UM SALÃO, DOIS ENCONTROS

Foto: Autor

Como eu disse num comentário-resposta a um leitor sobre o post Um Fio de Esperança, estive esta semana em Genebra, na Suíça, visitando o 81° Salão do Automóvel daquela cidade (foto acima), e na Alemanha, revisitando a Volkswagen na sua cidade-sede, Wolfsburg, onde eu estive em 1994, portanto dezessete anos atrás.

Considero o Salão de Genebra mais charmoso de todos. É o primeiro europeu importante do ano, não é suntuoso demais e é anual, enquanto os de Paris e Frankfurt são bienais, anos pares o primeiro e anos ímpares, o segundo. Genebra este ano não foi pródigo em novidades, mas teve coisa interessante, como o  conceito Alfa Romeo 4C, de motor central, o VW Tiguan de segunda geração e novo Golf conversível. A Ferrari apresentou seu polêmico FF, um autêntico shooting brake de motor V-12 dianteiro e tração integral, que chamou muita atenção. A Audi mostrou seu conceito A3 sedã.

Mas os olhares se voltaram mesmo para algo inimaginável, uma nova leitura da Kombi, o Bulli. E, claro, o hoje comum exército de híbridos e elétricos, entre eles um Renault Fluence. Havia até uma pequena pista de teste para quem quisesse experimentar só-elétrico Nissan Leaf, enquanto lá dentro  a Opel mostrava o "Volt alemão", o Ampera.

Renault Fuence elétrico tendo as baterias recarregadas (foto do autor)

Um fato incrível foi a profusão de pintura fosca, nunca vi tanto carro fosco. Até o Alfa Romeo 4C tinha esse tipo de pintura, que pode ser também plástico aplicado.

Mas tive dois momentos pessoais gratificantes. Um deles foi me apresentar a Giorgetto Giugiaro, apertar-lhe a mão e expressar minha admiração por ele, dono e presidente da Italdesign-Giugiaro SpA, que em agosto passou para o controle do Grupo Volkswagen, em que passou a deter 90,1% das ações da firma italiana.

Giorgetto Giugiaro (foto ww2.uol.com.br)
Para mim foi especial pode dizer-lhe que acompanho sua brilhante trajetória há quarenta anos e que em 1978 li uma entrevista dele à revista Gente Motori na qual ele falava sobre o desenho dos automóveis em geral e que - nunca vou me esquecer - ele disse que começava a esboçar um novo carro pelos pedais. Seus olhos brilharam quando lembrei-lhe disso e ele disse "É vero! É vero!".

O segundo momento tocante foi eu ver caminhando num dos corredores em direção contrária à minha ninguém menos que Jackie Stewart, numa incrível repetiçào do que ocorrera três anos antes no mesmo local. Eu lhe disse "De novo, no mesmo lugar?". O escocês também ficou surpreso e eu,.mais uma vez, falei-lhe de uma ocasião no Rio de Janeiro, em 1977, quando ele ao volante de um Passat, um repórter do jornal O Globo ao seu lado e eu, no banco traseiro, saímos em meio ao trânsito carioca para que ele fosse dando sua opinião sobre o que via e sentia.

Na matéria de duas páginas inteiras ele comentou as barbaridades que viu, especialmente dos ônibus e suas mudanças de faixa sem o menor sentido, mas também criticou o comportamento alucinado de certos motoristas de automóvel. E, no salão,  dia 1° de março agora, ele se despediu dizendo "muito obrigado", em português.

Foi desagradável e preocupante saber no dia seguinte que no voo de Genebra a Londres Jackie, de 71 anos, sentiu-se mal, com fortes dores no peito, chegando a desmaiar. Teve o primeiro atendimento pelos comissários de bordo e ao desembarcar foi levado para um hospital, onde após exames nada de mais sério, como um infarto, foi constatado. De lá seguiu para sua residência para repouso. É torcer para que tenha sido apenas um mal-estar passageiro.

Jackie Stewart, numa foto recente (eurosport.com)
Do escocês três vezes campeão do mundo guardo duas lições preciosas de pilotagem  contidas em sua autobiografia "Winning is not enough" (Vencer não basta). Uma, a de que quando um piloto diz que a marcha não entrou e rodou, iria rodar do mesmo jeito, pois estava rápido demais. Outra, e essa considero a melhor de todas, é que quando um piloto está à vontade no seu carro, com a mão nele, o cenário passa por ele em câmera lenta, mesmo que seja numa volta super-rápida de classificação. Ao contrário, quando piloto está mal consigo mesmo e com o carro, é com se fosse a imagem da câmera rápida. É exatamente o que acontece.

Só esse dois breves encontros no Salão de Genebra valeram a viagem, da qual há muito mais a contar nos próximos dias.

