google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 AUTOentusiastas Classic (2008-2014)


A primeira vez que vi um Lamborghini Countach foi no estacionamento em frente à Glass House, o prédio todo recoberto de vidro que é o centro da Ford mundial em Dearborn, vizinho a Detroit – mais ou menos o que São Bernardo e São Caetano são em relação a São Paulo. Era 1974, o Countach ainda não havia entrado em produção seriada e o carro até então só havia sido visto publicamente primeiro em Genebra em 1971 e novamente em 1973 no mesmo Salão, quando era chamado de LP400, L de longitudinale, P de posteriore e 400, os 4 litros de cilindrada do motor.

O Lambo Countach sempre chamou atenção adoidada onde quer que aparecesse, naquele tempo ainda mais - e aí estava um sem-número de executivos com as mais curiosas expressões de espanto e incredulidade em seus rostos. Sendo americanos e geralmente preocupados com margens de lucro, só falavam do custo absurdo de um motor V-12 de 48 válvulas e quatro comandos, colocado entre eixos num chassi espacial revestido com uma carroçaria em alumínio.

Pareciam inclusive não perceber que estavam na calçada e o Lambo na rua, uns 10 cm mais abaixo, seu teto na altura aproximada de seus joelhos - e não viam como alguém poderia enfrentar o desconforto de ter de se contorcer o suficiente para entrar nele. Com horário muito apertado e não conseguindo ver direito o Countach de tanta gente a seu redor, tive de ir embora.
Treze anos mais tarde, estava com minha mulher Vera na Itália, perto de Sant’Agata Bolognese. Marcaramos com o chefe de Relações com a Imprensa e fomos conhecer a fábrica, claro, esperando talvez que pudéssemos andar num Countach, mesmo que fosse do lado. Tivemos muita sorte, a fábrica estava tranquila, o diretor de engenharia gostou do papo, o piloto de provas da companhia nos deu dicas do carro e acabamos saindo com o Lambo 5.2 QV para uma autostrada bem ali pertinho. Foi por relativamente pouco tempo, umas quatro horas, mas rodamos o que pudemos e aproveitamos o tempo de colheita de enormes rolos de feno para fazer as fotos.

Todo italiano sabe que os membros da Polizia Stradale têm uma maneira própria de lidar com excesso de velocidade: se o carro visto andando muito forte for algo realmente de sangue azul, deixe pra lá: o cara é rico, deve saber o que está fazendo e, bolas, o carro é uma fábula. Se estiver com um carro pequeno, ou simplesmente muito comum, vá atrás dele e lhe dê uma senhora multa para deixar de ser besta.
Sempre andamos bastante conservadoramente com um carro que não conhecemos, e uma característica do Countach nos deixou inicialmente preocupados: ele passarinha bastante até os 140 (limite rodoviário), 150. Ele é muito largo, as faixas de rolamento não são tanto, e de repente havia uma série de italianos querendo ver o Countach de perto – perto demais. O jeito foi despachar os vizinhos indesejados, pelo menos por um quilômetro ou um pouco mais. Beleza: depois dos 160 ele firma e segue absolutamente reto.

Uns 100 quilômetros depois, já bem acostumados com o carro, aceleramos por um longo aclive e daí para um declive – e lá em baixo, talvez meio quilômetro à frente, ia um Alfa Romeo 90 V-6 da polizia, cruzando provavelmente no limite de 140 da estrada. Tiramos o pé dos 220, 230 e entramos nos freios, mas quase exatamente ao mesmo tempo vimos o policial que dirigia pôr o braço para fora e fazer movimentos para que passássemos. A fumaça saindo do cano de descarga do Alfa mostrava que seu condutor estava de pé em baixo. Eles já sabiam que estávamos em excesso, ordens são ordens, o Countach em quarta quase nos jogou pra dentro do compartimento do motor, chegamos muito perto dos 8.000 giros da faixa vermelha e passamos a quinta por acaso no momento da ultrapassagem, o V-12 Quattrovalvole berrando como ele só.

Foi fantástico: os dois policiais estavam excitadíssimos, o condutor guiando com as duas mãos no volante e seu pé direito obviamente querendo atravessar o painel de piso. Mais fantástico ainda foi o policial da direita, gesticulando com os dois braços.

Mas era hora de voltar, um retorno estava logo à frente, pegamos a autostrada do outro lado devagar e agradecemos com os braços aos policiais que estavam parados no acostamento fazendo a mesma coisa conosco.

Só na Itália.
José Luiz Vieira




Atualizado às 20h00 de 24 de março de 2010. Adicionadas as fotos de autoria de JLV e Vera Vieira.


No próximo dia 16 inicia-se o tradicional evento de Águas de Lindóia, o XV Encontro Paulista de Autos Antigos, que é feito na Praça Adhemar de Barros, de frente ao Hotel Monte Real, no centro da cidade.

Como chegar, saindo de São Paulo:

1) Pela Bandeirantes:
- Rodovia dos Bandeirantes (SP-348), sentido interior
- Acesso à Rodovia Anhanguera (SP-330) próximo à Campinas
- Acesso à Rodovia Dom Pedro I (SP-065) logo a seguir
- Acesso à Rodovia Governador Adhemar Pereira de Barros (SP-340)
- Saída logo antes de Mogi Mirim para a SP-148 sentido Itapira/Lindóia
- Chegando em Lindóia, seguir placas para Águas de Lindóia, pela Rodovia Eng. Constâncio Cintra (SP-360).

2) Pela Fernão Dias:
- Rodovia Fernão Dias (BR-381)
- Acesso à Rodovia Pedro Astenori Marigliani (SP-008) até Socorro
- Acesso à Rodovia Octávio de Oliveira Santos (SP-147) até Lindóia, pela SP-360.

Em julho de 1980 chegava a melhor revista de automóveis jamais publicada no Brasil.

Muitos leitores do AUTOentusiastas passaram bons anos de suas vidas lendo MOTOR 3, revista publicada pela primeira vez em julho de 1980. Desde o primeiro número, quando foi divulgado em editorial de José Luiz Vieira o lema "Curtição levada a sério", já se antevia que algo muito diferente estava por vir.

