google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 AUTOentusiastas Classic (2008-2014)
Por que será que analisando-se máquinas tão lógicas e perfeitamente mensuráveis como automóveis se usa tão pouca objetividade e tanta emoção?

Porque coisas cuja função e eficiência podem ser comparadas nunca são avaliadas desta forma? Quantas vezes não esquecemos o que é ótimo pelo que é totalmente imperfeito e cheio de falhas, mas soberbamente emocionante, alegre, ou mesmo cativante?

Não há como não ver o quão impressionante é a capacidade dos japoneses de criar automóveis. Mas vemos ainda hoje um desprezo quase que total pelas suas criações nos meios entusiastas. Há motivos claros para isso, a principal é sem dúvida o fato de que os carros criados no oriente tendem a ser extremamente enfadonhos, como qualquer coisa que é exageradamente sem fobias ou vícios. Ou mesmo politicamente correto, coisa em que os japoneses são mestres. E todos devemos concordar que politicamente correto é muuuuuito chato.

Mas fico chateado pelo fato de que a maioria de nós ignora tudo que vem de lá, e tenha tanto preconceito de nossos amigos nipônicos. Existe muita coisa interessante também, empresas com personalidades diferentes, e grandes carros construídos com muita garra e trabalho duro.

Mas vejo isto mudando; Subarus têm uma legião de seguidores no Brasil, e mesmo o turrão MAO já se deixou seduzir por uma certa barca nipônica azul que, eu juro, é completamente demente, porque acha que é um Ferrari.

Mas a ignorância e preconceito ainda é norma quando se fala de carros japoneses. Vejam por exemplo o famosíssimo Nissan Skyline GT-R: apesar de muito conhecido, poucos conhecem sua história fora dos videogames. E quando conhecem, tendem a começá-la pelo R32 de 1989. Alguns poucos sabem dos que houveram na década de 60, mas poucos lembram que o GT-R nasceu em outra empresa.

Na verdade, o Nissan Skyline nasceu Prince Skyline. A Prince Motor Company era, nos anos 50 e 60, uma empresa conhecida no Japão por produzir caros carros de luxo para o padrão do país. Tudo bem que em 1957, tal coisa significava isto aqui:
O primeiro Skyline, acima, era propelido por um 4-cil de apenas 1.500 cm³, mas já era um propulsor moderno de 60 cv e sua suspensão traseira era uma sofisticada ponte De Dion. Logo, a Prince cria um belíssimo cupê Skyline, encomendado ao Studio Michelotti, italiano. Este carro lançado em 1960, que recebia um motor maior de 1.900 cm³ e 96 cv, pode ser considerado o percussor dos GT-R modernos. Raríssimo, apenas algumas centenas foram produzidos. Aqui pode ser visto na Villa D’Este, em nobre companhia.



A segunda geração do Skyline veio em 1963:



Aparecia uma versão esportiva, o 2000GT, com um pequeno seis-em-linha de 125 cv. Em 1966, veio a fusão com a Nissan. Mas uma nova geração de Skylines já estava em desenvolvimento no centro de engenharia da Prince em Opama (um subúrbio de Tóquio), e uma versão deste novo carro estava destinada a fazer história.

A Nissan, apesar de descontinuar a marca Prince, manteve sua organização de engenharia e marketing intacta, cuidando dos carros da marca, agora todos chamados de Datsun.

Em 1968 era lançado o Nissan Skyline de nova geração, code name C10. O seis-cilindros do 2000GT anterior era opcional no novo carro, e era lançado o GT-R com o mesmo motor equipado com duplo comando de válvulas e três carburadores duplos. Era na verdade uma homologação especial para as populares corridas de sedãs 2-litros de “produção” no seu país. Veio a se tornar o maior vencedor da história na categoria, e virou uma lenda instantânea.


O famoso piloto Kunimitsu Takahashi é creditado por ter criado o “esporte” de drifting com seu GT-R no início dos anos 70, o que apenas aumenta a lenda ao redor do GT-R original.


