google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 AUTOentusiastas Classic (2008-2014)

O engenheiro Ricardo Penteado - mais conhecido como Botoman - é brasileiro de Florianópolis, SC, e há mais de cinco anos trabalha como engenheiro de motores na Equipe Renault de F-1. Por incrível que pareça, uns quatro anos atrás o Boto me escreveu para trocarmos ideias sobre Fuscas - ele, assim como eu, é doente por Fusca; vai entender.


Dessa troca de e-mails formou-se uma boa amizade. Hoje ele é também engenheiro de pista, onde era responsável pelo motor do Nelsinho Piquet (há uma equipe completa para cada piloto). Na quarta-feira antecedente ao GP do Brasil do ano passado batemos um papo com o Boto nos boxes da equipe e ele nos falou de coisas curiosas dessa categoria que é a top em tecnologia.

O Ricardo Penteado e eu, no GP do Brasil de 2008

Um Fórmula 1 atual é um avião de ponta-cabeça, cujos flapes estariam em posição de decolagem. Suas asas o comprimem com tanta força de encontro ao solo, que a 150 km/h essas forças já são maiores que a massa do carro, portanto, teoricamente, se ele entrasse num enorme cano, a essa velocidade ele poderia ir subindo pela parede e seguir grudado no teto. (nota: essa informação é velha. O que é novo é saber a velocidade mínima certa).


Ao longo da corrida, tudo vai bem desde que o carro esteja andando pra frente. As asas atuam desde que alinhadas com o deslocamento do carro. Numa curva, uma escorregada de lado literalmente descola o carro do chão e ele sai voando pela tangente. Portanto, esqueçam as curvas em belos powerslides - quando o piloto acelerava e contraesterçava, fazendo o carro curvar de lado - da época dos F-1 "charutinhos" para trás.


Em duas curvas sucessivas que formam um "S", o piloto evita passar na zebra interna da primeira curva, pois a pequena levantada da frente do carro já o faria perder por momentos a sucção de encontro ao solo e, conseqentemente, a aderência. Não haveria tempo para recuperá-la e evitar entrar errado na segunda curva. Nesses "S" apertados, observe que eles só sobem na zebra da 2a. curva, a da saída.


O motor V-8 de 2,4-litros tem rotação máxima limitada pela FIA, que coloca um limitador eletrônico oficial em cada carro. A 18.000 rpm a ignição é cortada e o motor dá uma engasgada forte. As equipes colocam um limitador que provoca pequenas falhas a uma rotação um tiquinho mais abaixo, para que o piloto não deixe chegar a esse corte, o que ocasionaria perda de velocidade. Em experimentos, a Renault F1 já "brincou" com seu motor a 24.000 rpm, e ele aguentou.


Para atingir essas rotações absurdamente altas, o motor precisa ser o que é chamado de superquadrado, ou seja, o diâmetro do cilindro é maior que o curso do pistão. Os motores atuais da F-1 estão com uma relação de aproximadamente 5:2. É um dado secreto, mas é algo em torno de 100 mm de diâmetro por 40 mm de curso.


Enquanto esperam em "marcha lenta" a luz de largada, os motores estão virando acima das 4.000 rpm. Abaixo disso há o risco de uma "pipocada" apagar o motor.


Na tal Volta da Vitória, após o final da corrida, quando pela TV ouvimos o motor virar suavemente, devagarzinho, seu giro está acima de 8.000 rpm - rotação sequer imaginada pela imensa maioria dos motores de nossos carros rua.


Os motores têm que aguentar duas corridas, o que, incluindo os treinos e classificações, não soma mais que 800 km. Isso é duzentas vezes menos o que um motor de carro de rua aguenta normalmente.


A cada lado do carro há um grande radiador, o da esquerda é de água, o da direita, óleo. Não há ventoinha, portanto, o motor não pode ficar funcionando com o carro parado por mais de 6 minutos, senão ele sobreaquece.


O óleo lubrificante, ao ser retirado é analisado imediatamente numa máquina. Ela consegue identificar e pesar os micro-pedaços de material que ali ficaram depositados. Dependendo do material, eles sabem de onde veio tal partícula. Por ex: se for um alumínio "x", é do pistão. Há uma tolerância de segurança para cada um.


O peso mínimo ao final da corrida, com piloto e combustível, deve ser maior que 605 kg. Algumas equipes têm que colocar 40 kg de lastro para atingir esse peso. A vantagem é que os pesos de lastro são colocados onde melhor equilibram o carro.


Cada 10 kg a mais de peso acarretam em perda de 0,4 segundo por volta, em média. O combustível é medido por peso e não por litro, pois seu volume varia de acordo com a temperatura e eles precisam de números exatos. Um F-1 na corrida consome ao redor de 1 kg a cada 2 km. Considere-se uma densidade 0,72 e temos em torno de 1,4 km/L.


A potência dos Renault F-1 está - dependendo das condições atmosféricas e de altitude - por volta de 730 cv. O motor Mercedes, o mais potente de todos, tem uns 15 cv a mais. O torque é baixo nas rotações inferiores, pois buscam potência por meio da rotação alta. O torque máximo está ao redor de 28 a 30 mkgf a 16.000 rpm, que é quando o motor melhor "respira". O peso mínimo exigido pela FIA para o motor é de 95 kg, senão eles o fariam ainda mais leve.


A grosso modo, o carro é dividido em três partes. Cockpit acoplado à suspensão dianteira, motor, e caixa de câmbio acoplada à suspensão traseira. Só seis parafusos, finos como o dedinho de uma criança, prendem o motor ao cockpit. Outros seis parafusos igualmente finos prendem o motor à caixa de câmbio. Inacreditável!


A árvore da direção está entre os pedais de freio e acelerador. Impossível fazer o punta-tacco.


São 7 marchas. O controle é absolutamente do piloto. A que ele pedir nas borboletas, entra.


O diâmetro das rodas é 13 polegadas. Os pneus usam ao redor de 18 libras de pressão. O flanco é alto para que os pneus atuem como amortecimento, ajudando a suspensão.


Ano que vem será permitida a colocação de um motor/gerador que carregará as baterias ao frear. Depois, na hora de acelerar, o piloto pode apertar um botão no volante para que esse gerador se transforme em motor que ajudará na acelerada, um boost. Nem todos usarão, pois não será obrigatório. A Renault já tem seu sistema, mas não o revela ainda. (Nota: é o KERS)


Hoje a fábrica da Renault, com seus enormes recursos de laboratórios e técnicos, ajuda muito na pesquisa. Essa pesquisa é orientada pela equipe de corridas, que pede à fábrica o que precisa.


As calotas, novidade na categoria - porém há anos sugeridas por este repórter ao amigo Boto, que na entrevista confirmou a sugestão - servem para eliminar a turbulência provocada pela depressão do miolo da roda, o que gerava arrasto. Elas têm uma forma para a exaustão do ar, para a ventilação dos freios.


Ainda entro na F-1 só dando ideias, só usando a cachola, feito um guru.


AK


Novo Cadillac SRX 2010

Cena 1: Num mercado já saturado de modelos SUV (sigla, em inglês, de veículo utilitário esporte) , surgiu o primeiro SUV crossover de luxo, o Lexus RX 300. Sua proposta foi combinar as características funcionais de um SUV com o rodar de um sedã de luxo, acompanhado de todos os apetrechos e eletrônica carecterísticos dessa classe de sedãs. Mais, tração dianteira ou integral, motor de 3-L V-6 e 222 cv etc. Bom lembrar que no mercado americano já havia o Lexus LX, baseado no Toyota Land Cruiser, desde 1996, com proposta de SUV de luxo e amenidades, porém estes eram ainda do conceito chassis + carroceria (body-on-frame).

