer isso aqui é talvez inspirar algum garoto a fazer algo diferente no pais do futebol. Mesmo arriscando o rabo ao ser classificado como exibido, gostaria de dizer aos garotos que vêm me perguntar coisas, que é valido e bom ser furiosamente apaixonado por veículos, como sempre fui. É uma coisa de não ver interesse algum em qualquer coisa que não queime gasolina, que não ronque ou faça calor.
Foi assim que comecei em 1960, lá pelos nove anos de idade. Meu pai tinha desde zero um impecável Chevrolet Styleline Sedan 1951, claro que preto e funcionando como um relógio suíço. Tratado a cotonete, em 1960 era o sonho de consumo de nossos irmãos bigodudos da praça. Eram mecânicas menos estressadas, de baixo giro, e mesmo com o conhecido sistema de lubrificação a salpico, onde o óleo é espirrado nos pés de biela, duravam muito. Não era incomum achar uns carros desse com 500.000 km só tendo tido os inevitáveis preenchimentos de metal branco no virabrequim. Mas foram exatamente essas características que me deram um trauma que explica os carros que tenho hoje em dia, o Mahalet e a Baleia Branca. Mais sobre isso adiante.
Sempre gostei de carro antigo. Há mais de 30 anos frequento o Veteran do Rio, desde os tempos da Praça do Miguel Couto. Acho firmemente que desconhecer o passado do automóvel é não ter as ferramentas para entender o presente. Essa fissura de gasolinômano orientou toda a minha vida. Sempre foi automóveis o tempo todo, com erros como ser advogado sem diploma (nunca tive saco pros estágios e OAB).
Quem já viajou comigo sabe que não tem museu, shopping ou restaurantezinho aconchegante na Rive Gauche. É museu, coleção, loja de carros ou peças, coisas de caminhão, clube náutico, autódromo, motocicleta. Tenho um bom amigo, o Sanzio, que foi pra Argentina comigo em 2004. Lá pelo décimo dia perguntou: mas é só motor? Não, a loja do Louis Vuitton e da Lancôme tão aí mesmo... E olha que ele gosta muito do tema, tem moto e vários carros estranhos.
Acho que ficou claro o nível de fissura por isso tudo. Vivi a vida inteira envolvido por essas coisas, inclusive com coisas obscuras. Uma delas é o fato de que o Barão foi pioneiro em imprensa náutica a motor no Brasil. Grande coisa, só copiei o teste técnico da Boating, já que desde priscas eras me toquei de ter de saber falar mais de uma língua pra corresponder ao vicio. Então enquanto todo mundo fugia e aprendia no ginásio só o suficiente pra passar, eu queria ler a Bíblia, a Road & Track, e naturalmente aprendi. Também falando de sexo o tempo todo...
Assim foi com mais francês, italiano e espanhol, o que me permitiu aprender tanta coisa.
Tive muitos carros. Claro que o primeiro foi um Fusquinha. Era um 68, ganho do pai numa barretada de almoço dominical do tipo você nunca vai passar no vestibular. Naquela época podia incluir no exame varias línguas e as matérias do Clássico eram humanistas, do tipo Psicologia, Sociologia e não tinha física, química ou biologia. Além disso, era possível fazer uma redação com muito valor...
Num outro domingo cheguei na frente da família toda e mostrei que não só passei como foi lá em cima na PUC e na UEG. Papai Mahar a contragosto comprou, isso em 1971: um 68 de uma vizinha com 6.000 km rodados, embora a promessa fosse de um carro zero. Mas eu preferia o modelo mais antigo e rodei 300.000 com ele. Viagens de final pra sumpa e muitos lugares, não era o Vital, mas passei a me sentir total. Foi aí que me entreguei aos encantos dos carros sobresterçantes com meus Cinturatos 155-15, minha trombinha, uma alavanca de câmbio de Karmann-Ghia e uns faróis de longo alcance. Um prazer e um conhecimento que a geração atual não tem mais, com seus carros sanitizados do tipo tudo na frente, que não exigem mais arte e sutileza para controlar. Foi uma escola.
Daí tive um JK 2150 1970. Outra escola completa, que ensinou o que era um carro europeu legal, esportivo e veloz, embora complicado e temperamental. Não é à toa que tem na Itália um ditado que diz:
Donne e motori, gioie e dolori.
Queimava junta, ameaçava pegar fogo, deu uma apodrecida rápida em um ano, mas quando funcionava era inesquecível. Seu motor me ensinou que havia uma outra espécie de vida fora dos EUA. Cheguei até a arranjar uma namorada na embaixada da Suíça por causa dele. O primo corria rali de Alfa por lá e tinha peças inacreditáveis. Foi assim que tive uma dupla Weber 40, pistões oversize pra 2.200 cm³, coletor 4x2 e 150 cavalos.
A Alfa que tinha já se foi, mas merece uma menção honrosa. Era uma Giulia Super de 1967. 1.600, dois Weber 40 e 122 cavalos para 900 quilos. Um carro que é a expressão pura do tesão automotivo. Comprei em 1980 do paulista que a comprou de Ubaldo Lolli, o chefe da equipe Alfa Romeo Corse daqui, a Jolly-Gancia do comendador Piero Gancia, famosa nos anos de ouro do automobilismo no Brasil. Parou há muito tempo e agora está com um dono amoroso e abonado para uma restauração. Mas voamos muito por esse país com ela...

O resto foi uma longa sucessão de Opalas 4 e 6 e Belinas, principalmente quando descobri a MOTOCICLETA. Um amigo trouxe do Acre uma Honda 350 72 e aprendi a andar nela junto com o Lula, seu irmão. Daí foram anos de equilíbrio instável, e um longo aprendizado de que não era necessário ter uma tonelada de lata em trono de você para ser feliz. Cheguei a andar entre os dez mais rápidos do Rio nos anos 70.
Tive moto de 73 a 92, quando a hora das contas em uma separação dolorosa impôs que o acervo de motos tivesse que ir embora. Uma Honda 500 Four braba até a alma, mais uma 750F1 e uma Kombi de peças. Foi tudo pelo ralo.
Mas ando de moto até hoje e me divirto, não com o fervor passado. Talvez seja a idade, mas hoje em dia voltei às origens e em 97 comprei um Chevrolet Fleetline coupé de 1951, uma volta em busca do tempo perdido. Com as últimas crises da Fundação, o Chevy se foi para um rapaz de Curitiba, depois de anos restaurando e alguns andando com ele. Seu potente motor 261 me deixou saudade.

O grande amor que se foi chamava-se Omega 3,0 CD 1994. Foi para um amigo depois de fazer várias viagens a Bariloche, para ver a Mil Millas da Argentina. Um rali inesquecível, entre lugares, pessoas e carros de outro mundo.

Mas ficou a Mahavan, um carro legal: Caravan L 1984 2,5 a álcool, cinco marchas. Uma suspensão bem acertada, um bom jogo de Michelins, um motorzinho esperto de 130 cv e ainda voamos pelas estradas. Como diz um amigo, riding with the King.

O grande amor que se foi chamava-se Omega 3,0 CD 1994. Foi para um amigo depois de fazer várias viagens a Bariloche, para ver a Mil Millas da Argentina. Um rali inesquecível, entre lugares, pessoas e carros de outro mundo.

Mas ficou a Mahavan, um carro legal: Caravan L 1984 2,5 a álcool, cinco marchas. Uma suspensão bem acertada, um bom jogo de Michelins, um motorzinho esperto de 130 cv e ainda voamos pelas estradas. Como diz um amigo, riding with the King.
