google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 AUTOentusiastas Classic (2008-2014)
AUTOENTUSIASMO NÃO TEM IDADE

Por Fabrício Samahá

A expressão "nasceu com gasolina nas veias" aplica-se bem a casos como o meu. Conta a família que, com dois anos de idade, apontei um carro na estrada — vindo no sentido oposto ao do nosso — e disse, de chupeta na boca, que seria o então recém-lançado Fiat 147. Argumentaram que não, que talvez fosse um Corcel ou outro modelo, até que o pequeno automóvel feito em Betim passou por nós e eu, satisfeito, alfinetei: "Viu? Era o Fiat mesmo".

Na infância, acompanhava com interesse os lançamentos, visitando concessionárias para os conhecer e para obter catálogos de divulgação. Aos sete anos passei a ler revistas de automóvel, mês após mês. Sempre gostei de escrever — sobressaía pelas redações nas aulas de Português — e, com 10, decidi "lançar" a própria publicação. Uma máquina de escrever (computadores pessoais eram raridade na época), fotos recortadas de revistas, algumas opiniões sobre os carros e... estava pronto em setembro de 1985 o número 1 do jornal de uma só página, ao qual se seguiram dezenas de outras edições, cada vez maiores.

Em fevereiro de 1988 o jornal evoluía para a revista Auto Magazine, com 80 a 120 páginas mensais. O texto era feito do ponto de vista do garoto de 12 anos, mas com muito capricho na redação e na diagramação, fichas técnicas e opiniões embasadas no que as revistas e jornais mais conceituados haviam publicado. Como ainda era redigida à máquina, saía em exemplar único, então emprestado aos amigos e parentes. Naturalmente, da mesada não sobrava muito após comprar dois exemplares das principais revistas do gênero — um para guardar, outro para recortar as imagens.

O primeiro computador veio dois anos depois e a revista, renomeada Top Speed, ganhou uma pequena tiragem. Como mantive o processo de recortar e colar fotos de revistas no papel, só um exemplar podia tê-las. Assim, a tiragem não cresceu muito: os amigos preferiam o "exemplar especial" ilustrado. Contudo, aos 15-16 anos já não havia tempo suficiente a dedicar à revista, cuja última edição saiu no fim de 1991. Logo naquele momento em que o mercado, aberto aos importados, estava tão mais interessante que o de 1985!

Se o entusiasmo pelos carros só aumentou com a aguardada obtenção da habilitação e a compra do primeiro automóvel, o lado jornalista ficou um pouco acomodado. Até que um dia, já no quarto ano da faculdade de Direito, fui convidado pelo Bob Sharp e pelo Fernando Calmon a colaborar com a revista Autoesporte. Eu os conhecera meses antes, em visita à Redação, e não poderia ter deixado de lhes mostrar as revistas artesanais do tempo de garoto, que fizeram sucesso.

A primeira matéria para Autoesporte saiu em dezembro de 1996. No ano seguinte, com acesso à internet, decidi retomar a ideia de uma produção própria, que me desse plena liberdade de pauta e de opinião. A plataforma para esse espaço seria a rede mundial de computadores, que ainda engatinhava.

Nascia então em 22 de outubro de 1997 o Best Cars Web Site, cujo formato inicial se parecia com o dos blogs de hoje. O êxito do site me surpreendeu e em pouco tempo aquela se tornava minha atividade de tempo integral, mesmo que os "frilas" continuassem necessários, pois a receita com o site foi modesta nos primeiros anos.

Hoje, após quase 12 anos de Best Cars, colho os frutos daquela semente plantada ainda garoto, daquela paixão por automóvel e pelo jornalismo desde muito jovem. Reuni no site uma equipe de aficionados pelo assunto, que se empenham em fazê-lo completo em conteúdo e preciso na informação. Quem visita o Best Cars percebe de imediato que passa gasolina pelas veias de quem o escreve, o que traz imediata empatia.

Meus cumprimentos aos amigos do AutoEntusiastas pelo primeiro aniversário de seu agradável e interessante espaço. E que o delicioso vírus da paixão por automóvel permaneça para sempre nos corações de todos nós!