Não estou aqui para defender esse modelo contra nenhum outro, tampouco de incluir SUVs na minha lista de carros entusiásticos, mas apenas para ilustrar um evento no dinâmico mundo dos lançamentos de automóveis e falar um pouco de planejamento de produto, marketing, inspirações e benchmarking.

Lexus RX 300 1ª geração

Os SUV crossovers não eram novidade nenhuma, mas sim o luxo nesse meio. Essa ousadia do marketing da Toyota, mais a reputação de qualidade dos Lexus, renderam-lhe não somente a liderança do recém-inaugurado segmento, que se estende até os dias de hoje, como também volumes bem além das expectativas. Imaginem um jipe de luxo, vendendo na casa das 100.000 unidades anuais, só nos EUA. Seu lançamento deu-se no início de 1998.

Mercedes-Benz ML 320 1ª geração

Quase simultaneamente vem o ML320/430, outro crossover de luxo com o emblema da Mercedes-Benz, made in USA. Maior, tração traseira ou integral, mais caro e por isto, posicionado uma sub-categoria acima, como SUV crossover médio de luxo Trouxe algumas inovações adicionais, como o controle eletrônico de estabilidade, side-bags etc. Também aumentou a gama de oferta de motorizações para outros mercados - na Europa com opções diesel, como nos demais modelos da marca.

BMW X5 1ª geração

No ano seguinte, vem o BMW X5, rival direto do Mercedes, também made in USA, na mesma categoria médio de luxo, algumas características herdadas da então associação com Land Rover e maior esportividade, repetindo o que cada veículo BMW oferece em relação ao equivalente direto Mercedes, tema desta semana dos posts de nossos amigos MAO, JJ e Vic Rodriguez. Se considerarmos que da concepção ao lançamento de um novo carro, na época, não decorriam menos 36 meses, podemos concluir que esses três fabricantes chegaram a trabalhar simultaneamente em seus projetos que iriam inaugurar o segmento dos SUV crossovers de luxo e Mercedes e BMW inaugurando fábricas nos EUA. Portanto, tiveram pouco ou nenhum contato com os produtos prontos do outro, para tirar mais algumas inspirações e benchmarking.

Cadillac SRX

Cena 2: Seguidores. Acura MDX é lançado como ano-modelo 2002 e dois anos depois vem o Cadillac SRX. Ambos usaram algum modelo como benchmark? Sim, natural. Tiveram tempo suficiente para isso e aprimoraram seus modelos sobre o que havia. Obrigatório, para quem vem depois. O MDX é tido hoje como referência dos crossovers médios pela mídia especializada e também lidera as vendas nessa sub-categoria. Mais um trabalho bem feito da Honda.

Acura MDX 1ª geração

Sabe-se que os engenheiros do projeto SRX se inspiraram no BMW X5. Nenhum demérito em estrear depois, muito menos em buscar o X5 como benchmarking. O carro ficou muito bom, trouxe mais algumas inovações etc. Na gama de motorizações, um V-6 de 258 cv e um Northstar V-8 de 324 cv, vê-se que excediam as ofertas do X5 quanto a potência, de respectivos 6-cilindros (em linha) - 228 cv e V-8 4,4-L de 290 cv. Outros fabricantes também entraram no segmento luxo, Land Rover Discovery 3 (não entrarei na polêmica quem veio antes), o VW Touareg, Audi Q7, Porsche Cayenne, Infinity FX 35/45. Para não ficar sem produto na sub-categoria médios, a Toyota lançou o GX 470, porém o único body-on-frame da classe (este baseado no Land Cruiser Prado), portanto saindo do conceito crossover. Curiosamente, as avaliações das revistas especializadas não lhe roubaram pontos em comportamento dinâmico, agilidade, nem conforto (copiei aqui um link da Car and Driver de 2007, que comparou oito modelos médios, todos na faixa de 50 mil dólares).
Lexus GX 470

Resumo da ópera #1: O Cadillac SRX veio depois, a exemplo dos SUVs crossover médios de luxo, derivou-se de uma plataforma de sedã, Cadillac CTS/STS, mirou seu foco no BMW X5 e ficou muito próximo em suas qualidades, com desempenho superior, enfim, copiando o veredicto do comparativo da Car and Driver de 2007, "um dos sucessos mais inesperados e de maior orgulho na história da marca Cadillac". Porém, seu volume de vendas sempre esteve aquém do esperado, vendendo metade do X5 e uma fração do Lexus RX, isso em casa, no mercado americano (tabela anexa, não contém apenas o Mercedes, cujas vendas no mercado americano ficaram próximas ao X5 e inferiores ao Acura MDX).

E o sucessor do Cadillac SRX? Antes falemos de alguns pontos que norteiam a concepção de um sucessor, trazidos, em geral, pela turma de marketing e definidos com planejamento do produto e engenharia.

O Golf Mk VI é superior ao Mk V em todos os quesitos, ou em quase todos, mas absolutamente o é nos mais importantes, que por sua vez é superior ao Mk IV (o nosso) e assim, sucessivamente até a primeira geração. Isto é uma premissa obrigatória na concepção do produto. Em que pesem alguns senões entusiásticos, procuro aqui não confundir laços afetivos por um ou outro modelo de determinada geração. Refiro-me somente ao produto. A leitura dos quesitos vem, em geral, das informações do mercado, mídia e do próprio aprendizado da engenharia da fábrica.

O Porsche 997, é superior ao 996 e assim na cadeia até o primeiro 911, o Astra IV (recém-lançado na Europa) é superior ao III (nosso Vectra atual), o Focus III superior ao II, ao I, que superava o Escort etc. Se olharmos os nipônicos, Honda New Civic supera de longe o anterior, o Corolla de 10ª geração (o nosso hoje) também supera o de 9ª. Em todos os exemplos citados, e falei de fabricantes com linhagem de produto bem definida e organizada (não as bagunças), olhamos os sucessores mais como uma evolução do que uma revolução, salvo algumas exceções, em que a turma acertou tanto a mão num ou noutro modelo, que até ficou difícil fazer um sucessor melhor, sem penalizar os custos e comprometer tudo.

Não é difícil deduzir a lógica que há por trás disso. Uma delas, a primária, é que marketing cuida de manter a fidelidade de seu público comprador à marca e ao produto, mesmo num mundo cada vez menos fiel. Assim, o proprietário de um Focus II terá motivos para trocar o seu por um da 3ª geração e manter-se fiel à marca Ford e ao modelo preferido. Sem evolução, não haveria esse convite natural. Mas como o Focus, que compete direto com Golf e Astra, não tem renovação simultânea, além de o marketing procurar a fidelidade, também buscará a infidelidade, ou seja, o novo Astra IV, que tem sido considerado superior ao Golf VI e Focus III, também mira no proprietário de um Golf Mk VI, V ou IV, que pensa em trocar de carro da mesma categoria.

Mesma lógica se aplica às mudanças de categoria, por exemplo o proprietário de um VW Polo que pensa em melhorar, dentro ou fora da marca VW, irá olhar as opções de Golf VI, Astra IV e Focus III e todos eles também têm de ser melhores que seu Polo, oferecer mais etc. E até aos rebaixamentos de categoria, fenômeno que também ocorre. O proprietário de um Passat V (o anterior), quando for trocar para um carro de categoria menor, notará que o Jetta (Golf Mk V sedan) está tão bom que quase não sentirá o rebaixamento. Se o Passat for mais velho ainda, haverá até uma melhora...