BS

17 comentários :

  1. Não podemos deixar de considerar a presença do Giugiaro em seu encontro de 1977 com o Jackie Stewart. Afinal, o Passat foi um dos grandes designs do mestre italiano (ainda que em termos de projetos "de massa", inferior ao inspiradíssimo Uno).

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  2. Particularmente tocante o encontro com o mestre Giugiaro. Por alguns instantes me coloquei em seu lugar e fiquei emocionado. Grande Bob, grande Giorgetto.

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  3. Bob Sharp em seu momento tiete.


    Brincadeiras a parte, que viagem sensacional! Encontrar Giugiaro e Jackie Stewart e ser gentilmente atendido é qualquer coisa de espetacular.

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  4. esse é um daqueles posts que me fazem abrir um sorriso. que memória o senhor tem, Bob!

    e já que mais posts sobre Genebra estão a caminho (oba!), aguardo suas impressões sobre o protótipo Saab Phoenix apresentado por lá...

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  5. Alexei Silveira05/03/11 19:09

    Muito bem ,Bob.

    Salão a gente vê , mas essas pessoas, do modo como foram descritas, é raro.

    Admiro muito o Stewart, um dos melhores do mundo,se não o melhor. Não o vi pilotar ao vivo, como vi Fangio, mas o cara deve andar uma barbaridade.

    Em câmera lenta, o tempo todo, com todos os carros e com as suas espingardas de 2 canos .....

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  6. Bob.

    Sobre essa sensação de camera rápida e camera lenta, o que diz faz muito sentido.

    Tenho vivenciado um trecho sinuso repetidamente e percebo quando os olhos começam a absorver o movimentos periféricos com mais facilidade que antes e os reflexos mais rápido que o normal.

    Esse climax só acontece depois de uma hora e persite até o final da jornada uma hora e meia depois.

    Pude comprovar também em um erro leve na redução de velocidade, que o freio motor foi dispensável na situação de emergência para o contorno da curva. Uma idéia que a muito vinha teimando.

    Obrigado e um abraço.

    Rafael Aun

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  7. Bob, que maravilha de post! Ou melhor, de encontros.

    Ênfase para o penúltimo parágrafo, vou buscar este livro.

    Penso que não existe um piloto em que a "câmera não varia" de acordo com o seu dia, por melhor que ele seja.

    Aguardamos ansiosos por mais.

    Abs

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  8. Bob, que sonho, encontrar Jack Stewart e Giugiaro no mesmo dia e no mesmo lugar deve ser demais.

    Ah, e tenho uma pergunta lhe fazer, mas o resto do pessoal também pode responde-la. Estou no 3º ano de ensino médio, ou 2º grau como alguns conhecem, e é ano de prestar Enem e vestibular. E estou querendo fazer engenharia mecânica na Ufrgs. Eu sei que o curso de engenharia civil la é o melhor do país, mas alguém sabe o nível da engenharia mecânica de la? Não sei se você conhece a faculdade ou tem alguma referência sobre ela, mas não quero ter que sair do RS para estudar.

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  9. Rafael Krauss06/03/11 03:43

    INVEJA!!!
    Dois personagens incríveis em um lugar de novas maravilhas!

    Você merece Bob.
    Parabéns!!!

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  10. O mal estar de Sir Stewart foi devido a emoção de ter te encontrado.
    Brincadeira à parte, só os dois encontros valeriam minha viagem.

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  11. Bob,

    apenas vou repetir um comentário seu de outra ocasião: Horas de voo !

    Você, Giugiaro e Stewart as tem de sobra. Delícia de post.

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  12. Ô inveja!!!!

    Sou fã do Jackie, além de grande piloto parece ser uma pessoa bem acessível.

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  13. Dores fortes no peito, seguidas de desmaio (síncope), em um homem de 71 anos, aparentemente sedentário, se não foi infarto foi uma crise de angina séria.
    Abra o olho mr. Stewart!

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  14. Lucura! máquinas voadoras causam até coisa pior!

    boa sorte!!

    Portal Meio Aéreo

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  15. Rômulo Rostand06/03/11 22:02

    Bob Sharp,
    Que bom que a viagem foi mesmo gratificante para você. Estou certo que também receberemos alguns presentes em forma de texto.
    Aguardaremos ansiosos.
    Falando nisso, o Paulo Keller também foi ao Salão?
    Se foi, vamos ser duplamente presenteados. Auto Entusiastas é mesmo tudo de bom! Abraço

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  16. Você merece Bob!
    Também fico feliz por eles terem encontrado um fã conhecedor e atencioso com a história automobilistica.

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  17. BS,

    Por estas e outras que cada dia que passa mais admiro o seu trabalho. Poucos jornalistas brasileiros possuem a sua experiência.
    E espero ansioso pelo seu livro.

    Forte abraço!

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