A ideia era nova, diante do que existia no mercado editorial, bastante conservador e com poucas publicações, agravado pela proibição de importações de automóveis.
Para nós, MOTOR 3 era um oásis. Havia, sim, as publicações estrangeiras, mas de preço alto como hoje, e eram apenas um sonho para a maioria.

A primeira edição trazia na capa a proposta inédita de cobrir carros, motos, barcos e aviões. De vez em quando, alguma edição não apresentava assunto relativo a náutica ou aeronáutica, e alguns leitores criticavam, dizendo que era por isso o "três" no nome: só 3 assuntos. Nada disso, o numeral 3 era devido à Editora Três, dona da publicação.

As matérias sobre aviões eram um diferenciador forte, pois se faziam testes de aeronaves pela primeira vez na América do Sul, e por um engenheiro aeronáutico formado pelo ITA, para dizimar de vez com qualquer dúvida sobre a validade das matérias. Era Fernando de Almeida, executivo da indústria automobilística e, em paralelo, um aviador-poeta que nos deixou cedo demais. Voava quase qualquer tipo de avião, modernos e antigos, e executava manobras padrão de avaliação, não apenas passeios.

Mas eram os carros o motivo e a força principal da revista, e a imagem predominante nas capas, que nunca eram " poluídas". Nos primeiros anos, normalmente uma só foto, boa e forte, e as chamadas para os outros assuntos logo abaixo.


José Luiz Magalhães Vieira, o JLV, comandava a obra que deixava salivando os leitores com a proximidade da data de venda de cada nova edição. Era normal passar dias e mais dias visitando a banca mais próxima, perguntando pela revista. Quando atrasava, que penúria! Quando chegava, pegava-se o troco da mão do jornaleiro sem conferir, só olhando para a capa! Tempo bom aquele. Colocar as mãos em uma nova edição era certeza de estar a poucos minutos de sonhos transcritos para o papel, de estar a poucas páginas de aprender mais coisas novas ou de entender melhor o que já se sabia.

Os colaboradores vieram de pontos variados do negócio "veículos", e eram notáveis pelo conhecimento e pela habilidade em dar o recado. José Rezende Mahar, Fernando de Almeida, Oscar Nélson Kuntz, Gabriel Hochet, Pierre Yves Refalo, Ulisses Vasconcellos Diniz, Dedê Gomez, Giu Ferreira, José Roberto Nasser, Expedito Marazzi, Paulo Celso Facin e Milton Saldanha Machado foram alguns nomes que fizeram a MOTOR 3 ao longo dos anos.

Avaliavam carros e motos novos, antigos, de corrida, barcos de todo tipo, participaram de provas do Campeonato de Marcas, Mil Milhas, Brasileiro de Rali.

Após um certo tempo, somaram-se a eles Celso Lamas e posteriormente Adhemar Ghiraldeli Jr., com as inéditas "Análises de Estilo", que mostravam os erros, acertos e davam sugestões para melhoria de carros nacionais.

A porção de motos acabou por gerar outra revista fabulosa, a MotoShow, comandada por Hochet, um francês que no início era o editor de arte, mas sempre foi motociclista fanático. Também nunca antes efetuado por revista alguma, eram as medições de nível de ruído com equipamento destinado a este fim (decibelímetro). Sem subjetividades, portanto.

Outras diretrizes da revista era mostrar problemas caso eles existissem.

Um Fiat 147 Rallye era totalmente instável nas provas de frenagem, e o teste foi publicado mostrando esse problema sério. A Fiat verificou o carro e o devolveu para a redação, para nova avaliação. O comportamento melhorou, mas não ficou perfeito, e foi publicada uma nova matéria apenas para falar disso, mostrando os resultados.

Uma outra característica ótima era a de mostrar fotos apenas das modificações de um certo modelo. Foi assim com o Opala/Caravan 5-marchas, cujo teste teve apenas uma foto do pomo da alavanca de câmbio, mostrando a marcha adicional. Mesmo procedimento com o Del Rey automático, mostrando apenas 3 fotos: cofre do motor, alavanca de seleção de marchas e uma da nova caixa aberta. Sem desperdício de espaço com fotos de carros que não apresentavam mudanças de aparência.

Nas páginas finais, o "Mercado Clássico" trazia anúncios de veículos antigos, que eram gratuitos. Até aviões eram anunciados.

Os carros-projeto começaram cedo a povoar as páginas, com o primeiro deles nascendo do acaso. José Luiz Vieira foi à Fiat em São Paulo pegar uma pick-up Fiorino para avaliação. O carro era o primeiro modelo do pequeno Fiat, baseado no 147 com a dianteira antiga. Após um tempo em congestionamentos, JLV viu espaço à frente e acelerou. O comportamento vivaz do pequeno carro de carga era tão bom que nasceu a proposta de fazer a pick-up com a parte dianteira do modelo chamado 147 Europa, e mais várias melhorias, buscando um esportivo fora dos padrões. Ficou muito chamativa, e levou a fábrica a pensar o carro sempre com versões de apelo de diversão e lazer, não apenas trabalho. Algo que permanece até hoje com as versões Adventure.

Outro projeto foi o Chepala, Chevette com motor Opala 4-cilindros, que foi inicialmente feito experimentalmente pela GMB alguns anos antes, e nunca comercializado. Era tão interessante que JLV o reproduziu para uso pessoal, a partir de um modelo zero-km, explicando na revista como e por que fazer, mostrando as muitas vantagens e poucas desvantagens.

Tabela comparativa mostrando os resultados do Chepala 2,5 a álcool.

Mas o projeto mais notável foi um Landau sem carroceria e com o balanço traseiro diminuído. Uma gaiola tubular foi adicionada ao chassis perimetral, amarrando toda a estrutura, e pintada de "amarelo Kodak" por decisão do diretor de arte da revista, Silvio Magarian. Batizado de Koizyztraña, foi apresentado no Salão do Automóvel de 1982, com grande sucesso. Um Landau que servisse também para uso fora-de-estrada só poderia sair mesmo de uma revista que levava a curtição a sério.
O folheto com a proposta do Koizyztraña, distribuído no Salão de 1982.