Voltemos à GM. Eis que a turma da Cadillac, descontente com as vendas, decide mudar tudo. A segunda geração do SRX mirou seu foco no Lexus RX, aquele que estava na sub-categoria inferior de preço e dotes! Que já está em sua 3ª geração. Vai encarar também a primeira geração dos BMW X3, Audi Q5, Mercedes GLK e Volvo XC 60, Infinity FX 35 Mk II, todos eles com níveis de potência e torque equivalentes, cerca de 270 a 300 cv e 30 a 40 m.kgf, respectivamente.

Audi Q5

O novo SRX 2010 está um tremendo de um produto, mais um fruto da nova safra GM. Motor de primeiríssima, quase 90 cv/L, mais de 10 m.kgf/L, câmbio de 6 marchas, bom acerto de chassi, enfim, um verdadeiro Cadillac.

Porém, lembrando que a primeira geração SRX buscou o X5 como benchmark e o superou nas ofertas de potência, o novo vem com 268 cv/30,8 m.kgf e não fará o mesmo frente aos contendores, ao menos não no primeiro momento, pois anunciaram um 2,8-L turbo com 40 m.kgf, no mesmo nível do Q5, para depois.

Resumo da Ópera #2: Mas se não ser o supra-sumo do segmento, como costumava ser, já não basta, imaginemos o seu lançamento:

* O que dizer aos donos do SRX atual, para convidá-los a trocar o seu, pelo sucessor? "Querida, encolhemos as crianças?" É menor que a primeira geração, também tem menos potência, 304 cv, que o seu Northstar V-8 e este novo não disporá de V-8s.
* Como convencer os donos de ML, X5, Touareg, Q7, XC90, FX45 a trocar o seu por um carro, uma categoria inferior? O Obama disse que queria carros mais econômicos? Complicado, principalmente se estes tiverem V-8s...
* Mas, porém, contudo, entretanto serão muito empregados na argumentação dos vendedores. "quer trocar o seu V-8 Northstar agora e este tem somente 268 cv? Espere mais alguns meses pela versão mais potente, de 304 cv V-6". Ou seja, não há subida de categoria em potência...
* E o orgulho Cadillac? E o orgulho americano por ele? Pontos delicadíssimos.

Há um jargão na aviação que diz: "Aprenda com os erros dos outros, você não viverá o suficiente para aprender somente com os seus". A indústria automobilística tem mais de 100 anos, certamente há erros o bastante em sua história que nos ensinam a não mais cometê-los e, se não está sendo visto assim no novo SRX, ao menos será uma tarefa árdua vencer as barreiras naturais de um sucessor de categoria mais baixa.

Temos exemplos no Brasil de "cabeçadas" semelhantes. O Astra III europeu virou Vectra aqui, ou seja, em vez de vir uma evolução no Astra II, veio um involução no Vectra... não foi só a mídia especializada que caiu de pau. Afinal, será que há alguma alma capaz de dizer que nosso Vectra é equivalente ou superior ao novo Corolla ou ao new Civic? Notem que as gerações do início desta década desses dois modelos nipônicos não eram superiores ao Astra e eles evoluíram, o Astra ficou na mesma e o Vectra... numa sucessão de movimentos desconexos, já teve até motor 2,4-L.

Não foi só a GMB, vejam o Renault Mégane sedã: primeiro só 1,6-L e quando veio o 2,0-L, ninguém notou. O Focus III veio sem flex, na própria Ford há correntes que ainda não querem o flex, ou seja, nota-se uma certa carência na indústria de boas jogadas estratégicas, lá fora e aqui, carência esta que acaba fortalecendo aqueles que trabalham seu marketing e planejamento como se deve.



Mais sobre avaliações comparativas deste grupo de veículos, no link da Car and Driver
http://www.caranddriver.com/reviews/comparisons/09q3/2009_audi_q5_vs._2009_bmw_x3_2010_m-b_glk350_2010_volvo_xc60_2010_lexus_rx350-comparison_tests

e tabela comparativa
http://www.caranddriver.com/var/ezflow_site/storage/original/application/4175441152efbd1f2cdc28929cb79739.pdf

http://blogs.thecarconnection.com/marty-blog/1021427_compared-audi-q5-vs-bmw-x3-vs-mercedes-benz-glk

http://www.caranddriver.com/reviews/comparisons/07q2/bmw_x5_vs._acura_mdx_cadillac_srx_m-b_ml350_lexus_gx470_volvo_xc90_vw_touareg_land_rover_lr3-comparison_tests

CZ
Os 500 km de Interlagos é uma das provas mais tradicionais do automobilismo nacional. No fim de semana passado, aconteceu sua 27ª Edição.

A pole no sábado foi marcada pela surpresa do excelente desempenho do protótipo da equipe Metal Moro com motor Audi 1,8 turbo e pilotado por Juliano Moro e Christian Castro, que fez o ótimo tempo de 1:30,973 segundos, mais de dois segundos mais rápido que o segundo colocado, o F430 GT3 de Longo e Serra.

Logo no começo da corrida no domingo, o carro de Moro teve problemas e abandonou, e a liderança ficou muito disputada entre vários carros. Ao longo da prova com diversos líderes, quem se deu melhor no final foi mesmo a dupla Chico Longo e Daniel Serra, que venceram por pouco o Porsche 911 RSR de Max Wilson, Nonô Figueiredo e Marcel Visconde.

A corrida terminou um pouco antes do previsto, em bandeira vermelha, por conta de um acidente entre um Aldee Spyder e o F430 Challenge da FG Racing, na subida do Café. Nada de mais grave aconteceu com os pilotos, fora os carros muito danificados.

O resultado completo da prova pode ser visto por este link, e mais fotos já postadas podem ser vistas aqui.





A discussão da semana se deu em cima da dúvida entre BMW E30 M3 e Mercedes-Benz 190E 2.3-16, dois ícones alemães da década de 80.

Qual dos dois eu prefiro? Nenhum deles. Ficaria muito contente é com esse Audizinho 80 branco da foto abaixo, 1980 e alguma coisa. Tração integral, 5 cilindros, turbo.

Foto: Motive Magazine


Já adianto a discussão: o Vic Rodriguez vai dizer que o motor pendurado à frente do eixo dianteiro faz do Audi um "esfregador de dianteira", o Marco Antônio vai torcer o nariz dizendo que é um Santana (ou Voyage) metido a besta e o Bob Sharp vai ficar doido, pois gosta de Audi e ambos os carros estão pintados em sua cor favorita.

Entre os dois acima, eu fico com o velhinho, sem dúvida nenhuma. É o caixote mais bonito dos anos 80, mais até do que o Ur-Quattro.

FB


O recente texto do Bob Sharp sobre o Passat CC me aborreceu, não pelo texto em si, mas pelo objeto analisado, e tenho discutido um pouco sobre esse carro com amigos. A maioria considera o CC um belo carro, tanto em termos de aparência quanto nas habilidades mecânicas. Não questiono em nenhum momento o pacote de tecnologia, mais do que alinhado com o mercado, a categoria de preço e tamanho do carro. Minha tristeza é pelo design de carroceria, a meu ver apenas uma cópia descarada do Mercedes-Benz CLS, um carro que trouxe criatividade e inovação ao segmento de sedans grandes. Por si só, o CLS foi um impacto, e a VW seguiu muito de perto a Mercedes, perto demais, e resultou no CC. Talvez ele se chame CC devido ao campo "cc" dos e-mails, inclusive.

Aprendi hoje mesmo uma frase do jornalista inglês John Maddox, que escreveu em seu livro "What Remains to be Discovered" (O que falta ser descoberto):

"As descobertas que aprofundam a compreensão humana também aumentam as dúvidas. Temos de aprender a viver com isso".


