DON GARLITS - MUSEU DE DRAGSTERS E DE CARROS CLÁSSICOS

Fotos: autor.


Há algumas semanas, escrevemos um pouco sobre o piloto Don Garlits. Para quem não viu, o texto está nesse link.
Os muitos carros que estão no museu dificilmente podem ser descritos em sua totalidade, tanto pela quantidade, cerca de 100, quanto pelas inúmeras histórias de cada um, pois são tanto de Garlits como de outros pilotos que doaram ou emprestaram seus carros para exposição.

Um ponto ruim é a cordinha de isolamento que existe ao redor dos carros, e que atrapalha muito as fotos. De qualquer forma, é necessário visitar o endereço do museu na internet, e lá pode-se ver fotos bem melhores do que as que eu tirei. Um exemplo de como é importante ver o site, é a página  do Swamp Rat 12A, uma foto do carro em um evento onde o motor foi ligado, com som.

Além dos normais dragsters com motor à frente e depois, atrás do piloto, há modelos que foram feitos para andar em Bonneville, totalmente fechados com carenagens aerodinâmicas, outros com vários formatos que mostram a tentativa de ganhar sempre décimos de segundo e mais tração com a ajuda da aerodinâmica.

Detalhar todos eles é algo que vem sendo feito em livros através do tempo. Minha sugestão é o último livro do próprio Don, intitulado “Don Garlits and His Cars”, onde ele conta sua história de vida através da sequência de carros de rua e de pista que comprou, construiu e modificou.

O livro está a venda na loja do museu, e infelizmente, não é possível comprá-lo pela internet. Mas um telefonema ou fax resolve o caso.

Mais interessante ainda é ver que surgiu naturalmente a ideia de montar um museu para contar essa impressionante saga dos carros de arrancada, que apareceram ainda antes dos hot rods, já que podemos ver um carro de 1941 que não era de Garlits, apelidado de The Bug (O inseto). Construído durante a Segunda Guerra Mundial, é apenas um chassis com motor, transmissão, freios e direção. Leva um banco que mais parece uma cadeira, e tem um cinto de segurança para o piloto não cair. A ficha técnica está na foto.


O primeiro carro de Garlits foi feito em 1954, e utilizou dois chassis de Ford modelo T. O motor também é Ford, um velho Flathead, que alcançou 173 km/h em sua melhor passagem. Notem que nada existe além do básico para fazer um carro andar.


Depois de muitas provas, esse carro foi alterado e aproveitando o apelido jocoso de “rato do pântano” , dado pelos pilotos da Califórnia, Garlits aproveitou para batizar seus carros com esse nome, mostrando que muitas vezes as críticas podem levar ao sucesso.

A cultura da preservação para ensinar os que vêm depois está viva nesse museu. O primeiro dragster, depois o Swap Rat I e mais vários outros, foram refeitos a partir das peças que sobraram, e de outras idênticas adquiridas apenas para que fossem recriados para o museu.

Um interessante modelo que não é de Garlits é o Bustle Bomb, um bimotor com um motor Oldsmobile na frente e um Cadillac na traseira, ambos girando um mesmo diferencial para a tração traseira.


Outros bimotores estão lá, como o Dill Pickle, com dois Oldsmobile Rocket, montados em um chassis “verde pickles”, lindíssimo.


Mas o mais caprichado mesmo é o carro de Tommy Ivo, o popular TV. O carro tem dois motores Buick em paralelo, é bastante curto e tem um acabamento que nem parece de carro de arrancada.


O Golden Gator é um carro de 1976, com compressor, como quase todo dragster, e mais dois turbocompressores, tudo montado em um Chrysler Hemi 426. A instalação é um tanto quanto complicada, com tubos em profusão. Notem as tampas dos escapamentos das turbinas, para evitar que itens estranhos caiam dentro: são pistões !


A cada carro que paramos para olhar, vemos mais uma porção de fotos, cartazes, peças e prêmios para contar a história. Dessa forma, a quantidade de itens a serem vistos é enorme, nem me atrevi a contar, mas imaginando uns 10 em média para cada carro, com cerca de 100 carros, teríamos 1.000 coisas para olhar e analisar.

Vejam por exemplo, o armário com pistões que aparece abaixo. Há os furados, derretidos, fundidos, entortados. Prato completo para quem gosta de encrenca séria.


Claro, então, que é um passeio que não pode ser feito em duas ou três horas. Como bem disse meu sogro depois de 20 minutos lá dentro: "Caramba! precisava ficar o dia todo aqui“.

O Swamp Rat 24 é o carro mais vitorioso entre toda a série dos ratos. Em dois anos de uso, ganhou vinte e quatro provas das trinta em que participou, faturando US$ 606.000 em prêmios. Ao lado dele, algumas peças destruídas em um das quatro provas que não venceu: um blower e a carcaça da embreagem, além do volante do motor com os prisioneiros tortos.