Somente quem gosta de leitura de forma apaixonada pode entender a força que MOTOR 3 teve sobre uma enorme quantidade de pessoas.

Como explicar uma revista que talhou características em vários motoristas, inclusive neste que escreve, como a de ser macio, suave, sem "detonar" o carro conduzido? Todos os princípios desse raciocínio estavam explicados na matéria " O bom motorista é o motorista macio".

Como explicar o desejo de dirigir cada vez melhor, cada vez com mais precisão? Natural foi entender que não se aquecia carro parado, para depois sair acelerando tudo. Elementar, meu caro Watson: e o resto da mecânica? Uma transmissão pode ser chamada a transmitir todo o torque do motor ainda fria? Não, óbvio que não. E um freio, é igualmente eficiente na primeira freada assim como nas subsequentes? Não. Precisa estar convenientemente aquecido para apresentar um bom rendimento.

Também foi natural entender que andar rápido é fácil. Fazer isso com antecipação, evitando acidentes e não atrapalhando os outros é que é difícil. Muito antes de existirem cursos de direção defensiva, a revista já ensinava isso.

Certamente o motivo de MOTOR 3 ser lembrada com tanto carinho ainda hoje por quem a leu quando nova, é a característica profissional principal de JLV: o amor pelo automóvel, pela máquina. Não esqueceremos de forma alguma o entusiasmo que ele sempre demonstra ao falar de carros, como, por exemplo, em um Congresso da SAE, quando havia conseguido que a BMW trouxesse um Série 7 movido a hidrogênio, bem como em um Salão do Automóvel de São Paulo, quando a Renault expôs o conceito Racoon.

Sua formação como engenheiro automobilístico e o ingresso simultâneo no jornalismo o talhou com a visão de dentro para fora das fábricas, sem escrever bobagens sobre como é o desenvolvimento de um carro, e entendendo perfeitamente o por quê de cada modelo ser o que era. Totalmente diverso de quase tudo que se lia em outros lugares, portanto.

Foi simples entender que não existe "o melhor do mundo", nem o carro perfeito, pois isso depende muito de quem compra e como usa um determinado modelo.

Também entendemos que engenharia, seja de qualquer modalidade, significa basicamente compromisso. Traduzido para os automóveis, entendemos como sendo fácil fazer carros caríssimos e com tudo que se precisa. Difícil é fazer algo barato e muito bom.

Sua experiência incluiu passagens por empresas fora do Brasil, seguindo sua graduação como engenheiro automotivo pela Indiana Tech, na cidade de Fort Wayne, Indiana. Em paralelo com a carreira de engenheiro, JLV se tornou um jornalista que acumulou experiência rapidamente. Já no último ano do curso de engenharia, em 1955, se tornou correspondente nos Estados Unidos da Revista de Automóveis, publicada no Rio de Janeiro. JLV conta com mais detalhes esse início, na apresentação de seu livro "A História do Automóvel", obra dividida em três volumes, referência para quem gosta de saber quando, onde, como e por que o automóvel chegou a ser o que é hoje.

Após passagens por jornais e revistas cariocas e paulistas, em paralelo a outras atividades, e sempre percebendo com clareza a pequena quantidade de informação técnica nas publicações brasileiras, iniciou o projeto da MOTOR 3, destinada e ensinar o leitor, e não apenas testar carros.

Segundo ele nos disse certa vez, a ideia era permitir uma visão completa dos requisitos para o desenvolvimento de veículos, algo como um curso de engenharia automobilística.

Após algumas edições esporádicas da revista batizada de Status Motor, JLV tomou a frente para que a Editora Três tivesse sua revista de automóveis. A edição de janeiro de 1980 de Status Motor deixava antever o que seria a MOTOR 3. Dois meses de viagens e muitas matérias sobre carros estrangeiros feitas fora do Brasil, e a divulgação de informações que eram absolutas novidades naquele mundo sem internet de então.

Status Motor de janeiro de 1980, seis meses antes da primeira MOTOR 3.

José Luiz formou uma equipe de profissionais competentes, e partiu para a publicação mensal. Com uma capa que muitos disseram que não iria vender, a edição número 1 chegou às bancas em julho de 1980. Trazia um Chrysler Imperial 80, carroceria Le Baron 1927, de propriedade de Og Pozzoli, um dos mais conhecidos e admirados colecionadores do Brasil. Vendeu bem, e era muito comentada, aumentando as vendas mais no boca-a-boca do que por investimento em propaganda. Me recordo apenas de comerciais no rádio, e nas outras publicações da Editora Três.

MOTOR 3 não foi a primeira a avaliar carros em seu país de origem, mas o fazia de uma forma jamais vista por aqui, somando sensibilidade necessária a um bom testador, com conhecimento técnico da formação de engenheiro de JLV.

Sempre que era publicado o teste de um carro de marca famosa ou pouco conhecida, uma breve história da marca era apresentada, como prévia ao que estava por vir.

Foi assim com Saab, Rolls-Royce, Duesenberg, Talbot, Renault, Audi e tantos outros.

Modelos clássicos como Mercedes-Benz 300 SL também foram detalhados em sua origem, antes de se embarcar e dirigir o carro. Esta matéria, junto com a do Rolls-Royce Silver Spirit, do Renault R5 Turbo, do Audi Quattro, do Mercedes-Benz 500 SLC, do Duesenberg Boat-Tail e do DeLorean, estão entre as mais importantes dos quase oito anos da revista, e sem dúvida, são das melhores já publicadas por aqui, se tornando referência para todo jornalista com inteligência e objetivo de excelência.

Graças à pequena limitação de espaço de páginas, era comum uma matéria como a do DeLorean, por exemplo, ter uma parte mostrando a fábrica, outra com a avaliação do carro. Assunto não faltava, e matérias com mais de 10 páginas eram comuns. O DeLorean teve dezesseis maravilhosas páginas.