Ao contrário de meu amigo VR, que já dirigiu o Mercedes 2.3-16 e é dono de um gloriosamente belo M3 de primeira geração, eu nunca dirigi nenhum dos dois. Mas nem preciso para formar opinião; li o suficiente a respeito deles durante os anos para saber exatamente como são. O meu post sobre o Mercedes na verdade saiu de mais uma incursão aos sebos paulistanos na semana passada, onde comprei um bocado de revistas americanas e inglesas que, por pura coincidência, falavam dos dois carros das mais diversas formas.

Vamos rever o que disse o VR:

“...também brilhante 190 2.3. É um carro de fato também muito bacana. Dogleg, interior que transpira esportividade. Excelente. Mas eu já guiei o 2.3 e posso afirmar que perto do M3 o Mercedes é lento. Não em velocidade, em sensação. Os engates são mais lentos, o motor pede menos para girar, a suspensão é muito mais macia. Não parece te chamar pra brincar como o M3. É um outro bicho.”

Essa é exatamente a impressão geral de todo escriba gringo que já comparou os dois. O Mercedes é menos excitante, o M3 uma festa, e aparentemente bem mais veloz.

Mas olhando-se os números de desempenho, e os tempos em pista dos dois, aprende-se muito. Apesar do M3 ser realmente mais rápido, o é por uma margem ridiculamente baixa para um carro de passeio, quase irrelevante em minha opinião. O Mercedes, como bem disse Vic, parece mais lento que o BMW.

Mas é óbvio, caro leitor. Uma das coisas que me fazem gostar mais deste carro do que os novos e poderosíssimos AMG’s modernos é o fato de que o 190E podia ser esportivo, mas ainda era um Mercedes-Benz. De verdade, daqueles orgulhosos de sua tradição e de sua origem, e que a vestiam sem vergonha alguma. Ele parecia mais lento que o M3, mas na realidade, no mundo fora da pista, não era. Era menos excitante, mas menos cansativo também. O Mercedes 190, como todo Mercedes de verdade, não podia ser excitante no idioma BMW, aquela linguagem crua, sem vergonha, nervosa e orgulhosamente esportiva. Não, Mercedes dão a satisfação com uma linguagem mais madura e polida, que se revela somente quando se faz uma longa viagem a velocidades altíssimas, e com conforto suficiente para poder chegar ao destino e voltar se necessário. Carros de luxo velozes e seguros, Mercedes nas estradas, BMW’s nas pistas. Carros e caminhões, carros e motocas.

É lógico que o 190E parecia menos nervoso, era Mercedes. Volante grande, a tradicionalíssima direção de esferas recirculantes, relação de ride & handling mercediana tradicional.

Mas a imprensa internacional andava aquela época numa cruzada para que todos as carros se tornassem BMW’s, e colocava esse tipo de comportamento tradicional da Mercedes como coisa de velho, de ultrapassado e fora de moda. Não posso negar que para um entusiasta uma BMW era sempre a opção mais lógica, mas daí a colocar esta pecha nos carros de Stuttgart é demais. O único escriba a defender os Mercedes não podia ter sido outro: LJK Setright. Formando sua própria opinião, e não se importando com o que a voz uníssona da turba dizia, Setright defendia leveza nos comandos, conforto e transmissões automáticas, e apesar de parecer realmente fisicamente um velhinho ultrapassado, costumava ser o mais veloz repórter presente a qualquer lançamento, a ponto de ser sempre despachado sozinho nos carros por falta de alguém com coragem suficiente para acompanhá-lo.

Mas a turba conseguiu seu intento. A Mercedes-Benz hoje se dedica a frivolidades e marketices. O design de seus carros, antes sagrado em sua seriedade e sobriedade clássica, mas belíssima, hoje é um festival de infantilidades. Bruno Sacco, que por anos foi o guardião dessa tradição, e que costumava dizer que um Mercedes se desenhava sozinho, precisando apenas ser ajudado por seus designers, hoje deve desacreditar no que se vê. Me parece lamentável que a tradição, a aerodinâmica e a funcionalidade que antes ditavam a forma de um Mercedes-Benz tenham hoje sido jogadas no lixo para que a moda apenas dite a forma dos carros. Para mim, coisas como um CLS são uma afronta a tudo que representava a empresa de Stuttgart.

Hoje há uma horda de Mercedes-AMG que cospe fogo e enxofre, que é mais cheia de guelras e nadadeiras que um cardume de tubarões. Mais un-Mercedes, impossível.

E as coisas não andam melhores em Munique. A BMW também nunca foi uma empresa que desenhava carros com a moda em mente. Não, carros alemães, como o povo que os criava, tinham que ter sempre a função acima da forma. Mas aí veio aquele tal de Bangle...

E é por isso que a melhor coisa que aconteceu à Jaguar foi o XF: depois de anos presa ao desenho “tradicional” do XJ de 1968, a empresa notou que ela não é a Mercedes, que um Jaguar sempre representou um corpo belíssimo em primeiro lugar. Se existe uma empresa de carros de luxo e esporte que deve fazer coisas sempre mais belas, é ela. Dos SS de antes da guerra, passando pelo XK 120, E-type e XJ, a marca formou uma tradição de desenho belíssimo primeiro, carro e função em seguida. O oposto exato da Mercedes-Benz. O XF é então, independentemente de seus donos hindus, um Jaguar de verdade, de uma empresa que volta a entender o porque de sua existência.

O que nos leva a cena III, Ato I do clássico “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, onde Polônio dá uma série de conselhos para seu filho, Laerte, que parte para tentar a vida longe do pai. É um texto maravilhoso, com conselhos tão úteis hoje quanto séculos atrás, quando foram colocados no papel por William Shakespeare.

Mas o conselho final é o que é relevante aqui, o que queria que os capitães da indústria entendessem como o mantra empresarial de um consultor inglês do século XVII:

“This above all: to thine ownself be true,
And it must follow, as the night the day,
Thou canst not then be false to any man.”

(Mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel;
E segue-se disso, como o dia a noite,
que a ninguém poderás jamais ser falso.)

MAO
LANÇAMENTO DO LIVRO DO ARNALDO KELLER - UM CORVETTE NA NOITE

Dia 13 de agosto, uma 5ª feira, à partir das 18:30, na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho 915, Vila Madalena) será o lançamento do livro do jornalista Arnaldo Keller. O autor foi colaborador da Revista Quatro Rodas e hoje escreve na Car and Driver, além de ser um dos colunistas do AUTOentusiastas.

É um livro de contos de ficção, onde viagens por estradas solitárias em carros esportivos levam o leitor a se desligar do dia a dia e seguir acelerando junto com o personagem em busca de boas aventuras e romances.

Quando escrevemos para revistas testando carros, sempre temos limites. Muitas vezes não podemos testar os carros em seus devidos habitats. Sentimos o potencial do carro, sabemos o que ele pode fazer, mas as condições do momento não permitem explorar toda a máquina. Carros esportivos, principalmente os grandes clássicos, foram feitos para pegar boas estradas, longas viagens. Essa é a essência dessas máquinas: levar seu dono a boas e longas aventuras. Infelizmente, a maioria dessas máquinas fica trancada em garagens e é tratada feito um bibelô. O livro foi escrito para colocar esses fantásticos automóveis em seus devidos lugares; foi escrito para que esses carros estiquem seus galopes à vontade e afinem o sangue”, diz o Arnaldo.