O SR28 é um carro com turbina a gás, mais uma das experiências de Don, que, se não foi tão rápido como se pode imaginar, tem o mérito de ter sido embarcado em um porta-aviões da marinha para fotos publicitárias visando recrutar jovens para o serviço naquela arma. A turbina General Electric J85 utiliza uma transmissão de helicóptero para tracionar as rodas, e tem cerca de 2.100 cv com injeção de álcool.


Depois de dezenas de carros, encontra-se a sala de motores, onde passamos em poucos metros, de um Ford 1937 de 60 hp, ao Chrysler Hemi de 2003, o motor do Swamp Rat 34, o último, com 8.000 hp.


É de passar mal, de tanta coisa bacana junto. São centenas de componentes junto aos motores, como transmissões, cabeçotes, coletores, escapamentos, tampas de válvulas, motores em corte, uma seção de cabeçote hemisférico de um DeSoto, um universo incrível dentro de uma sala. Sem dúvida, aqui senti falta do Alexandre Garcia para fazer um tour informativo, e entender tudo de mais importante dos corações dos dragsters e hot rods.


Não bastando tudo que já tinha vivenciado, tendo essa oportunidade que até hoje não acredito, saio do edifício e me dirijo ao outro, ao norte, onde estão os carros antigos e outros itens de décadas passadas. Esse prédio é o que está na orientação leste-oeste na foto abaixo, tirada do Google Maps. Apenas como curiosidade, a residência de Don Garlits está à direita da foto, no mesmo terreno onde está o museu, entre árvores.


Nessa edificação, mais algumas dezenas de carros tanto de Garlits como de amigos colecionadores. De tudo que lá vi, não posso deixar de apontar o meu favorito, um Plymouth Superbird 1970, que está emprestado ao museu.


Curiosa é a sirene de aviso de bombardeio, movida por um motor Chryler estacionário, de geradores, e que era montada nos edifícios mais altos das grandes cidades americanas. Nunca foram usadas a sério, e serviriram para alertar a população de aviões russos chegando ao território americano. Pavores da Guerra Fria.


Um chassis de Ford 1937, completo com suspensões, tanque, trem de força, direção, rodas, pneus e freios , está em impecável condição, e permiter ver todos os detalhes que só quem já mexeu com esses carros conhece. Eu nunca havia visto nada igual, e tirei várias fotos para registrar.



Impossível escrever sobre tudo que há no museu sem esquecer de algo. Eu sugiro fortemente que, em se estando na Flórida por qualquer motivo, ou de passagem pela região, se vá até a cidade de Ocala para ver tudo de perto. É passeio da melhor qualidade para entusiastas, e curioso para qualquer pessoa com um mínimo de senso histórico.

Don Garlits resume sua carreira com uma frase de total entusiasmo pelos automóveis: “I did it with my cars. I love working on cars” (Eu fiz isso com meus carros. Eu amo trabalhar em carros)

Essa declaração é básica para qualquer pessoa que ganhe a vida trabalhando com automóveis, e gostaríamos que isso fosse lembrado por todos que tem um emprego devido à existência dos carros. O mundo seria bem melhor.


JJ



20 comentários :

  1. Só podemos (humilhados) aplaudir a exclencia na preservação da história (qualquer uma delas, pouco importando se automobilistica ou de uma prosaica coleção particular de insetos) Chega a chocar a quantidade de museus que proliferam pelo primeiro mundo. Por aqui, parece piada. Por aqui, conheço o do Paulo Trevisan em Passo Fundo, tive o privilégio - único- de andar em Guaporé com algumas de suas jóias raras, e sou definitivamente agradecido pelo convite. Um passeio que recomendo ao verdadeiro entusiasta, que queira conhecer e/ou reencontrar algumas das lendas de nosso automobilismo de compatiçao.
    Em terris brasilis, é o mais próximo que temos perto desse aí. Mais um ítem em minha interminável lista de locais a conhecer.
    Que coisa Juvenal... :)

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  2. Esses americanos têm um gosto meio bobo, ainda bem que os macacos daqui não copiam isso.

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  3. regi nat rock,
    pois é, uma coisa incrível mesmo. Só vendo de perto para acreditar.

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  4. Anônimo,
    gosto não se discute, lamenta-se.

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  5. Este belo acervo ajuda a ilustrar porque certos países fazem acontecer, enquanto outros copiam...e copiam...e ainda se lamentam por não terem chegado lá.
    Ter a chance de observar e absorver uma pequena parte do conhecimento gerado por homens brilhantes e criativos é uma oportunidade que jamais poderia ser desperdiçada...A história é única, nos ensina e nos inspira para o futuro!
    Realmente foi uma postagem muito prazerosa, colega Juvenal, parabéns.