Fabrício Samahá é editor do Best Cars (www.bestcars.com.br)

Da revista Veja de 2 de janeiro de 1980 numa retrospectiva de 1979.

O Gol recém-lançado foi dado como um fracasso devido ao seu motor 1.3.

Quem diria...
E a Fiat arrojada desde sempre, líder de mercado.


Outro lugar que visitamos foi o evento de carros antigos de corrida, o Monterey Historics que acontece em Laguna Seca, perto de Monterey na Califórnia. O autódromo é tomado por mais de 300 carros clássicos, onde se encontra de tudo, desde carros do pré-guerra até protótipos de Le Mans dos anos 90.

A organização do evento é impressionante, na estrada há placas de indicação do caminho para o evento, com separação de cada tipo de acesso (visitantes e participantes) para evitar trânsitos desnecessários, o que na verdade não resolveu muito pois eram muitos os carros e a estradinha que leva a Laguna Seca é pista simples na sua maioria. No estacionamento do evento já vemos diversos Lotus, Corvettes (realmente comuns por lá), Ferraris e Lamborghinis. O autódromo é bem interessante, pois o acesso aos paddocks é direto, basta atravessar a ponte que passa por cima do fim do retão. É possível dar a volta na pista toda por ruas que beiram o traçado.

Ford GT40 da Equipe Fittipaldi

Ferraris Testa Rossa de alguns milhões de dólares

Logo cedo acontecem os treinos, e durante toda a manhã os carros das categorias que correrão no dia (são separadas entre sábado e domingo por conta da grande quantidade de carros em diversas categorias). Durante a tarde, acontecem as provas, todas com dez voltas de duração, independente da categoria.

O paddock, que na verdade é um grande espaço aberto onde ficam todos os carros e caminhões das equipes, não segue uma ordem muito lógica, pois lado a lado estão carros de épocas totalmente diferentes, o que é um charme a mais, ao meu ver. Onde mais poderíamos ver um Alfa GTA sendo preparado ao lado de um Bentley Blower, ou um Porsche 935 ao lado de um ERA pré-guerra?

Porsche 917k

Disputas pra valer, sem aliviar!

Como na maioria dos eventos que fomos, o acesso é livre. Não há cordão de isolamento, salvo os boxes e pit-lane, e todos os participantes são muito simpáticos e receptivos. Conversamos com diversas pessoas das equipes, que respondem todas as dúvidas sobre os carros, bem diferente daqui, onde geralmente mal se pode olhar os carros de perto. Além de receptivos, todos são bem humorados. Durante as corridas, por diversas vezes os anúncios no sistema de som do autódromo faziam brincadeiras com os participantes. Uma das melhores do dia foi "Senhor Valentino Balboni, por favor retire seu Lamborghini azul e branco do local ou ele será guinchado", fazendo uma brincadeira com o famoso piloto de testes da Lamborghini que estava presente, com um dos novos Gallardo LP 550-2 que leva seu nome em uma série especial.

As corridas em si são um ponto fora da realidade. Não importa a categoria, andar devagar e com cuidado não está no roteiro. Desde os carros dos anos 20 até os mais modernos, acelerar era a ordem do dia. É difícil descrever como é ver uma corrida dessas, pois ficamos imaginando como seria no passado, quando os carros eram as máquinas do momento.

Nomes conhecidos pilotavam carros históricos, como Derek Bell e David Donohue. Mas o impressionante foi um certo senhor, com seus 80 anos de idade, acelerando um Lola Mk-1. Um tal de Moss, que andava pelo paddock, muito bem humorado, com seus óculos de aviador, capacete coquinho e suspensórios (de época).

Sir Stirling Moss e seu Lola

Porsche 962C

A largada da categoria dos protótipos dos anos 70 foi algo que não sairá da mente de muitos por muito tempo, minha inclusive. Porsches 917s, 910s, 908s, Alfa 33-2, Ferrari 512S e outros largaram como se fosse uma prova do Campeonato de Marcas dos anos 70. O Paraíso deve fazer esse som. Quero voltar lá, várias vezes...