Romances, mulheres apaixonantes, fazem parte do melhor da vida de um homem. Se não estivessem nas histórias tudo perderia a graça, o personagem perde o objetivo.

Por enquanto, até o lançamento, o livro pode ser adquirido pelo site da Editora Alaúde por R$ 29,90. Em seguida estará nas livrarias.

Editora Alaude


Os leitores do AUTOentusiastas serão muito bem-vindos ao lançamento onde o Arnaldo terá o prazer de autografar sues exemplares.

Nota do PK: estou lendo o livro aos poucos, para durar mais. Tenho certeza que os contos do Arnaldo fazem parte de um inconsciente (ou até consciente) coletivo dos entusiastas por carros. Falam da relação homem-máquina inserida num contexto interessantíssimo com descrições detalhadas dessa relação. Cada conto é uma viagem. E o mais bacana é que podemos fazer essas viagens na nossa imaginação.
...QUE TE DIREI QUE ÉS.

Tenho certeza que muitos de nós autoentusiastas gostamos de guardar revistas, textos e lembranças em papél sobre carros e assuntos que gostamos ou achamos interessante.

Pausa.

Logo no início da minha carreira como engenheiro achei que minha peregrinação para conseguir influenciar um automóvel no seu conceito seria muito longa. Para um engenheiro conseguir fazer um carro como ele idealiza ele não pode trabalhar em grandes fabricantes. Tem que ser praticamente o dono da empresa e não se preocupar muito com questões financeiras relacionadas à sua subsistência. Um bom exemplo de engenheiro de sucesso é o Gordon Murray. Mas como passo muito longe de ser um gênio como ele, logo pensei em outro jeito de conseguir influenciar a concepção de um projeto sem ter que percorrer toda a escalada até os cargos mais altos.

Acho que o caminho mais curto seria me transformar em designer, projetista. Esse realmente cria algo, é um artista. Talvez a área em que eu realmente desejasse trabalhar. Mas quando somos jovens e temos que decidir o rumo de nossas vidas, dificilmente conseguimos conciliar sonhos com necessidades mais práticas. E muitas vezes, apesar de termos algum sonho, não sabemos como concretizá-lo. Além do mais, para ser designer é necessário talento ou muita dedicação desde pequeno. Sempre desenhei bem, mas não o suficiente para ser designer. Talvez se tivesse começado cedo...

A grande maioria dos engenheiros se torna especialista em algum sistema ou componente. Ou seja, podem trabalhar em tecnologias e avanços em apenas uma parte de um carro. E assim ficam por anos, cada vez mais especialistas.

Nos tempos modernos quem define as diretrizes do projeto de um novo carro? Para os que não sabem, isso fica a critério dos departamentos de planejamento e de marketing. Ambos trabalham conjuntamente observando as tendências, fazendo pesquisas para entender a cabeça dos consumidores, observando os resultados dos modelos que já estão no mercado e definindo os requisitos para um novo modelo. De maneira geral, esses requisitos são: segmento em que o modelo vai atuar, tipo de carroceria, posicionamento de preço, versões e equipamentos e perfil dos consumidores.

A partir daí o departamento de estilo e a engenharia vão trabalhar numa proposta mais palpável. Aí entra o pessoal de marketing e de planejamento para dar pitacos e dizer o que serve e o que não serve. No meio disso tem o pessoal de finanças que cuidas dos custos e quase sempre inviabiliza muitas das ideias bacanas.

Os designers, apesar de ainda serem artistas, não têm toda a liberdade para se expressarem (pois no final o carro tem que ser usável no dia a dia) e o "packaging" os limita bastante.

Então, quem direciona o conceito? Planejamento e marketing. E não a engenharia (a engenharia pode puxar a sardinha para alguma direção específica uma vez que eles é que dizem como executar o projeto). Logo que percebi isso tratei de fazer um pós-graduação em marketing e comecei a me mexer para mudar de área de atuação. Fui buscar o meu sonho. Deu certo. Consegui influenciar muito mais os projetos em que participei em minhas passagens no marketing e planejamento de produtos, além de ganhar uma visão muito mais ampla do negócio. Tem um lado ruim, pois acabei me distanciando muito da engenharia. Qualquer dia conto isso em mais detalhes em outro post.

Essa pausa acabou saindo bem maior do que eu pretendia.

Voltando ao motivo desse post. Em uma recente arrumação nos meus papéis e recordações encontrei uma propaganda que utilizei no pós-graduação para ilustrar um dos importantes conceitos de marketing sem o qual seria quase impossíve fazer um anúncio ou publicidade de um produto. Estou falando do posicionamento.

Todo produto que chega oa mercado deve ser posicionado de acordo com a estratégia da empresa ou do produto. Segundo o papa do marketing, Philip Kotler, "posicionamento é o ato de desenvolver a oferta e a imagem da empresa (ou produto), de forma que ocupem um lugar distinto e valorizado nas mentes dos consumidores". Complementando ele ainda diz: "qualquer empresa ou marca (ou produto) pode ser diferenciada. Não há mais uma commodity. Em vez de pensar que está vendendo uma commodity, a empresa deve ver-se na tarefa de converter um produto indiferenciado em um produto diferenciado".

Mas para isso funcionar o produto, de fato, tem que entregar essa diferenciação e esse posicionamento. Acho que é o caso do Peugeot 306 GTi - 6, lançado no final da década de 1990. Veja a propaganda que saiu na época.


A Peugeot achou que valia a pena investir no seu hatch esportivo diferenciando-o dos demais concorrentes de sua categoria com o uso de uma transmissão de 6 marchas. Para posicioná-lo no mercado adotou uma comunicação, ao meu ver, muito eficiente.

A mensagem curta e direta "slowest in its class", o mais lento na sua classe/segmento, associada a imagem do 306 no meio de supercarros faz com que o leitor pare e pense a respeito, ou que ao menos se interese em ler o texto adicional. É claro que o 306 não faz parte dessa classe. Mas de alguma maneira também não faz parte da classe/segmento dos hatches (de 5 marchas).

"Posicionamento é o ato de desenvolver a oferta e a imagem da empresa (ou produto), de forma que ocupem um lugar distinto e valorizado nas mentes dos consumidores."

O texto pequeno diz: "No passado, se você quisesse um supercarro de 6 marchas, você precisaria ter uma salário de 6 dígitos. Mas agora não mais. O novo Peougeot 306 GTi-6 com seu motor 2-litros de 167 cv custa apenas 18.670 libras. O que lhe faz estar entre os primeiros, só perdendo para os mais rápidos" (no caso um Ferrari F550, um Aston Martin Vantage e um 911).

Comparando o 306 com esses carros, mas dizendo que ele é o mais lento entre eles, a Peugeot o posiciona acima de seus concorrentes diretos - o diferenciando - sem parecer arrogante. E isso fica marcado na cabeça dos consumidores.

Tudo isso só pra dizer que gostei desse anúncio, que fala bastante com os entusiastas.

Agora imaginem a dificuldade do pessoal de marketing da Kia para posicionar o Soul. Como o carro não pode nem se enquadrar em um segmento (tipo de carroceria) específico, a Kia o chamou de "carro design". Muito vago e sem identidade. Mas isso também fica pra outra ocasião.

PK


Algumas fotos da corrida deste fim de semana em Interlagos, que teve a vitória da dupla Daniel Serra e Chico Longo com o F430 GT3 de número 1.