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  6. Anônimo das 10:38,
    poderia ser pior: já pensou se eles gostassem de drift?

    Renato

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  7. Parabéns mesmo JJ, belo post!
    Aquela sirene é de arrepiar! E o motor do Golden Gator? O que é aquilo? Que doidera!
    Quanto ao último parágrafo, não sei se o mundo seria bem melhor, mas penso que trabalhando com carros ou não, as pessoas deviam valorizar mais o que põe o pão na mesa! Inclusive eu.
    Abs

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  8. Realmente por mais "excentricos que sejam" o Norteamericano e referencia em preservacao de sua historia e memoria: temos muito a aprender com eles...
    Poderiamos ter aqui belos museus contantdo um pouco de nossa historia de engenhosidade criativa em modelos de competicao como: (Carreteras, KGuia Porsche, Maverick Berta , e o incrivel Carcara) so para citar alguns..
    Infelizmente o que vivenciamos e o descaso e falta de respeito a nossa memoria e cultura : como exemplo cito o melancolico fim do museu Ulbra..
    Ha porem grandes autoentusiastas que heroicamente e com seus proprios recursos tentam preservar e difundir nossa historia automobilistica. Como o Sr Paulo Trevisan ; o Sr Roberto Nasser ; entre outros ...
    Alias sugiro a vcs uma materia sobre o museu do Automobilismo Brasileiro em Passo Fundo -RS onde ha um bocado de cultura e autos interessantes a serem mostrados...
    Acho tbm que a preservacao de nossa cultura automotiva depende um pouco de cada um de nos : qtos de nos ja falaram para seus filhos sobre os carros do passado? ; qto de nos ja os incentivaram a ler e pesquisar sobre o assunto? ; qtos de nos ja os levaram a um autodromo? ; qtos de nos ja pensaram ou concretizaram o sonho de restaurar um carro antigo .
    Ta ai , pense nisso vc tbm !

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  9. Soares,
    lá em casa meu pequeno tem montes de carrinhos, e sempre que eu consigo, conto estórias de carros que eu e a patroa tivemos. Além é claro, dos livros e revistas. Ele vai crescer mais, e espero, se interessar de forma mais forte. Já disse a ele que minha coleção automotiva será dele um dia.

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Não querendo comparar, mas aqui no Brasil também existem pilotos de arrancada que se tornaram lendas por causa de sua engenhosidade e paixão pelo automobilismo. Apenas para citar um pequeno exemplo, o Scort corre com o mesmo Opala há décadas, sendo que hoje é um dos carros de arrancada mais conhecidos - se não for o mais conhecido - e emblemáticos das pistas brasileiras.
    Com certeza isso não dará assunto para um post, mas para uma coleção de livros do tamanho da Enciclopédia Britannica.

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  12. JJ,

    Sensaconal, um passeio que pretendo fazer um dia, de preferencia muito breve!

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  13. JJ, ótimo post! Dá uma inveja danada desses países em que o povo tem consciência que deve preservar a sua memória... esse museu deve ser coisa para duas visitas.

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  14. Excelente post, é de passar mal mesmo! Entrou para a lista dos lugares a visitar na vida. Só precisa ter um bom shopping center por perto, pra patroa passar o dia... eheheheh

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  15. Primeiramente, não há como dizer que o post está sensacional. Muito, mas muito bom mesmo!!! Estou aqui tendo arrepios ao ver um carro produzido durante a II grande guerra, um legítimo Flat Ford de 40's. Muito, mas muito legal mesmo esse post.

    Falando sobre nosso colega Soares acima, fico muito triste com o fim do museu da Ulbra. Para homens de negócios, uma grande jogada ao vender as raridades do museu. Para entusiastas, uma perda lamentável... saber que nunca mais entrarei num museu daquele nível.

    Obrigado pela dica, logo estarei indo à Passo Fundo para ver o museu.

    Um abraço.
    GiovanniF.

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  16. Não sou fã de arrancadas, mas é notável a noção que o estadunidense tem de preservar sua história!

    Juvenal Jorge, só uma sugestão: o link contido na primeira frase de seu artigo está apontando para "http://aqui./". Dê uma olhada nisso depois.

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  17. Parabéns!!!!Belas fotos Juvenal!!

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  18. Belíssimo Museu do Big Daddy,pretendo fazer uma visita

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  19. Os Mestres do AE poderiam fazer um roteiro de museus na área da Flórida, pois enquanto a maioria das patrôas levam as crias aos parques de diversões, nós iríamos contaminar a mente com gasolina e graxa em parques muito melhores...

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