Entre 1972 e 73 é produzida a segunda geração do GT-R, sua curta vida fruto da crise do petróleo:

Outro GT-R só apareceria em 1989, e daí para frente vocês sabem o que acontece. Fama e mitos espalhados pelo globo.

Muitos historiadores creditam toda veia esportiva e de sofisticação mecânica da Nissan à marca Prince. Suas instalações e funcionários foram mantidos por muito tempo, nos mesmos lugares, fazendo Skylines como sempre. Alguns até creditam o 240Z a este time, supondo que Z viesse de Zero, o caça da Segunda Guerra que era produzido pela mesma empresa que no pós-guerra resolveu fazer automóveis com a marca Prince.

Eu sigo aqui cada vez mais cativado pelo meu velho Nissan, talvez pelo fato de que ele é tudo menos perfeito. E gosto de pensar que quando acelero e ele grita como um Ferrari, um pouco do espírito do magnífico GT-R atual está nele, bem como o espírito de uma quase esquecida empresa com nome de príncipe.

MAO
Tuscan
Propaganda do modelo da série M, pelo concessionário nos EUA



O texto a seguir foi escrito pelo amigo Hans Jartoft, um entusiasta sueco já comentado aqui nesse blog. Hans possui um TVR 350, e visitou a fábrica algumas vezes, tendo conversado pessoalmente com Peter Wheeler, que faleceu em 12 de junho passado.
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"Após um período enfermo, Peter Wheeler faleceu aos 64 anos. De 1980 a 2004, Peter dirigiu o fabricante de carros esportivos TVR em Blackpool. Em 1979, o proprietário anterior, Martin Lilley, havia apresentado o TVR Tasmin como substituto do Taimar/M-Series, mas problemas principalmente nos EUA trouxeram grandes problemas financeiros.

Peter era um engenheiro quimico e havia feito um bom dinheiro na indústria do petróleo. Mas agora ele procurava gastá-lo na sua grande paixão por carros, então assumiu a empresa após Martin.

Entre as primeiras coisas que realizou, foi colocar o Tasmin/280i conversível em produção, e então o 350i com motor V-8 Rover. O V-8 se tornou um sucesso, e as vendas dobraram. Peter gostava de velocidade, e durante os anos 80 esse chamado “wedge”, ou cunha, foi adotando motores cada vez maiores. Peter fez até mesmo um assento especial para seu cão no carro de uso pessoal.
o 350i, "wedge"

Mesmo com os pequenos recursos da TVR, Peter fez com que novos modelos fossem lançados o mais rápido possível. Durante o final dos anos 80, a série S, de estilo mais convencional, foi lançada. Alguns anos após 1990, veio o Chimaera, de grande sucesso. A lenda de que o cachorro de Wheeler havia mordido o spoiler dianteiro de um protótipo, e que por isso ele tinha esse desenho, não é verdadeira.

O Chimaera, junto com o Griffith e Cerbera, aumentaram as vendas de umas poucas centenas, para mais de mil carros por ano. Repentinamente, o dinheiro começou a entrar e Peter foi em frente para produzir o seu seis-em-linha próprio. Este motor foi usado no Tuscan, Tamora, T350 e no selvagem Sagaris, que foram os TVRs durante os anos 2000. Desafortunadamente, eles se tornaram o início do fim, em parte devido a uma qualidade muito variável nos carros e motores, e também por problemas de liquidez. Em 2004 Peter estava em dificuldades financeiras, quando o playboy russo Smolenski apareceu com muito dinheiro.

Peter decidiu vender a empresa e se retirar para sua casa em Lancashire. Lá, ele pode apreciar a vida caçando, correndo com seus Tuscan e Aston Martin DB4, mas também começar um novo projeto de carro.

Desde que o russo não se relacionava bem com muitos membros da TVR, ela foi fechada em 2006, pois muitas pessoas-chave haviam saído antes. Algumas delas começaram a trabalhar com Peter para realizar sua idéia de um veiculo anfíbio fora-de-estrada com 3 lugares, e estilo diferente de tudo. Hoje o protótipo é dirigível e a prova d'água, mas Peter se foi. Nós estamos entre os muitos que sentem a falta de suas ideias inovadoras, e o mundo não será mais o mesmo sem ele. Nossas profundas condolências a sua família.