Protótipo HEVE - Divisão 4 dos anos 70

Ford GT - GT3

Ford GT - GT3

Ferrari F430 GT3 - vencedor da prova

Porsche 911 RSR

BMW M3 V8

Porsche 911 RSR

Protótipo Moro - pole position

Ferrari F360 GT2

Astra Stock Car V8 e Ferrari F430 Challenge


Mais informações em breve!
Aqui vai uma para o meu amigo Juvenal, com quem cruzo por aí às vezes no dia-a-dia, e ele nunca deixa de me cobrar um post, mesmo nesses tempos menos inspirados.
Enjoy!


Ferraris sempre são veículos curiosos. Despertam o falso entusiasta, aquele que pouco conhece, mas que dispara a falar de carros como se fossem parte da vida dele, empolgam pessoas que só usam carros para ir ao trabalho ou supermercado, geram frases descabidas, como dizer que Ferrari é o melhor carro do mundo, e mais uma porção de reações interessantes.

Eu sempre tenho minhas restrições com Ferraris de motor central, cheios de eletrônica de bordo e, digamos, "de entrada". A mim parecem mais carros comprados pelos tais falsos entusiastas, pois Ferrari todo mundo conhece e eles não precisam ficar explicando o poder que estão incorporando às suas personalidades ao possuir um carro dessa marca. Mesmo porque a maioria dos compradores não conseguiria explicar nada mesmo, se fosse uma outra marca de supercarro não-popular. Já imaginaram alguém tentando explicar a origem, ou o propósito de um Ultimate Aero, ou de um Porsche Ruf para quem não se liga em carros?

Sei, a maioria não concordará com isso, e despejarão vários contra-argumentos, como os dados técnicos excepcionais, os números de desempenho, a equipe de Fórmula 1, a vida do Comendador Enzo. Mas não me emociona, não me deixa louco para ganhar na Mega-Sena e sair correndo para a loja, não está na minha wish-list, não são prodígios de engenharia automotiva no nível que deveriam, pela celebridade que a marca possui e, pior, pelo preço cobrado.

Desde os 348, depois os 355, 360, 430 e agora esse 458, sempre estiveram em planos inferiores no mundo dos supercarros de minha preferência. São por demais enfeitados e complicados para me atraírem, por demais comuns aqui no Brasil para terem uma imagem de raridade. Antes desses a situação era um pouco melhor, como o 328 do Magnum, aquele investigador que usava bermudinha com cinto. Era um carro mais honesto.

Muda completamente de ótica quando falamos de Ferraris cruas, F40 o maior exemplo. Feito com UM propósito: ser o mais veloz carro de produção do mundo, proporcionando ao piloto sensações de carro de corrida. Este é o maior expoente moderno da marca italiana mais famosa. Um monstro. Sem frescuras, como eu gosto. Bob Sharp dirigiu um, o único que veio ao Brasil, e pode explicar bem o que é conversar com essa máquina histórica.

Os de motor dianteiro, V-12, são ícones reais. Maior de todos: 250 GTO.

Vejam, são carros diversos dos Ferraris comerciais. Esses que são feitos para sustentar a marca, a equipe de Fórmula 1, atendendo os admiradores incondicionais de gadgets eletrônicos, de botõezinhos coloridos no volante, de escapamentos barulhentos para virar cabeças nas ruas da moda (argh !!!), mesmo andando devagar.

Não chegarei a extremos de críticas, nem direi que a marca morreu, longe disso. Mas que a maior parte do que a Ferrari fabrica hoje é passável, disso não tenho dúvida.

E esse novo Italia....bonitinho, deve ser uma bela arma. Vai mostrar acelerações dignas da Enterprise do Capitão Kirk, fará curvas de estirar músculos de pescoço dos mais enferrujados, freiará de maneira e extrair o almoço dos passageiros (e de alguns motoristas), e causará lentidões em ruas pelo mundo todo, que pararão para ficar apreciando-a.

Mas continuará sendo, para mim, apenas um esportivo com sobrepreço.

Vai melhor um Carrera básico e mais algum outro carro com o troco. Ou melhor ainda, Carrera e uma bela viagem.

JJ

O post abaixo do senhor Marco Antônio Oliveira me fez acelerar as coisas e finalmente preparar um texto sobre um dos meus carros favoritos de todos os tempos. Marco Antônio Oliveira é jornalista por hobby, não faz testes, não faz comparativos, não vai a coquetéis de lançamentos de novos modelos. Se fosse jornalista no sentido clássico, seria sem dúvida dos melhores do mundo. Se texto é mais apaixonado do que técnico e esse é o estilo que mais gosto. José Rezende Mahar no Brasil e Richard Meaden, na Inglaterra, são outros exemplos de textos onde a paixão se sobrepõe à ficha técnica.

Eu não sou técnico, muito menos sei escrever... Mas vamos lá. Vamos falar sobre o brilhante BMW E30 M3, provavelmente o carro de turismo mais vitorioso de todos os tempos.

Com o excelente desempenho do Mercedes 190 2.3 no Campeonato Alemão de Turismo, a BMW resolveu se coçar e decidiu que ser chegada hora de ter a Série 3 com o emblema “M”.



O ano era 1986. Para tanto decidiu-se criar um Homologation Special. A ideia era fabricar 5.000 carros com a especificação de carroceria, características de motor e suspensão exatamente como seriam usadas nas pistas. Ao final da produção, mais de 17 mil carros foram feitos.

Para o desenvolvimento do motor foi convidado o mago dos motores, Paul Rosche, engenheiro responsável pelo desenvolvimento do propulsor de 1,5 litro turbo que impulsionou Nélson Piquet para o primeiro título mundial de Fórmula 1 da BMW. A configuração final ficou bem próxima do 190 2.3 de rua. Um 2,3 litros com 200 cv que passam a existir depois de 4.000 rpm. O limite de rotação é de 6.750 rpm (10.000 rpm na versão de corrida). Alimentação por injeção Bosch Motronic e uma borboleta de admissão por cilindro. O filtro de ar fica em uma caixa de ar, muito parecida com as usadas em monopostos de Fórmula 3.

Caixa de câmbio Getrag de 5 marchas e trambulador dogleg (1a embaixo, 2a, 3a, 4a e 5a no "H") na versão alemã, beneficiando a velocidade de troca entre segunda e terceira marchas, as mais utilizadas em circuito. Tração traseira, obviamente, e diferencial autobloqueante.




A suspensão tem os pontos de ancoragem alterados em relação à Série 3 de uso civil, beneficiando a estabilidade e a tocada esportiva. Amortecedores Sachs de maior carga e acerto da BMW M no circuito norte de Nürburgring (prática pouco comum na época). A carroceria é absolutamente distinta. Única peça em comum com as Série 3 normais é a chapa do teto. A tampa do porta-malas é mais alta e de plástico, a coluna traseira é mais inclinada, ambos para favorecer o melhor fluxo de ar na traseira e no aerofólio. As caixas de roda são alargadas para rodas de tala 10 funcionarem sem problemas na versão de corrida. Pela primeira vez nas Série 3, os vidros dianteiro e traseiro da versão M vinham colados, para aumentar a rigidez e melhorar o fluxo de ar.

Eu tenho a felicidade de ser proprietário de um modelo alemão, ano 1987, câmbio dogleg, cinza bem escuro, quase preto. Daqui pra frente passo a narrar minha experiência com o carro e mando às favas a imparcialidade (já fui parcial aqui?).