Uma visita à fábrica da Ferrari também foi algo memorável, apesar de não haver carros disponibilizados para  a imprensa, na época.

A importância do diesel para carros de passeio era já conhecida fora do Brasil há bastante tempo, e JLV mostrou isso também na revista, com um inédito teste de um Passat LDE de exportação, rodando por aqui. Uma matéria interessante e de dar pena de nós brasileiros, pelo consumo apresentado pelo carro. JLV se divertia nos postos, ao parar o carro em frente à bomba de diesel, e contrário às indicações frenéticas dos frentistas, insistia no combustível. Formavam-se sempre pequenas aglomerações, com pessoas tentando entender por que o carro estava sendo abastecido com diesel, e JLV respondia satisfeito a perguntas sem fim. O Passat diesel passava de 15 km/l na cidade com o óleo, e na estrada chegava a 16,6 km/l. Os motoristas de táxi eram os que saíam mais afetados e injuriados em direção aos seus carros a ácool que faziam 5 ou 6 km/l na cidade, exatamente como alguns flex de hoje.

Havia, sim, uma excelência nos textos de JLV, que passavam a sensação de ser quase um simulador, só faltando mesmo estar no carro para entender melhor como se comportava.

O conhecimento internacional e local, acumulados, permitiam que seus contatos com as fábricas o disponibilizasse veículos-conceito, como foi com o Volkwagen Scooter, de 3 rodas, ou o Chevrolet Citation IV, que veio ao Brasil para exposição, e foi dirigido por ele dentro da fábrica da GM, em São Caetano do Sul. Protótipos também eram alvo de suas análises, como foi com o Chevette V-6 americano, e com o Uno Turbo i.e. italiano, que a Fiat havia trazido ao Brasil, já como parte dos trabalhos de desenvolvimento do Turbo nacional, bem diferente deste.
Chevette V-6, protótipo da GM americana. JLV queimou pneus.

O mesmo ocorria com exemplares históricos, como o Fusca alemão de 1942 com pneus ressecados e e o próprio 300 SL. Esses eram carros dos museus das fábricas. Dá para acreditar? Uma revista brasileira tirando carros de museus e andando com eles?

Aproximadamente dois anos antes do último exemplar ir às bancas, uma reformulação grande foi sofrida pela melhor revista sobre veículos do Brasil. Um foco muito mais automobilístico havia sido imposto pela Editora Três, o que se provou não satisfatório para o leitor. Havia sido removido o subtítulo "Carros, Motos, Barcos, Aviões", e agora apenas carros eram mostrados.

Em 1987, no mês de maio, aparecia nas bancas a edição número 83, a última de MOTOR 3.
Deixou muitas saudades e até hoje serve como referência para quem quer fazer jornalismo automobilístico de qualidade.

Minha coleção é completa, bem-guardada e constantemente consultada.

Obrigado, JLV!

JJ

O leitor, ilustrador e apaixonado por Corvettes, Maurício Morais é um professional verdadeiramente entusiasta.
Recebi esse email do Maurício pelo outro blog :
Descobri o blog Corvette Brasil navegando na web.
Sou fã do carro e gostei muito do conteúdo do blog.
Sou ilustrador e fiz uma arte de um Sting Ray .
Este e outros trabalhos podem ser comprados pelo meu e-mail.
As fotos que estão vendo são de dois dos Corvettes que o Maurício trabalhou. Um dos trabalhos especializados que ele faz é ilustrar carros de colecionadores. No momento ele está trabalhando num Shelby Cobra. Visitem o blog do Maurício e vejam como é espetacular o trabalho que ele faz com tanta paixão.
Fica aqui a idéia para presentear alguém querido com uma das obras do Maurício.
Ah, sim, já encomendei dois trabalhos para o Maurício, ambos Corvettes como nas fotos para a garagem de casa.
Imagem: ultimosegundo.ig.com.br


É incrível mas é verdade: nesta avenida, a 23 de Maio, em São Paulo, será proibido andar de motocicleta. Nesta e nas faixas expressas das avenidas marginais. O prefeito Gilberto Kassab enlouqueceu, o secretário de transporte Alexandre de Moraes também.

Notem nesta foto que a passagem das motocicletas entre os carros não representa nenhum problema, pois as faixas de rolamento têm largura normal. Mas em outros pontos do mesmo logradouro acharam que se devia estreitar as faixas e criar mais uma. Pronto, ferrou tudo. Moto passa com "finas" de arrepiar e veículos de serviço público, como ambulâncias, mas conseguem se adiantar no tráfego.

Amigo leitor, só se restringe tráfego quando: 1) o veículo for capaz de atrapalhar o fluxo pelo seu porte e 2) o veículo não atingir velocidade suficiente e se tornar um obstáculo. Pois as pistas expressas das marginais terão  a estonteante velocidade-limite de 90 km/h. É rídiculo proibir moto acima de 125 cm³ de trafegar ali.
Alguma coisa terá de ser feita, não sei, mobilizar os 700 mil motoboys, pois não está dando para aguentar tanta burrice numa só administração.

BS
Foto: eBay


Vínhamos pensando em falar nesse recall, ou convocação, da Fiat relativamente ao Stilo, por rodas que se soltam, mas o pedido recente do leitor Célio Miranda de Oliveira acelerou o processo.

O alvo da ação é a peça da foto, o cubo de roda traseira. Há 30 casos de clientes que reclamam de uma das rodas traseiras ter-se soltado, muitos resultando em algum tipo de acidente. Há oito fatalidades conhecidas. 

A fábrica diz ter provas irrefutáveis de que a soltura da roda decorreu de batida lateral da roda ontra  algum obstáculo, por exemplo, uma guia de calçada (também chamada de meio-fio).

