
O texto do Marco Antônio Oliveira sobre o 3-rodas com motor Harley me deixou pensativo nesse final de semana. A complicação em quase todas as áreas de nossas vidas é regra, talvez por isso estamos cada vez mais cansados de tantas coisas. Tarefas cotidianas se tornam uma chatice, motivadas por procedimentos e idéias estapafúrdias de pessoas com pouco a fazer.
Qual o motivo, por exemplo, que faz um banco enviar sistematicamente propostas de conta-corrente e/ou cartão de crédito para um endereço que nunca se comunica de volta? Será difícil perceber que aquela pessoa não quer ser cliente?
Mas isso aqui é um blog sobre automóveis e essa foto aí de um Chevette americano nos remete ao pensamento sobre simplicidade. Vejam que idéia simples: o menor e mais leve Chevrolet da América onde cabe um V8 bem grande. Bom, caber não é bem o termo exato, dimensionalmente falando, pois alguma coisa está para fora, mas isso não é problema. Também o Chevette não é mais o menor Chevrolet americano, é o Aveo. Opa, mas isso é um carro coreano do grupo GM... deixa para lá, o que interessa aqui é que o camarada que construiu essa maravilha da foto deve ter comprado esse carro por uma ninharia e o transformado em um espetacular veículo de entusiasta.
Nosso amigo Alexandre Garcia poderá se empolgar com o que vemos na imagem e nos contar, com alguns detalhes, a estória de um carro desses que capotou para trás em uma prova de dragsters no início desse ano.
Simplicidade: pensem e exijam isso nas suas vidas. Tudo pode melhorar.
A proposta era boa, inicialmente. A pista indicava que eram duas Alfa Romeos, uma Alfetta "esportiva" e uma GT 1967. Ambas quase prontas e as duas pelo preço de uma. Ligamos para o dito dono dos carros. Ele confirmou, dizendo que estavam na oficina de um amigo e poderia buscar-nos no aeroporto e levar-nos lá para ver os carros. Eram dois mesmo, uma Alfetta, "esportivíssima, parecida com uma Ferrari, com o câmbio e diferencial lá atrás e tudo, quase pronta, faltando umas coisinhas pra sair da oficina", e uma GT 1967 "lindo, mas com motor de Opala 4 cilindros; eu tenho o câmbio original, vai junto, só precisa achar um motor por aí em São Paulo. E, ah!, ia esquecendo! Tenho um monte de peças de Alfa, elas vão junto no negócio!". E sim, o preço era bom. Compramos as passagens da ponte aérea para o dia seguinte e lá fomos nós.
Maravilha, já que o tempo já seria escasso sem erros de trajeto. Pedágio no final da ponte, perguntamos como retornar, ouvimos as instruções, mas, obviamente, o taxista errou mais uma vez e perdemos o retorno. Cutuquei o cotovelo de Egan Sr. e lhe falei, "Pai, essa viagem será inesquecível..." O taxista então pára para pedir informações na beira da estrada, e, do nada, o homem para quem perguntamos responde sem pestanejar: "Estão indo ao Rio? Pô, merrmão, deixa eu ir com vocês (enquanto ele dizia isso, esticou a mão pra dentro do carro, destravou a porta e entrou) que eu explico o caminho e vocês me deixam na saída da ponte, ok?"
Naquele momento, pensei que Alfa nenhuma valia aquilo. Paulistanos temem o Rio como cariocas temem São Paulo e não era nada confortável a situação. Mas, já estávamos lá e não tínhamos muita volta naquela hora, então...
"Seu" João entrou perguntando pelo José (ou qualquer outro nome genérico) e os funcionários da oficina reponderam prontamente "Aqui não tem nenhum José." E "seu" João, coçando a cabeça, sem entender, se lembrou que na verdade a oficina era a outra, vizinha de parede. E finalmente chegamos aos carros.
No elevador antigo que nos levou ao apartamento, a ansiedade por encontrar aquele carburador Weber perdido, esperando um dono, só crescia. Entramos na casa, empoeirada e fedendo a mofo e maresia e, da porta, "seu" João apontou um pára-brisa de GTV apoiado na parede: "Olha ali todas as peças! Vocês vão adorar!".
1- Dart cupê 76. Meu primeiro carro. Meu pai me ajudou na escolha. Isso 26 anos atrás, num longínquo 1982. Um carro fantástico, absolutamente genial. Tem um 360 muito bacana, bem feito, com muita coisa legal dentro. Breve ganha um vira com 4 polegadas de curso e passa a 408.
2- Charger RT 75. Meu terceiro carro, meu segundo Charger, muito mais legal que o outro RT que comprei, também 75. Era ruim, meio podre como todo Charger que tinha no Rio de Janeiro em 1986, mas eu gostei dele e resolvi salvá-lo. Era amarelo Montego, minha esposa achou que seria uma boa idéia pintar ele de preto e meti bronca. Outro carro muito legal, me trouxe muita diversão. Tem ainda um 318, que deve virar 360 breve com as sobras do Dart, virabrequim e demais trecos.
3- Dart 78. Esse foi comprado para tirar peças para os Plymouths mais abaixo. Aí ele andava e era bom pacas. Mas era feio e sem graça pintado de marrom. Meti um amarelo Interlagos nele, e como tinha um 383 sobrando, de bobeira, na garagem, meti nele também. Isso lá em 1991. Na época já era dificil comprar Gardenal.
4- Belvedere 68. Era 1989 e eu estava pela primeira vez na vida tirando férias remuneradas. Viajava pela Dutra e vi ele num ferro-velho jogado. Não resisti, voltei no dia seguinte e comprei no ato. Tem um 383.
5 - Valiant 68. Vi esse carro em 1986, jogado num lote de carros antigos de um vendedor em Petrópolis. Pirei, mas não tinha grana. Quando arrumei a grana, ele não estava mais lá. O vendedor e os carros velhos. Muitos anos depois, em 1996, achei os dois de novo. Desta vez eu tinha dinheiro. Aliás, não sei se 200 dólares é dinheiro, mas foi o que me custou. Tem o 318 original do Charger preto debaixo do capô, forte e saudável. É o mesmo carro que o Dennis Weaver usou no filme "Encurralado", de 1971, que, aliás, foi o primeiro filme do Steven Spielberg. Felizmente nenhum caminhão-tanque nunca me seguiu com ele.
6- D100 - Não se passa sem uma picape. Ainda mais Dodge. Isso bastou para eu pegar ela.
7- Chevelle Coupe 67 - Impossível de resistir, um amigo começou um projeto e não ia terminar. Ainda estou tentando.
8- Opala 4100 - Fazer o quê, V8 não é tudo na vida. Andei meio mundo nesse carro e quando precisei de um commuter econômico para ir periodicamente a Angra dos Reis trabalhar, ele ajudou muito.
9 - Caravan - Bom, essa nem precisa falar nada. Presente de Natal que meu pai me deu em 1989. Ele não gostava dela porque era beberrona, 4 cilindros, bem safadinha na visão dele. Resolvi o problema do 4 cilindros beberrão em grande estilo. Também finalmente uma foto boa neste post, Thanks PK.
10- Ram - Com o tempo a outra picape ficou pequena, acho que eu engordei muito.
11- Cherokee. Eu preciso de um veículo normal para usar às vezes. É ela.
12 - Camaro. Cada povo tem o Opala que merece. Caiu na rede é peixe. Impossível de ignorar algo tão bacana, amo esse carro.
Peraí, não eram 10? É, mas é tanto carro bacana que eu não resisti. Foi mais forte que eu. Desculpem. Lutei muito para resumir e o máximo que consegui foi isso.
