google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 AUTOentusiastas Classic (2008-2014)
Interlagos Berlinette com motor Simca Tufão V-8 de Ricardo Achcar (Ilustração de Maurício Moraes/forum-Simca.2308807.n4.nabble.com)


Vá atrás de toda informação sobre carros antigos. Em  99% das iniciativas você apenas fará novos conhecimentos e amigos. Em 1%, mais amigos – e achará o automóvel.” 
Conversa com Roberto Lee, 1969. 

Parece maluquice ou despropósito, pois todos sabemos e vivenciamos ouvir enorme quantidade de histórias que, espremidas, não produzem o sumo da verdade. Usualmente, dão em pouca objetividade, reduzida veracidade e, pior, porque às vezes verdadeiras, enormes erros em datas e prazos – uma vez fui atrás de um Alfa 2500 no Rio de Janeiro, indicação de amigo comum, especializado, com autorização de usar seu nome com o proprietário. Tudo certo, exceto pelo fato de, descortês, precipitado, o alfista ter morrido quase 20 anos antes da informação, a viúva idem, a casa se tornara um edifício, ninguém sabia de nada...Mas faz parte da Arqueologia Antigomobilística, e tenho seguido a orientação absorvida do Lee, um dos pais do antigomobilismo nacional. 

Entre 1971 e 1972, para constatar a existência do meu futuro primeiro antigo, um Ford Modelo T de 1926, mal descrito em inventário de 1928, fiz 52 – cinqüenta e duas! – viagens em estrada de terra, para desespero do meu negro JK – a uma cidade do interior, em poeirenta estrada de terra até ver, negociar e comprar. Idem, searas longas, ouvindo desincentivos, a pecha de maluco simpático e articulado, nos anos 1990 para localizar o FNM Onça – com fundamental ajuda do Mingo Jr –; descobrir o IBAP Democrata, empreendedor, história, resgatar a essência desta lenda; e, neste século, para desencavar a documentação do Capeta para, junto com outros Willys exumá-los em estado de abandono e saque no pilhado Museu do citado Lee, dar base a um projeto de resgate e impedir sumiço certo. 

Energia
Curiosidade e interesse sem fim, o ânimo antigomobilista é uma pilha bem carregada. Por isto, conto a mais recente história, como o fiz à minha mulher, quando avisei voaria a São Paulo para tentar fazer resgate de automóvel perdido na bruma do tempo. “Ok," – comentou ela, com insuportável prática feminina – que seja, pelo menos exemplar único para valer seu tempo em meio à sua única semana de férias.“ Era o caso. 

Foto:Quatro Rodas
O meu TS era igual, só que amarelo Imperial

Ainda morando no Rio, precisei vir a São Paulo. Tinha um Passat TS 1977, que já vinha com o comando de câmbio certo, estava com 24 mil e poucos quilômetros. Um grande amigo, desde a infância, estava passando uns dias conosco e resolvemos, eu e minha mulher, trazê-lo junto. Alguma coisa, porém, me disse que aquela viagem não seria normal: um copo que estava sobre a bancada da pia do banheiro estourou em mil pedaços, era de vidro temperado. Sozinho, nada de choque térmico tipo banho super-quente e golpe de ar. Não havia ninguém no banheiro. Simplesmente estourou. Muito estranho. Nessas horas pensa-se no sobrenatural.

Escolhi vir pela estrada litorânea, para espairecer um pouco. Estava com problemas com um dos sócios da concessionária e dirigir em estrada me é relaxante. Sempre foi assim. Mesmo de pé embaixo. Era como eu vinha nesse dia de primavera de 1977.

Rio-Santos, paisagem relaxante (aefetivagem.blogspot.com)

Imagem: noticias.terra.com.br



Esse assunto da espionagem americana pela Agência Nacional de Segurança (NSA) daquele país está dando o que falar. Indignação de todo lado, do governo brasileiro, da presidente Dilma, da imprensa de maneira geral – dá para perceber o estranho tom de ira e indignação no olhar dos jornalistas da TV Globo – e de muita gente. Só que o termo 'espionagem' me intrigou. Teria havido realmente espionagem na acepção da palavra, conforme fartamente descrita nos dicionários? Parece-me um tanto impróprio e, inclusive, não acho que tenha havido.

Ninguém se apoderou furtivamente de documentos brasileiros secretos, ninguém fez fotos de instalações militares ou civis estratégicas, não houve invasão de contas bancárias, ninguém teve a residência vasculhada na qual se encontraram provas de se tratar de um espião agindo no país. O que aconteceu, então? Simplesmente "escuta" das comunicações via internet e telefonia celular, numa mega versão do "Big Brother" vaticinado por George Orwell no famoso livro "1984", de 1947.

É infantil achar que a nação mais poderosa do mundo e que sofreu no dia 11 de setembro de 2001 danos materiais e morais devastadores, juntamente com a perda de 3.000 vidas humanas, não montasse um esquema de inteligência sofisticado para detectar qualquer sinal de terrorismo nos quatro quadrantes do planeta. E é infantil também achar que o Brasil estava fora do rol ameaçador e que por isso não era necessário ver como as coisas andavam por aqui.

Foto:supercars.net

Rebel rebel, you’ve torn your dress
Rebel rebel, your face is a mess
Rebel rebel, how could they know? 

Hot tramp, I love you so!
(David Bowie)

(Rebelde, rebelde, você rasgou seu vestido
Rebelde, rebelde, seu rosto é uma bagunça
Rebelde, rebelde, como eles poderiam saber?
Vagabunda gostosa, eu te amo tanto!)

Era um dia ensolarado no verão de 1964. As montanhas da Riviera francesa brilhavam pacificamente, banhadas por um sol magnífico. Mas o silêncio tranqüilo daquelas montanhas então pouco povoadas era quebrado naquela manhã pelo inconfundível som de um motor de competição. Já de longe podia se reconhecer o som como um Ferrari de 12 cilindros, aquela inconfundível seda rasgando, aquele magnífico "rumore dei dodici cilindri" de que os modeneses falam com tanto orgulho. E não qualquer Ferrari de doze cilindros, um Colombo, o pequeno três litros que praticamente sozinho, com sua força, suavidade e seu inconfundível e divino som, fez a fama da Ferrari. E não qualquer V-12 Colombo, mas uma versão de competição, o volume e o tom visceral do berro não deixando qualquer dúvida a respeito disso.

Mas o carro que trazia consigo esse divino caos e desordem era diferente dos belíssimos e reluzentes Ferrari de passeio com os quais aquelas estradas estavam acostumadas. O carro que devorava aquelas estradinhas deliciosas, banhado pelo sol do sul da França, era tudo menos reluzente. O som e a cor vermelha denunciavam que só podia ter vindo de Maranello, mas o vermelho era quase fosco, sua carroceria cheia de cicatrizes e marcas de batalha. Por fora, nada, nenhum logotipo ou letreiro dizia a marca do carro, e apenas uma bandeira estampada seus pára-lamas dianteiros, com os dizeres "Scuderia Serenissima - Repubblica di Venezia" dava alguma pista de sua origem. E aquela carroceria definitivamente não se parecia com qualquer coisa que tinha saído de Maranello até então, e se pensarmos bem, mesmo desde então.


Foto:supercars.net