Os clientes afirmam ter sido ao contrário, isto é, soltou-se a roda, houve perda de controle e o acidente.





fotos: revista Hot Rod
A revista Hot Rod de abril de 2010 apresenta um carro feito a partir de um Ford Tudor sedã 1936 que os americanos chamam normalmente de trunk sedan, pois apresenta um volume de porta-malas protuberante, tipo de carroceria pouco usada para a construção amadora.
O resultado ficou muito bom, para um trabalho que começou com um carro bem corroído, que teve as partes piores removidas, alterando até mesmo a grade do radiador, pois toda a porção inferior da dianteira do cofre do motor estava irrecuperável. O que sobrou está nas fotos.
O Motor é Cadillac de 1968, 472 polegadas cúbicas, ou 7,7 litros, acoplado a uma caixa automática GM HydraMatic TH400, suspensão dianteira de Dodge 1935, incluindo as molas semi-elípticas e as rodas, traseira provenientes de um Chevrolet Caprice 1990, com rodas doanteiras de Oldsmobile 1935 (mesmo diâmetro de furos), para-brisa de MGB retrabalhado, reservatório de expansão do arrefecimento feito com um antigo extintor de latão, comando da transmissão com as marcações montadas com teclas de máquina de escrever, bancos do tipo chamado de bucket seats, pois parecem ter sido feitos recortando-se um balde de metal. O volante e painel são originais do Ford.
Uma bela mistura que resultou em um carro único. Criatividade no estado mais puro. Um autêntico hot rod.
Abaixo o Ford Tudor original, carroceria trunk sedan
foto: clubs.hemmings.com
JJ
Ontem fui para São Paulo com meu tio José, um folclórico e hilário senhor de 72 anos de idade, comerciante aposentado, homem simples que não possui nem mesmo o primeiro grau completo e que provavelmente não dirige há cerca de 40 anos.
Sem exageros, acredito que ele guiou pela última vez em 1970, quando ainda possuía um caminhão Ford F-350 V-8. Nunca teve um carro de passeio em toda sua vida e o velho Ford (comprado 0-km) era usado apenas para o trabalho pesado do seu comércio.
Logo ao saírmos da casa dele, ficou intrigado com a forma com que eu dirigia. Ao parar no primeiro semáforo, ele, espantado, perguntou: "Felipe, você não troca marcha não?".
Caí na gargalhada e apresentei ao tio essa invenção maravilhosa chamada câmbio automático, explicando como funcionava cada posição da alavanca. E ele, com aquela inocência quase infantil, exclamou: "Só não entendi essa alavanca, pro carro andar pra frente puxa a alavanca para trás, para andar de ré empurra a alavanca para a frente... Não faz muito sentido para mim, não."
Logo percebi que de nada adiantaria explicar para que serve a posição "low", como funciona o "kickdown" e outros recursos: foi igualmente impossível explicar qualquer um deles a pessoas mais cultas, com elevado nível de formação, bem menos ignorantes que o querido tio.
Para essas pessoas, tudo é muito simples: o "P" equivale a uma marcha engatada ao estacionar um carro dotado de câmbio manual; o "R" é a marcha à ré, o "N" é o ponto-morto e o "D" coloca o carro em movimento. Ignoram completamente as posições "3", "2" e "L", que permitem fazer bom uso do freio-motor em declives e ajudam a explorar o limite máximo de rotações do motor em determinadas situações.
O que me levou a abordar este assunto foi o lançamento do modelo 2011 do Toyota Corolla, equipado com motor de 2 litros e câmbio automático de comandos sequencias, acionados pela alavanca (shiftronic) ou através de borboletas atrás do volante. A novidade levou muitas publicações ditas "especializadas" a afirmar que a caixa automática anterior não oferecia a opção de mudanças manuais.
Nada mais longe da verdade: praticamente qualquer câmbio automático permite mudanças manuais, obviamente, se tiver duas ou mais marchas. Do tradicional GM Powerglide de 2 marchas até o Aisin de 4 do Corolla, todos podem operar em modo sequencial, bastando para isso um mínimo de conhecimento por parte de quem comanda o veículo.
Lembrei do grande José Luiz Vieira ao testar o Opala seis cilindros com câmbio automático de 3 marchas para a revista Motor 3, há cerca de 25 anos: descrevia de maneira quase poética como era colocar a alavanca em "low", pressionar o freio e acelerar até a rotação de estol, sentindo a carroceria do Opala torcer suavemente.
Solta-se o freio e uma nuvem de fumaça depois acelera-se até o limite de rotação do motor, para depois dar uma palmada bem dada na alavanca para que o corpo de válvulas libere o acionamento da segunda marcha. Mais uma vez o limite de rotações chega e você dá outra palmada bem dada na alavanca. Sem segredo nenhum, aí está o seu comando sequencial!
No caso do Corolla, me agrada bem mais a alavanca dos modelos antigos, com botão e catraca ascendente, com acionamento da alavanca para frente e para trás. No modelo atual inexiste o botão na alavanca e o posicionamento da alavanca é determinado por uma grelha, tornando a troca sequencial um pouco mais complexa (duas palmadas para frente e outra para a direita).
Foto: Edmunds
Caixas automáticas estão longe de serem objetos de desejo dos entusiastas (excetuando muitos que moram na Grande São Paulo, meu caso). O fato incontestável é que é, sim, possível efetuar mudanças manuais em caixas automáticas, sem shiftronic, sem borboletas e (para os iniciados), sem sequer tocar na alavanca, apenas pegando o jeito da caixa e comandando as trocas com o pedal do acelerador.
Quando vocês bem entenderem, basta conhecer melhor a máquina e seu funcionamento.
FB
Imagem: BMW AG