Descanse em paz, Peter."

Hans Jartoft

Cerbera

Ou Lotus Elan contra Mustang Boss 302, em uma corrida de clássicos no exterior.
Não sei porque precisam tanto desses rótulos, mas...
A estrada que liga Banff a Jasper, na província de Alberta (Canadá) é realmente um show! Tem o pomposo nome de Icefield Parkway www.icefieldsparkway.ca/), acompanha as Montanhas Rochosas na divisa com a Columbia Britânica (British Columbia) e traz cenários de cartão postal o tempo todo. Desde lagos, cachoeiras, rios gelados, até as sempre fantásticas geleiras, tudo sempre próximo à estrada principal. Segue o estilo norte-americano de estradas, ampla e um pouco exagerada nas proporções (nada de faixa simples e curvas apertadas, isto não é Europa!). Inúmeras travessias de animais silvestres são vistas pelo caminho (eles passam por baixo da estrada e existem várias partes com alambrados conduzindo-os para esses túneis).
Tudo pode começar no aeroporto de Calgary, cidade que já sediou uma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. Uma cidade absolutamente plana com as montanhas ao fundo. Escolha seu carro (se conseguir fugir dos enormes SUVs, ótimo) e siga viagem para Banff. Dá pra começar por cima, via Edmonton, mas Calgary é mais próximo da região do Parque Nacional de Banff, onde fica a estrada.
Banff é uma cidadezinha simpática que tem essa foto obrigatória da avenida central com as montanhas ao fundo. Prenúncio do que virá pela frente.

Uma dica meio inocente que vem dos tempos em que eu fazia trilhas a pé com mais frequência: OLHE SEMPRE PARA TRÁS! Nas trilhas, isso serve como referência caso você precise retornar, pois só gravamos o que olhamos e raramente nos preocupamos em parar e virar 180 graus. Isso ajudaria muita gente que se perde na mata em passeios mal programados. Mas neste caso o motivo obviamente é outro. Muitas vezes, após uma curva, um túnel ou um passo de montanha, pode-se perder um visual fantástico que, literalmente, ficou pra trás. Esta estrada, especificamente, deve ser percorrida em ida e volta, então a dica nem é tão importante assim...

A primeira parada obrigatória é em Lake Louise. O visual impressiona. A cor da água e a moldura de montanhas, mais o tradicional hotel às margens devem compor o cartão postal mais batido dessa região. O antigo nome, Emerald Lake, também me parecia bem adequado. Ao fundo há uma geleira (ou glaciar), a Victoria Glacier. Geleiras são formações dinâmicas, elas se movem lentamente, carregam muita história de épocas passadas e ainda servem de dramático alerta para as mudanças no meio ambiente, ao se comparar fotos antigas com o que vemos hoje. O nome da estrada começa a se justificar.

Repare que as fotos, coletadas aleatoriamente, não apresentam sempre montanhas branquinhas ou totalmente cinzentas, pois são de estações diferentes. Se puder, escolha a primavera para uma passeio destes. As montanhas ainda possuem o branco da neve do inverno, mas a temperatura está mais amena e as flores começam a colorir a natureza. Ao menos nesta região, o festival de cores do outono não acontece tão efusivamente como em outras regiões do Canadá (lembre-se da bandeira canadense, com a folha de bordo ou plátano [maple leaf] que muda drasticamente de cor no outono).

Os inúmeros lagos vão se sucedendo. Cabe mencionar alguns, mais marcantes, como o Peyto Lake, com suas águas de cor azul turquesa. Em várias partes da estrada é perceptível algumas clareiras nesse mar de árvores. Na verdade, parece uma passada de lâmina de barbear e o motivo é fácil de se imaginar: avalanches. Em vários lugares a estrada é coberta, parece um túnel, mas nota-se que a estrutura foi feita, não escavada. São proteções feitas para que a avalanche passe pela estrada sem bloqueá-la (e, claro, sem atingir nenhum viajante azarado). O problema afeta regiões onde uma determinada inclinação propicia acúmulo de neve, mas de maneira instável. Basta um incentivo (mudança de temperatura, chuva ou mesmo mais neve para que uma placa se separe e aí, ninguém segura!). Regiões muito inclinadas ou pouco inclinadas são estáveis. Repare na faixa no meio desta foto do Peyto Lake.
Seguindo nossa viagem, o rio Saskatchewan e algumas cachoeiras são as próximas atrações. Esse nome e outros tantos tem origem no povo Inuit, nativos da região (são também conhecidos por esquimós, mas eles preferem o termo acima, menos comum -- chega a ser ofensivo chamá-los de esquimós atualmente, vai entender).