Tudo no carro é inspirado nas pistas. A posição de guiar é irretocável, para trocar as marchas basta deixar cair a mão do volante que lá está a alavanca, de encaixes justos e curtos, do alto dos seus 20 anos de idade. O motor pede pra girar... e quanto mais gira mais o carro gosta. Como dito antes, até 4.000 rpm as coisas são mornas... depois é deleite puro. Os freios são hiperadequados, parando o carro em espaços inimagináveis, mesmo com padrões modernos como referência. O ABS é dos menos intrusivos que já experimentei. A suspensão copia muito bem o terreno e traz o carro de volta para o lugar de maneira muito rápida. A caixa de direção é um pouco lenta, talvez para minimizar o efeito “chicotada” em saídas de traseira. O carro é absolutamente neutro. Um primor de equilíbrio (bateria no porta-malas MAO!, as it should be). Em pista não gasta pneu. Por falar em pista, é um carro que “freia mais dentro e acelera primeiro” que eu já guiei em circuito. Ao entrar forte em curva, quando acaba a neutralidade, primeiro a frente começa a sair, daí você pisa e a traseira se pronuncia colocando as coisas no lugar. Um pouco mais de abuso no pedal e a traseira começa a querer ultrapassar a frente, tudo muito comunicativo. Exagerou na dose da traseira? Basta tirar o pé que ela volta. Por mais inacreditável que seja a situação de sobreesterço, ela volta. É basicamente como um kart de motor 125-cm³ dois-tempos, muito da tocada e da mudança de trajetória em curva está no pedal da direita. Em serra, até hoje ela anda junto com carros de 300 cv e tração integral.

A beleza do projeto, a falta de concessões, a beleza clássica dos BMW de quatro farois, fazem do carro um sucesso até hoje. Quando do lançamento do novo M3 V-8 (E90), a revista EVO fez um teste com o título “The Greatest Ever M-Car” O vencedor foi o pequeno BMW esportivo de quatro cilindros. Venceu carros com mais do dôbro da potencia e décadas de juventude de projeto. Venceu pela finesse, venceu pelo que transmite ao condutor. Venceu porque, provavelmente, o slogan da BMW, “Sheer driving Pleasure”, foi baseado nele.


Esse post acontece porque eu li o que MAO escreveu sobre o também brilhante 190 2.3. É um carro de fato também muito bacana. Dogleg, interior que transpira esportividade. Excelente. Mas eu já guiei o 2.3 e posso afirmar que perto do M3 o Mercedes é lento. Não em velocidade, em sensação. Os engates são mais lentos, o motor pede menos para girar, a suspensão é muito mais macia. Não parece te chamar pra brincar como o M3. É um outro bicho. Guiar os dois carros, talvez os mais nobres de uma linhagem, me faz citar um amigo que tenho em comum com Marco Antônio Oliveira, o PH. É dele uma frase que trago comigo, que é de uma beleza e compreensão ímpar do mundo que eu gosto. Uma frase que eu não poderia concordar mais.

“Mercedes faz carros e caminhões, BMW faz carros e motos. Por isso os carros da Mercedes são como são, por isso os carros da BMW são como são.”

Pena não haver foto: carros de corrida enguiçados no circuito sendo rebocados até o box por um Jeep -- com a prova em andamento!

Foi o que vi ontem na 500 Quilômetros de Interlagos. Pensei que esse velho hábito, coisa dos anos 50 e 60, havia acabado fazia tempo, pelo perigo que representa.

BS

Sempre lemos aqui os textos apaixonados do MAO a respeito dos Porsche com motor a ar, os carrões americanos dos anos 50 e 60, Chevettes...

Podemos discordar dele em muitas coisas, mas não dá para negar que os carros mais antigos tinham uma aura que os atuais não possuem.

Mas, afinal, que aura é essa?

Talvez alguns afirmem que esses carros são fruto da tecnologia de sua época. É uma boa resposta, mas ela explica só parte dos fatos. A resposta um pouco mais completa é que esses carros são fruto não só da tecnologia, mas também da cultura do seu tempo, em suas mais variadas facetas.

A faceta cultural do design é algo muito fácil de ser percebida e entendida. Mas há outra tão importante quanto ela, mas muito menos conhecida.

Um fator que pesa muito a favor de um c campeão de exposições sobre um vira-latas é seu pedigree, que é um indicador da pureza do seu nascimento.

Carros também nascem após um longo processo de gestação nos escritórios de engenharia das fábricas, e o resultado final depende da forma e da qualidade com que seu projeto foi feito.

Este processo sofreu transformações enormes nas últimas décadas, graças ao avanço da informática.

O computador representou um salto no processo de projeto automotivo. Muitos componentes podem ser parametrizados, e a simples mudança de uns poucos parâmetros são suficientes para testar a resistência e a elasticidade desses componentes, e gerar seu desenho no final do processo. Testar várias alternativas se tornou um processo rápido, barato e muito preciso.

Porém, como todo bom engenheiro sabe, toda escolha implica em vantagens e desvantagens.

O computador ofereceu vantagens enormes ao processo de projeto dos automóveis, mas ele afastou os cérebros pensantes do resultado final da criação. Os engenheiros hoje alimentam de dados os diversos programas de cálculo, e simplesmente acatam os resultados saídos da “caixa preta”. Não interessa como a máquina chegou a aquele resultado, porque cada um tem que ser eficiente e não pode perder tempo com “frivolidades”, criticando números frios.

Antes do computador, a forma de se projetar um automóvel era muito mais imersiva para o engenheiro.

Sentados em suas pranchetas, os engenheiros pensavam cada parafuso, cada mínimo detalhe do automóvel era calculado e desenhado à mão, mas tendo a crítica de cada engenheiro correndo ao lado do processo. Incontáveis horas desenhando cada borda, calculando cada diâmetro eram acompanhadas de pensamentos de como cada detalhe entraria em harmonia com o restante do projeto. Detalhes sutis eram percebidos, discutidos e muitas vezes corrigidos ou modificados, visando alcançar o melhor.

É este senso crítico, que lapidava cada mínima aresta do projeto, que foi perdido para a crua precisão automatizada e burocrática do computador. E este pequeno detalhe fez toda diferença na forma como os carros eram projetados e como são atualmente.

Nesta época, a grande companheira dos engenheiros era a régua de cálculo, a tal ponto que sua imagem era reconhecida como um símbolo do engenheiro nos primeiros três quartos do século 20.

É muito comum ver em filmes antigos os engenheiros mexendo em réguas de cálculo como se fossem o supra-sumo da tecnologia.


O modelo mais tradicional é o reto, com duas partes fixas separadas por uma móvel, assim como um cursor deslizante.



Outro modelo, não tão popular entre os engenheiros, mas muito usada em topografia, era o de formato circular.



A fabricante de relógios Breitling há décadas enfeita seus cronógrafos de pulso com uma régua de cálculo circular. A Citizen japonesa também usa comumente a mesma solução.



Já o modelo de tambor é bastante raro. Este tipo oferece alta resolução, o que o tornava muito caro e adequado a apenas casos bastante específicos que exigiam precisão nos resultados.



A régua de cálculo, antes de mais nada, não faz contas de adição nem de subtração. Isso o engenheiro tem que fazer à mão ou por outros meios.

Uma coisa importante que o engenheiro precisa ter em mente é a questão de da ordem de grandeza. Na régua de cálculo, o procedimento é o mesmo se quisermos fazer 0,2 x 0,3 ou 20 x 300. Na régua, sempre fazemos 2 x 3, e os deslocamentos da vírgula para a direita ou para a esquerda são feitas de cabeça.

Cálculos com a régua não tem a precisão de uma calculadora. No máximo, se tira dela números com 3 dígitos significativos. Sem os devidos cuidados, uma imprecisão enorme aparece ao final de cálculos repetitivos.

Para resolver o problema, há técnicas de arredondamento, onde uma vez se arredonda o valor para cima, outra para baixo cada valor intermediário, de tal sorte a anular os desvios pela imprecisão do cálculo.