Foi publicada ontem no Diário Oficial da União a alteração no Código de Trânsito Brasileiro que torna obrigatória a realização de aulas noturnas para a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação.
A nova exigência começa a vigorar em 60 dias e o projeto é de autoria do deputado federal Celso Russomanno (PP-SP), que afirmou que a condução do veículo durante a noite exige "precauções adicionais".
Aí eu sou obrigado a perguntar: precauções adicionais são exigidas apenas na condução noturna, deputado Russomano? E em outras condições adversas de visibilidade, como chuva ou névoa? E quando é que vão começar a ensinar os motoristas a entrar e sair de vias expressas e rodovias?
Imagem: garageboy.com
Quando eu estava no segundo grau, prestes a completar 18 anos, marquei uma viagem para o interior de São Paulo com alguns colegas de classe, já que um deles era recém-habilitado e havia acabado de comprar um carro. Logo no começo da viagem, um de nós perguntou se o dono do carro tinha muita experiência em estradas.
"Na verdade não..." - disse o colega - "... essa é a primeira vez que estou encarando uma estrada, mas não quis falar nada para não assustar vocês. Fiquei com medo de desistirem da viagem".
É claro que ficamos todos apreensivos, mas já estávamos ali mesmo, não podíamos pular fora. Encaramos como uma verdadeira aventura e fizemos nossa viagem em segurança, mas e as pessoas que não contam com a mesma sorte, como é que ficam?
Dentro de alguns meses chegaria a minha vez de me submeter ao exame para obtenção da CNH e a encrenca começou logo no dia do exame: eu trajava uma bermuda, vejam vocês, um traje bem natural para aquele dia de calor escaldante.
A dona da auto-escola ralhou comigo, dizendo que aquilo era um absurdo, pois até bem pouco tempo atrás exigiam até traje social completo, com gravata (o Bob Sharp sabe bem do que estou falando).
"Instrutor" de auto-escola ordenhando volante.
Depois de muita discussão, os examinadores disseram que eu poderia sim realizar o exame de bermuda, sem problema algum. Passei "raspando", perdi 3 pontos na baliza (um ponto por regular o espelho retrovisor depois de ter colocado o carro em movimento e dois por ter deixado o carro "morrer").
Inesquecível mesmo foi a recomendação do examinador, logo ao descer do carro: "Aqui estão seus protocolos, agora vocês são motoristas habilitados. Pelo amor de Deus, não cometam nenhuma besteira, não matem, não morram."
Apenas isso: uma porcariazinha de uma baliza, uma rampinha fajuta, uma volta no quarteirão e uma recomendação para "não matar e não morrer". Sinceramente, eu não me importaria nem um pouco em realizar o exame de terno e gravata, se de fato eu tivesse um aprendizado digno e sério.
Mas não adianta. Para os nossos "representantes", o que realmente importa é entupir os nossos carros de itens de segurança como ABS e airbags, ainda que o consumidor não faça questão de tê-los. Como se uma canetada cretina fosse resolver um problema grave de formação e educação para o trânsito.
FB