O interessante desses rios, alimentados basicamente de degelo das geleiras e da neve acumulada no inverno é que eles variam absurdamente de volume d'água. Esta foto mostra o rio no inverno. Em estações mais secas, o rio vai ficando mais lento e começa a criar um caminho sinuoso dentro do proprio leito, demarcado por seixos, pedras arredondadas. E fazem a felicidade do pessoal do rafting, pois o rio ganha velocidade e pequenas quedas d'água.

E eis que ela surge, impressionante, ao lado da estrada, a Columbia Icefield Glacier:

Impressiona pelo tamanho, pela beleza, por tudo. Pesquisando um pouco na internet pode-se encontrar fotos de mais de 100 anos, onde se verifica o quanto ela encolheu. Só pra se ter uma idéia, a estrada passa onde já foi parte da geleira. Bom, o mais legal dessa geleira é que existem passeios organizados em um ônibus sui generis. Rodas e pneus enormes, velocidade de deslocamento baixíssima. Usando tecnologia pra aproximar o homem da natureza. Na entrada, todos os ônibus passam por uma pequena lagoa rasa para limpar os enormes pneus. A rota é verificada diariamente porque, como falei antes, a geleira não é estática. Ela se move muito lentamente e há uma mistura de gelo compactado e neve, fora os rios que naturalmente se formam e correm por ela, erodindo e podendo criar fendas (ou cravasses) perigosas. Um passeio imperdível pelo inusitado do visual e do veículo!

Seguindo em frente, em direção a Jasper, a estrada segue "apenas" com o visual incrível, já habitual ao viajante a esta altura. Uma outra parada sugerida é a cachoeira Athabasca Falls. Nada que se compare com nossas exuberantes quedas d'água em volume e até em beleza, mas a curta trilha para se alcançar essa cachoeira passa por um canion apertado e muito bonito. Convite para esticar as pernas e fazer um piquenique antes de alcançar Jasper, final da nossa viagem. Como em vários outros destinos montanhosos, existem alguns teleféricos que permitem travessias incríveis e até assustadoras. Entre montanhas, sobre rios e sempre com um visual estonteante. Programa também convidativo, apesar de assustar muitos brasileiros.

A cidadezinha de Jasper não tem nenhum grande atrativo, mas, como comentei no começo do texto, esta região é um Parque Nacional e existe para preservação da fauna e flora local. Ursos são raros, mas esquilos, pequenos cervos e enormes caribous são comuns. As placas de aviso de animais cruzando a pista não poderiam ser mais adequadas a esse local.

Quando eu falo enormes caribous, não estou exagerando. São animais muito grandes e pesados, com uma galhada ainda maior que, não raro, cruzam a avenida principal da cidade de Jasper como se fossem à padaria... Não é dificil um encontro inesperado e a colisão tem boa chance de ser pior para o carro do que para o animal. Nesta estrada você se sente visitante. Tem mais fauna local do que turista.

Diferentemente de outras viagens, esta é indicada facilmente para a família toda, independente da idade. A estrada não tem curvas fortes que enjoem crianças, o carro americano molengão que você vai alugar vai estar no seu hábitat, os passeios são curtos e fáceis, para turistas preguiçosos (exceto as trilhas para os aventureiros), há vários postos de serviços, de apoio, banheiros e locais para piquenique, sempre no padrão canadense de limpeza e segurança. Se é a estrada mais bonita do mundo ou não, não sei. Continuo procurando...

Boa viagem!
MM