Quando o Proálcool foi criado, em novembro de 1975, decidiu-se pelo álcool hidratado puro para movimentar os veículos. Já se sabia que o álcool tem difícil vaporização abaixo de 15 °C e que, por isso, qualquer carro a álcool teria que dispor de um sistema qualquer que injetasse gasolina para o motor pegar quando a temperatura estivesse baixa.Claro, no Brasil a temperatura média é alta, mas no Sudeste e no Sul faz frio no inverno e os carros álcool tiveram de vir com o sistema auxiliar de partida, que consiste de um reservatório de gasolina de 0,5 a 1 litro e uma pequena bomba elétrica, fora todo o resto como mangueiras, conexões etc.
A turma do Hemisfério Norte foi mais esperta: em vez de álcool hidratado puro, partiram para uma mistura de 85% desse álcool, porém anidro (sem água) e 15% de gasolina. Desse modo a partida a frio estava assegurada, a par de outra vantagem, a melhor dirigibilidade na fase fria de funcionamento do motor. Esse álcool foi chamado de E-85 e passou a ser vendido nos postos dos EUA a partir de 1991.
O que se viu aqui foi uma notável evolução do sistema auxiliar de partida, que de manual no começo passou a automático, simplificando a operação. Mas ainda era essencial o reservatório de gasolina e quando a Honda resolveu lançar o Civic e o Fit flex, não havia espaço no cofre do motor do primeiro. A solução foi instalar o reservatório no interior do para-lama dianteiro direito, com abastecimento externo sob uma portinhola.
Só que o reservatório naquele ponto poderia representar risco em caso de acidente. A Honda, então, envolveu o reservatório por uma couraça de aço naval de 5 mm de espessura. Olhem só o tamanho do problema. E, por questão de uniformização, foi feito o mesmo no Fit, que tinha espaço para o reservatório no cofre do motor, como em todos os carros.
Bem recentemente a Volkswagen lançou o Polo E-Flex, que tem um sistema de aquecimento da galeria de combustível, desse modo dispensando gasolina para partida a frio. O sistema é interessante, embora exija espera de 2 segundos se a temperatura estiver entre 14 °C e 5 °C e 12 segundos abaixo disso até zero grau.
A Honda apresentou esta semana a motocicleta CG 150 Titan Mix, flex. Por não ter sistema auxiliar de partida a frio, o proprietário terá que ter no tanque um mistura de 80% de álcool e 20% de gasolina quando a temperatura baixar de 15 °C. Essa mistura, considerando que a nossa gasolina já tem 25% de álcool, é exatamente a E-85 dos EUA e Europa. Mas, convenhamos, para o proprietário de uma moto dessas que viva no Sudeste/Sul, é um certo inconveniente usar álcool.
Em novembro, num seminário da SAE Brasil sobre combustíveis, a GM propôs adotar-se o E-85 no Brasil, no que foi prontamente acompanhada pela Renault.
Resumo da ópera, ou deste post: quantos problemas teriam sido evitados se o Brasil tivesse partido para o E-85 já em 1979, quando surgiram o primeiros carros a álcool, o Fiat 147 e o Passat 1500.
Quanto mais que nunca tivemos problema de falta de gasolina após a Segunda Guerra Mundial e que a partir dos anos 50 o que importávamos de petróleo era determinado pela necessidade de refinar diesel, no que a gasolina era apenas um consequente e inevitável subproduto.
Seguimos mesmo o caminho errado.
BS