Mais ou menos um mês atrás acabei por usar o Focus de minha esposa por uma semana. É o mais simples e menos potente Focus nacional, um modelo 2005, 1,6 litro a gasolina. Um carro simples, comum, que passa despercebido no trânsito cada vez mais caótico de São Paulo. Aproveitei para me lembrar o que faz deste carro aparentemente mundano algo realmente especial.
Não é segredo nenhum que, desde que foi lançado em 1998, o Focus I é o queridinho da imprensa especializada inglesa, a mais influente do mundo. E um dos principais motivos para isso foi que marcou uma mudança de rumo para a Ford europeia. Antes do Focus, a empresa estava mergulhada em um sem-fim de carros chatos e sem graça, e em termos de estilo, francamente sofríveis. A melhora que tem o Focus como emblema na verdade começou um pouco antes, transformando os Escort e Cia. então vigentes em carros ótimos para dirigir, mas que não conquistavam ninguém por seu estilo mal executado, e pela imagem da empresa, maculada por anos de carros ruins.
Ford Scorpio 1994-1998. Isto era o que a Ford vendia na Europa antes do Focus: um carro ótimo (neste caso, com um V-6 Cosworth), mas com uma aparência que nem uma mãe poderia amar
Vale a pena contar que os entusiastas ingleses adoravam a Ford por seu histórico de Cortinas, Escorts e Capris bravos, e seu pedigree de competições impecável, que incluía memoráveis curvas feitas totalmente de lado por Jim Clark em seu Lotus-Cortina, e incontáveis vitórias em rali. Mas durante os anos 80, a empresa foi sumindo lentamente do radar, até ficar irrelevante, e se tornar piada. Mas o Focus mudaria tudo isto. Seu desenho de carroceria era inacreditável, moderno e, principalmente, original. A imagem da empresa era então a de um venerando avô, que com o Focus apareceu derrepente todo paramentado para andar de skate numa pista de gravidade zero, em Urano: coisa de outro planeta, mesmo. E com o tempo, a forma não envelheceu, o que o torna atemporal, marca básica de um design realmente bem feito.
Mas o melhor é que o carro não era o seu design. É o fato de que foi uma lufada de ar puro no estagnado ambiente de carros de grande série do final dos anos 90. Imediatamente, a imprensa inglesa o adotou como seu novo ídolo, e o resto é história: o carro logo era o mais vendido do mundo, um raro sucesso de público E de crítica.
Mas o que há de tão especial nele?
A primeira coisa que gosto no carro é o tamanho. Um hatchback desta categoria (Golf, 307, Vectra GT, bem como as versões que não temos do Corolla e Civic) é o tamanho ideal para tudo: cabe uma família inteira, mas não é enorme, o que o faria menos econômico, menos veloz, menos ágil. Eu realmente não preciso de mais espaço que isto, e analisando objetivamente, ninguém precisa num carro de cinco lugares. E mais espaço, apesar de bom, sempre influi na agilidade, e na eficiência do carro como um todo. Existem carros maiores e mais leves, mas ainda estão em desenvolvimento, frutos da recente "descoberta" dos grandes fabricantes da massa como fator decisivo na excelência de um veículo.
Depois há o jeito que a carroceria foi desenhada. O Focus não é um carro baixo. Estacione um ao lado de um Escort do mesmo ano (carro que foi substituído pelo Focus) e veja como parece um carro muito maior, apesar de sê-lo apenas na altura. O Focus parece maior porque é mais "denso", no sentido de ter mais carro dentro da mesma "sombra". Meio como uma minivan, o Focus usa essa maior altura para maior espaço interno, mas não sacrifica a ergonomia e a estabilidade por isso, por não chegar ao extremo nesse aumento de altura.
Uma coisa interessantíssima advém disso, algo que nunca li em nenhuma avaliação do carro. E para explicar isto, tenho que voltar um pouco no tempo, até ao início do sáculo XX, na Inglaterra. Um dos maiores pioneiros do automóvel, Frederick Lanchester, cientista e inventor, estudou profundamente a interação entre o homem e a nova máquina, e chegou a várias conclusões interessantíssimas, a maioria delas esquecidas hoje em dia. Mas o Focus trouxe de volta uma delas.
O bom Dr. Fred descobriu que a posição ideal para o ocupante do carro, a localização da busanfa do motorista, conhecida tecnicamente como ponto H, devia ser a mesma altura de uma pessoa andando. Desta forma, os ocupantes se sentem melhor, e familiarizados com o movimento nesta altura, tem melhor noção de perspectiva e movimento, e até enjoam menos, no caso de passageiros com esta tendência. O Focus me dá a sensação de ser desta forma, apesar de obviamente não atender exatamente a regra. O ponto H (que na verdade é o ponto de articulação do fêmur na bacia) é mais baixo que o de uma pessoa média em pé, mas quando saio dele (mesmo eu, com quase 2 m de altura) e saio andando, a sensação é de se manter praticamente na mesma altura. E minha filha mais velha, de 10 anos (mas mais alta que um monte de adultos), enjoa em carros mais baixos e em carros mais altos, mas não no Focus. Eu quero acreditar que os engenheiros da Ford estudaram e atualizaram a regra de Lanchaster, aproximando-a para uma posição melhor e mais baixa que causa o mesmo efeito, mas muitos amigos acreditam em mera coincidência. De uma forma ou outra, o bom Dr. Fred está sorrindo em algum lugar...
Outra coisa que é interessante é que o banco traseiro é sutilmente mais alto que o dianteiro, criando um efeito chamado "teatro", supostamente mais agradável para os seus ocupantes.
Depois há a execução do interior. Basta olhar para o painel de porta: como tudo no carro, não há opulência de madeira, couro, e outros materiais nobres, muito menos cromados, como era de se esperar em carros deste preço. Mas como o resto do interior, tal coisa não é desculpa para usar plásticos duros e péssimos ao toque, como acontece aos montes nos carros aqui no .br. Não, o painel de porta não tem uma única superfície mal cuidada ao toque, a maioria dela sendo revestida por um vinil agradável, com espuma por baixo, o que o torna macio. A alça do puxador é separada, e está na posição teórica perfeita, bem como a trava e o gatilho de porta, e o descansa-braço, de largura generosa e macio pelo vinilzinho espumado. O controle do vidro elétrico está um pouco à frente da posição teórica ideal, mas ainda é de facílimo acesso, e um compromisso plenamente aceitável. Afinal de contas, nunca cabe tudo na área teoricamente perfeita (acessível com o com o braço descansando no descansa-braço), e nem precisa, como este carro prova. Dentro do puxador de porta, o plástico é pintado com tinta soft-touch, que parece emborrachada, uma delícia de pôr a mão. Na verdade, apesar da ausência de cromados e outros materiais mais opulentos, o painel de instrumentos, e todo resto do interior, não parece revestido de plástico, graças a um excelente trabalho de textura e materiais. Impecável qualidade, algo raro hoje em dia.
Mas o melhor de tudo neste carro é algo que devia ser básico: suspensão e ergonomia do motorista. Eu não conheço nenhum carro que possa ser comprado por menos de 90 mil reais que seja tão bom nisso. Muito já foi dito sobre a suspensão multibraço traseira, mas o fato é que não é isto que fez a grande diferença. Sim, a Ford foi genial em criar uma sofisticada suspensão deste tipo em um carro barato, usando aço estampado e fazendo um conjunto simples, leve e que ocupa pouquíssimo espaço. Mas se Deus está nos detalhes, os Deuses da combustão interna estão não em criações mirabolantes: estão na execução.