Nada mais lindo do que isso.

BMW Batmobile CSL

Mais informações no site do evento:
Rolex Monterey Historics
Quando ocorreu a Revolução Industrial, a Inglaterra viu surgir um movimento contrário à modernidade tecnológica, que enxergava problemas a curto, médio e longo prazo. Movimento liderado por Ned Ludd, cujos seguidores eram conhecido por luditas. A confusão foi grande, e não é assunto para nosso blog.
Não que eu seja um neo-ludita, mas algumas coisas modernas me incomodam.
A idéia de qualquer-coisa-by-wire é uma delas.

Surgido na aviação militar, com o General Dynamics F-16, e depois na comercial, nos Airbus, os comandos por fios para componentes mecânicos me arrepiam. Não tudo, claro, pois um vidro elétrico, ou um retrovisor não assustam ninguém. Mas os nerds estão querendo mexer em coisa séria, sistemas que comandam itens de segurança. Notadamente freios e direção.

Só de imaginar o quanto de matéria-prima que se economiza ao retirar de um carro uma coluna de direção, já deixa os financistas das fábricas salivando. E obviamente, eles apoiam essas novidades. As vantagem são grandes. Menos componentes pesados, substituídos por fios e conectores, servo-motores e uma central eletrônica.

Desvantagem principais: a confiabilidade deve ser absoluta. Poderia-se até parar por aqui com esse assunto, concluindo que engenheiros servem para isso mesmo, fazer coisas que funcionem e não quebrem. Mas a vida não é tão simples e bela.
Qualquer peça com um mínimo de complexidade tem muita gente e processos envolvidos, e sempre - vejam bem, sempre - existe a possibilidade de algo sair errado.

Pioneira na aplicação do ABS, a Mercedes-Benz manteve a tradição de inovar nessa área e utilizou o brake-by-wire da Bosch nos classe SL desde 2001, classe E no ano seguinte e no CLS, além do McLaren-Mercedes SLR. Após dois recalls que afetararam cerca de 2 milhões de carros em todo mundo, o sistema Sensotronic foi descontinuado em 2006. Esse sistema possui uma linha hidráulica de segurança, sem assistência de um servo, e segundo a fábrica, o risco de acidente era mínimo.
O motivo dos problemas eram bolhas no acumulador de alta pressão e também falhas no software, ou seja no programa de comando de trabalho. A consequência era apenas e tão somente freio off-line, como naquelas vezes em que nosso computador da empresa cai fora da rede e nos deixa com as calças na mão.
Bom, vamos lá. Um sistema de computador, fios, conectores, sensores de velocidade das rodas, motores elétricos, trabalhando também com um programa de ABS, mais um sistema hidráulico de segurança. Simples, não ?

Ironias a parte, em 2007 foi apresentado o sistema de freio criado pela Siemens VDO (Continental atualmente) chamado de EWB - Electronic Wedge Brake (freio eletrônico por cunha), que está ilustrado abaixo. A intenção é que entre em aplicação comercial já em 2010.


Simples imaginar que o grande desafio é ter certeza que o motor elétrico, que gira um eixo que empurra uma cunha, vai funcionar SEMPRE. E que o programa de computador que comanda a velocidade e força com que esse motor gira e empurra, vai estar perfeito, sem os famosos "bugs", que podem ser explicados como buracos ou incertezas no programa. E agora com o atrativo de frear em menos distância, 15% menos sobre gelo, por exemplo.

Não dá mesmo para acreditar. Depois de uma tentativa que não deu certo, na época em que os Mercedes tiveram o ponto mais baixo de satisfação com a qualidade, a direção da empresa corajosamente resolveu mudar, e determinaram a retirada de muitos itens e funções eletrônicas de seus modelos, divulgado na época como cerca de 600 delas. As reclamações diminuíram, e a qualidade voltou a melhorar.
E se volta a insistir com soluções mirabolantes para freios, e a mesma coisa para sistema de direção também vem por aí.

Devo estar ficando velho.

JJ