Não adianta dizer que não ou que não é bem assim, pois tenho certeza que piloto que é piloto é bicho burro, mesmo. Ajoelhado e de braços abertos, com o rosto voltado para o céu, confesso, sou piloto e bicho burro. Vou dar um exemplo recente para provar o que afirmo.

Um pouco antes do Zique e eu entrarmos nos carros, um piloto amigo confirmou minha impressão e disse que aquele que o Zique guiaria, anos atrás tomara uma forte cacetada na traseira e, mesmo com tudo consertado como se deve, nunca mais ficou bom de freada. Taí. A gente precisa acreditar no nosso taco. Eu estava certo.O Zique se mandou com o turbo dele lá de uns 200 cv e lá fui eu brincar com o Gran Tour de 2 litros, 16 válvulas e 6 marchas. Belo dum carro. Ergonomia perfeita, o volante regula altura e distância, bancos que nos agarram justinho, motor elástico e bom de giro alto, e ótima estabilidade, apesar de eu achar que as 35 libras dos pneus eram pouco. Acho que pra pista devemos colocar ao redor de 30% a mais do que usamos na rua, ou seja, esses pneus que usamos 30 na rua deveriam estar com 40 na pista, daí que os dianteiros dobravam muito cedo.
Ao meu lado, como instrutor, um ex-piloto da Indy, o Thiago, que veio de volta pro Brasil para correr de Stock e agora está dando um tempo. Muito simpático, muito legal o Thiago, e evidentemente um baita dum piloto, porque na Indy não entra um mais ou menos, é tudo fera da brava. Falei pra ele não esquentar e me controlar. Ele falou que tudo bem e que só era pra não passar os outros nas curvas, só nas retas. Fiquei assim, nas retas eu aliviava e deixava o pessoal distanciar, e nas curvas eu sentava a bota.
Na 2a ou 3a volta, ainda passeando, no momento me distanciando e prestes a acelerar forte para brincar no Laranjinha, pelo retrovisor vejo um lampejo de farol e em seguida escuto uma buzinadinha. Fiquei quieto na minha porque esse carro vinha lascado por fora, pela esquerda, e nessas me passa um Ferrari 430 que entra forte no Laranjinha com aquele V-8 roncando com uma saúde que era uma beleza. Seu traçado estava perfeito, fazendo as duas tangências da curva.
Não deu outra. Aí é que entrou o burro na parada. Falei pro Thiago: “Filha da mãe! Vou dar um suador nesse cara!”, e reduzi para 3a marcha e acelerei no talo. Que cara idiota, eu, achar que ia colar naquele Ferrari bem pilotado. Que cara idiota! E outra, o Thiago nem falou nada e de rabo de olho só o vi se ajeitando no banco, se preparando pra encrenca, sem falar nada e tudo bem com ele, porque me pareceu que já confiava na minha tocada e estava a fim do pega.
E agora, escrevendo de sangue frio, raciocino: vai ser burro assim lá adiante!
AK