A Ford tomou extremo cuidado para manter as geometrias da suspensão teoricamente perfeitas em todos os seus movimentos. Pode parecer óbvio isso, mas você não acreditaria na quantidade de pequenos "compromissos" que se faz num projeto deste tipo, de produção em massa. Não desta vez: o Focus começou garantindo os movimentos livres e perfeitos teoricamente, e continuou criando uma cultura de obsessão por diminuição de atrito nos componentes de direção e suspensão. Desta forma, o acerto do importantíssimo compromisso estabilidade-conforto ficou bem mais fácil.
O resultado é sensacional. Usando pneus de perfil série 70, e rodas de aro 14, medidas hoje em dia consideradas ridiculamente conservadoras para um carro deste tamanho, o Focus, mesmo não sendo um carro baixo, exibe um controle perfeito de todos os movimentos da carroceria em todas as situações, aliado a um conforto exemplar. E a direção, o mais importante componente para um entusiasta do automóvel, é um instrumento de precisão, algo que parece ser feito numa fábrica de micrômetros. E o volante? Já fiz um post somente sobre ele, mas basta aqui chamá-lo de perfeito.
A posição de dirigir, o peso e a precisão de todos os controles do carro seguem esse tema: não dá para criticar. Ergonomia, comandos de peso e precisão corretos, aliados a suspensão irrepreensível é a fórmula básica para um carro realmente bom para quem gosta de dirigir. Pouquíssimos carros na faixa de preço do Focus conseguem este tipo de coisa e, como exemplo, a marca que é mais consistentemente boa nisso é a nossa querida BMW. É o segredo de tudo, a fórmula mágica de excelência que poucos seguem à risca.
E é bom que seja assim, porque no caso de meu carro, o motor não está à altura do resto. Não há nada de ruim, criticável, no Rocam 1,6 litro dele. Mas ele também não é algo para se sonhar quando se encosta a cabeça no travesseiro. Com 103 cv, o motor é suficientemente forte, suave e econômico, fazendo seu trabalho de forma perfeita mas não excedendo as expectativas em nada. Ele apenas faz o que se espera dele, sem surpreender ou empolgar, mas também não chateando ninguém. Nisso, o fantástico Duratec de dois litros é muito melhor: pesando o mesmo que o Rocam, totalmente em alumínio, faz do Focus um carro realmente veloz, e bem mais prazeroso ao volante. E para quem faz questão, o Duratec agora é flex, com 148,3 cv com etanol, mais 3,3 cv que quando era só a gasolina.
Os bancos são como o motor: bons, mas não fantásticos. Poderia ter um pouco mais de suporte nas coxas, e laterais mais pronunciadas para segurança maior nas curvas, mas como estão são plenamente satisfatórios. O que, para a Ford brasileira (argentina?), é um grande progresso, pois os do Fiesta estão entre os menos agradáveis hoje. O tecido também é da variedade mais barata, mas este é uma das coisas que temos que aceitar na versão mais simples do carro apenas.
Já o câmbio ajuda muito: relações bem escolhidas, quinta marcha de efeito overdrive (a máxima é em quarta), e uma alavanca de tamanho e localização perfeitas. O acionamento é preciso e suave, e a embreagem de acionamento hidráulico também é suave e fácil de modular.
Os freios para mim foram um alívio neste passeio. Sem o maldito ABS, senti novamente o prazer de modular um freio sozinho, sem intervenção, e num carro em que a sensibilidade do pedal é muito boa. Ah, como é bom novamente se sentir com a responsabilidade e o prazer de cuidar do freio sozinho! É algo que recomendo a todos, pois com o ABS, eu lentamente me tornava um motorista pior.
O que a imprensa inglesa não tinha me contado é o quão confiável é o carro. O de minha esposa é na verdade o carro da família, que usamos para viajar. Comprado zero, está com 80 mil km e ainda roda como um carro novo. Não fiz quase absolutamente nada a não ser manutenção básica no bicho, coisa como pastilha de freio e pneus novos. Simplesmente o carro mais confiável que já tivemos em casa.
Pensando nisso tudo, certo desespero me acometeu. O Focus é na realidade o único carro novo que realmente gostaria de comprar, mas saiu de linha no final do ano passado. Revi em minha cabeça a lista de carros novos que poderia comprar, e na verdade, todos os outros não me animavam em nada, pelo menos não o suficiente para gastar a montanha de dinheiro necessária. Mesmo o Focus II, apesar de muito bom, é outra coisa bem diferente, tão diferente que merecia outro nome. Outra coisa que me deixava angustiado com isso é que, inevitavelmente, o nosso fiel Focus prata não vai continuar perfeito para sempre...
O Focus I, sem dúvida por causa deste monte de motivos que coloquei aqui, teve uma vida longa. Na Europa durou até 2005, nos EUA até 2007, e finalmente aqui na América Latina (foi produzido na Argentina, como é o novo), até o final do ano passado. Os nossos 1,6 litro flex são literalmente os últimos Focus I a venda em todo o mundo. Ou ERAM os últimos? Será que ainda tem algum zero?
Resolvi ligar para as concessionárias Ford de SP, para ver se ainda tinha algum deles à venda. Encontrei nove carros em SP, curiosamente exatamente na mesma faixa de preço de 2005: de 37 a 41 mil reais. Era a última chance, em todo mundo, de se comprar um Focus zero, e este fato requeria ação imediata. No mesmo dia, coisa de três horas depois do primeiro telefonema, sobravam apenas oito deles nas concessionárias paulistanas, e o MAO estava novamente endividado. É ele próprio, o carro preto nas fotos que ilustram este post, um dos últimos Focus 1 zero-km do mundo, tirado da loja dia 3 de março de 2010, mas fabricado na Argentina dia 9 de novembro de 2009, às 7:43 da manhã.
Não é a primeira vez que compro um dos últimos carros de uma espécie. Existe algo nisso que tem algo de definitivo e imperdível, uma última chance de algo acontecer. Sim, existem carros usados, mas nunca são a mesma coisa. O cheiro de um carro novo, a sensação de ter algo virgem e praticamente intocado, me desculpem, mas é única. O monobloco nunca torceu, a suspensão nunca suspendeu, o motor nunca foi ligado fora do ambiente fábrica-loja. Você é que vai levá-lo para o mundo real, lá fora, esse mundão besta de grande e bão. Você é o primeiro, e enquanto mantê-lo, o único.
Mesmo o meu outro Focus, comprado zero-km, mas hoje velhinho, é de uma forma inexplicavelmente clara, diferente de algo usado. A história dele é uma parte da sua desde o início, meio como um cachorro já velhinho, mas ainda extremamente fiel e definitivamente SEU. E tudo isto é ampliado quando o carro é o último de sua espécie, a última chance disto acontecer novamente. Quando eu vender este Focus preto, ou se ele morrer em um acidente, será definitivamente o fim.
Por este motivo que a prece do velho Chingachgook depois da morte de seu filho único, herdeiro de uma tribo desaparecida, é tão emocionante, ao fim do grande clássico filme "O último dos moicanos". Têm-se a sensação clara de ver uma era acabando, de ser testemunha de uma mudança que é definitiva e imutável, de existência corajosa de quem fica, em um mundo que não precisa mais dele, e no qual não deixará nada além de uma lembrança. E é por isso que termino com esta prece:
"Great Spirit, Maker of All Life. A warrior goes to you swift and straight as an arrow shot into the sun. Welcome him and let him take his place at the council fire of my people. He is Uncas, my son. Tell them to be patient and ask death for speed; for they are all there but one - I, Chingachgook - Last of the Mohicans."
(Grande espírito, criador de toda a vida. Um guerreiro está indo para ti, rápido como uma flecha. Que ele seja bem-vindo, e que ele tome seu lugar junto à fogueira do conselho de meu povo. Ele é Uncas, meu filho. E diga a eles para serem pacientes, e peça rapidez a morte; porque estão todos lá, menos um – Eu, Chingachgook – o último dos moicanos.)
MAO
PS: Vejam também o excelente texto do JJ sobre o Focus clicando aqui.