Depois de anos de prática, cada engenheiro desenvolvia sua própria técnica de arredondamento. Os mais hábeis se mantinham dentro de uma precisão aceitável, mesmo após muitos cálculos sucessivos.

Ela é baseada em princípios dos logaritmos, onde o logaritmo de produto entre dois números equivale à soma dos logaritmos destes números. Assim, substitui-se um produto por uma soma. E a divisão é feita pela diferença.

A régua trabalha com escalas logarítmicas, onde os produtos e divisões são convertidas em somas e subtrações de segmentos de escala pelo deslizamento relativo entre elas.

Toda régua de cálculo linear tem duas faces, onde diferentes escalas são impressas. Estas escalas diferiam conforme o modelo e aplicação a que se destinava.

Dependendo do uso da régua, em ambos os lados, tanto as escalas fixas como móveis possuem perfeito alinhamento, de forma que o resultado do cálculo executado de um lado pode ser transportado imediatamente para o outro lado tanto pela escala móvel como pelo cursor.

Em ambos os lados temos as escalas principais em comum, que ficam na linha de divisa de baixo entre a escala móvel e a escala fixa. Ambas as escalas são iguais e são usadas para multiplicações e divisões diretas. Uma propriedade importante das escalas principais é que a partes úteis delas sempre começam e terminam em "1".

Vou dar um pequeno exemplo de multiplicação que se entenda como ela funciona.

Imagine o cálculo 2 x 0,2. Lembrem-se que na régua irei reduzir o cálculo a 2 x 2, e lidar depois com a ordem de grandeza.

Primeiro alinhamos a escala móvel:



O primeiro número do produto é 2, então o escolhemos na escala principal fixa. Aí deslocamos a escala para alinhar o "1" de início da escala móvel para alinhar com o "2" da escala fixa.

Aí, basta deslocarmos o cursor até o valor “2” da escala móvel:



Vê-se que o segundo valor alinha-se perfeitamente com o valor "4" na escala fixa.
Daí se tira que "2 x 2" resulta em "4". No entanto, como o cálculo na verdade é "2 x 0,2", então o resultado final é "0,4".

Da mesma forma eu poderia multiplicar 529 por 6530.

Mantendo o cursor no lugar para marcar o valor intermediário e movendo novamente a escala móvel, podemos fazer produtos encadeados indefinidamente.

Num segundo exemplo, podemos dividir 70 por 0,35.
Começamos alinhando 35 e 70:



Procuramos pelo "1" na escala móvel principal e achamos o resultado:



70 dividido por 35 equivale a 2 dividido por 1. Mas como o cálculo é 70 dividido por 0,35, então o resultado passa a ser 200.

Quem quiser praticar mais, aqui tem um simulador online bastante realista.

Fácil, não? Realmente, o princípio básico é bastante elementar.

Porém todos os antigos cursos de engenharia ofereciam matérias acadêmicas para uso da régua de cálculo que duravam até dois anos. Nelas, os engenheirandos aprendiam a tirar o máximo das réguas de cálculo usando técnicas sofisticadas.



Tanta exigência tinha seus motivos. A partir do começo do curso até o final da carreira profissional, a régua de cálculo seria a companheira mais constante e fiel do engenheiro.

Em grandes empresas, haviam duas carreiras possíveis para engenheiros dentro dos setores de projetos. Além da carreira como engenheiro projetista, havia a função do engenheiro calculista.

A função do engenheiro calculista era repassar todos os cálculos feitos pelo engenheiro projetista, descritos num documento chamado “memorial de cálculo”, no qual, não só a precisão dos cálculos originais eram conferidas, como o próprio processo de cálculo e o projeto em si eram analisados, se necessário, criticados, discutidos e corrigidos.

Assim, o engenheiro calculista, além de suas habilidades em realizar os cálculos, precisava ter tanta ou mais habilidade em projeto que o engenheiro projetista, afim de que nenhum erro passasse adiante.

Outra função do engenheiro calculista era a de fazer os cálculos no lugar do engenheiro projetista, a partir de um esboço feito por ele, e o trabalho de ambos era reavaliado por um outro engenheiro calculista.

Com tantas revisões e verificações, os erros cometidos eram em grande parte eliminados ou pelo menos reduzidos ao mesmo tempo em que ideias novas podiam surgir e se desenvolver.

E com tantas mentes pensando e repensando cada mínimo detalhe de um carro, o peso do espírito humano se fazia sentir sobre a frieza da técnica pura impressos no produto acabado.

Era uma época onde engenharia era muito mais que uma ciência exata. Ela era uma forma de arte.

É evidente que a criação de um projeto nessa época era um processo lento e muito caro.
Bastou a tecnologia começar a evoluir para que os caríssimos e pouco potentes computadores da época já começassem a tomar terreno na área da engenharia.

Esta propaganda da IBM em 1952 reflete esta realidade, alegando que sua máquina tinha a mesma capacidade de cálculo que um grupo de 150 engenheiros. As vantagens alegadas são evidentes; as desvantagens, nem tanto.


Com o avanço da computação nos anos 60 e 70, muito desse longo processo de projeto foi sendo encurtado com o uso mais intenso dos computadores.

A precisão e o número de detalhes verificados em um projeto cresceu enormemente, gerando economia de processo e de materiais. Até mesmo cálculos que antes seriam inviáveis para calculistas humanos, como a previsão do comportamento da estrutura de um carro num impacto simulado, hoje estão plenamente acessíveis.

Nos anos 70, um subproduto da indústria da computação se torna popular, e crescimento explosivo da calculadora eletrônica enterrou de vez o uso da régua de cálculo na engenharia.

No presente, com a miniaturização de computadores potentes, até mesmo ela está em fase de extinção.

Hoje, um engenheiro usuário de régua de cálculo é uma espécie com passado glorioso mas em vias de extinção, e para as gerações atuais de engenheiros, ela parece um fantasma assustador.

O uso cada vez mais intenso dos computadores é um caminho sem volta. As vantagens que ele oferece são tais que não há como retornar aos métodos do passado.

Porém, muitas coisas importantes, duramente aprendidas no passado, foram sumariamente esquecidas, e agora fazem falta.

Um engenheiro maduro no uso da régua de cálculo era capaz de intuir o valor aproximado de um cálculo antes de realizá-lo. Se houvesse algum erro, este era rapidamente descoberto e corrigido.

E o longo processo de projeto, com a profunda imersão do engenheiro, dava a ele a oportunidade de avaliar, criticar, modificar, criar, inovar.

Um engenheiro atual, totalmente dependente dos equipamentos automáticos de cálculo, é completamente insensível a um possível resultado errado vindo da máquina. Se a máquina oferecer um resultado grotesco por qualquer razão, ele aceitará o resultado sem questionar.

A régua de cálculo e todo o paradigma de projeto do qual ela era parte importante, ainda tem muitas lições a ensinar aos engenheiros do presente. Lições que vão muito além do cálculo frio, e tocam o lado criativo do espírito humano.

Não são apenas os interesses comerciais mais imediatos das fábricas hoje que produzem carros insípidos, meramente transportadores de pessoas.

Os carros de hoje nascem de um processo muito diferente do processo dos carros do passado. A rapidez do computador afastou a mente criativa do engenheiro do projeto final, retirando o espírito induzido e deixando a precisão fria em seu lugar.

Para aqueles que desejarem conhecer um pouco mais da história deste instrumento de cálculo, assim como dos homens que os utilizavam, recomendo dois sites:

http://sliderulemuseum.com/ , de onde muitas das imagens aqui usadas foram retiradas;
http://reglasdecalculo.com/

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