google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 AUTOentusiastas Classic (2008-2014)
O ENTUSIASMO

Por José Luiz Vieira

Quando eu tinha meus três, quatro anos de idade, costumava sentar na cama girando uma bandeja como se fosse um volante de direção e imitando barulhos de ônibus, fazendo de conta que estava parando para receber passageiros, minha mãe entre eles. Dona Eurydice tinha de ficar sentada atrás de mim por tempos absurdamente longos. Aos oito anos, deixava meu pai na dúvida se eu estava sendo sincero ou não, ao dizer qual era a marca e o ano dos carros que passavam em frente de casa, na Vila Clementino.

Não tínhamos carro naquela época, meu pai não sabia dirigir e não se interessava por automóveis, mas um dia meu tio Mário, que tinha um Buick 1940 a gasogênio e um Lincoln Zephyr V-12 a gasolina (racionadíssima) que saía uma vez por mês só para não ficar permanentemente parado, garantiu a meu pai que eu ia ser motorista.

Como esquecer aquele Zephyr verde, de estofamento caramelo e imenso rádio a válvulas no centro do painel? Como esquecer a primeira vez que o dirigi, com imensos trancos de embreagem na primeira marcha? Como esquecer depois dele um Chevrolet 1941 de câmbio a vácuo, um Ford 1936 conversível, um Mercury 1942 sem para-choques cromados, um Opel Käpitan 1937 e finalmente um Buick 1941 cupê Super de dupla carburação?

Com o fim da Guerra e a volta da gasolina, dirigir com um certo medo um Ford Prefect, alto e estreitíssimo, que parecia que ia tombar em qualquer curva um pouco mais rápida, um Chevrolet 1946 da repartição em que meu pai trabalhava e que seu motorista saia comigo para ajudar a me treinar ao volante, depois um Mercury 1948e um Buick Super do mesmo ano. Finalmente, um Buick Roadmaster Dynaflow, com que rodei bem mais de 20 mil quilômetros.

Daí para diante, em muitos países, tive a imensa sorte de não parar mais de dirigir carros velhos (às vezes são ótimos), antigos (museus, coleções), usados e novos, alguns deles mulas de engenharia que somente seriam lançados bem mais tarde (e que aí, sim, seriam ótimos). Sem dúvida, a vida tem sido deliciosa – em boa parte por causa deles.

Entusiasmo, como tantas outras faces da psique de cada um, não se explica – sente-se. Ter entusiasmo pelo automóvel não é nada estranho – acontece com quase qualquer jovem, muito antes mesmo dele ter idade para dirigir. Manter esse entusiasmo, pela vida afora, pelo carro ou por qualquer outra coisa, já não é assim tão comum, mas quem o faz leva uma enorme vantagem sobre aqueles que, ao se tornarem maiores de idade, maduros, interessados apenas em 'coisas mais sérias', perdem esta beleza de muleta psicológica.

Nos últimos quinze dias, eu, Bill Egan e nosso amigo Fernando saímos para uma das principais peregrinações que um entusiasta pode fazer pelos Estados Unidos. Passamos por diversos eventos, museus e oficinas da Costa Oeste.

Mas quais eventos? O Concurso de Elegância de Pebble Beach, o principal encontro de carros antigos do mundo, o evento no autódromo de Laguna Seca chamado Monterey Historics, onde carros antigos de corrida participam de provas de dez voltas (sim, corrida pra valer, não passeio), o Concurso Italiano de Monterey e as corridas do Speedweek no deserto de Bonneville.

Como é muita informação para um post só, vou dividir em diversos posts. Neste aqui vai algumas fotos e fatos de alguns dos museus que fomos. Começando pelo Harrah's Auto Collection de Las Vegas. O museu fica dentro do cassino de mesmo nome, e é uma das maiores coleções do país. Carros de diversas épocas, de corrida e especiais estão expostos em grandes corredores. Detalhe: praticamente todos os carros expostos estão a venda, com o preço marcado na placa de identificação do carro. Estavam os três Alfa Romeo BATs (dos poucos carros que não estavam a venda), a dupla Gulf Team com o Gulf GT40 Mirage Coupe e um Mirage GR8, Bizzarrinis, Maybach pré-guerra, Mercedes-Benz SSK, Talbots e Delahayes, entre outros.

Gulf Mirage GR8 e Gulf GT40 Mirage Coupe

Bizzarrini Spider e Coupe

Porsche 935LM

Maybach


Outro museu que visitamos foi o Blackhawk Museum, em Danville na Califórnia. Relacionado ao grupo que comanda o Auto Collection, o Blackhawk tem um acervo bem menor, mas é mais focado a carros especiais, principalmente carros do pré-guerra com carrocerias de fabricação especiais encomendadas pelos compradores. Os carros expostos são sensacionais, e mostram como eram feitos os verdadeiros carros de elite do passado, sem economias nem limites. A média de valor dos carros é alta, acima dos US$ 500.000,00, e com exemplar de US$ 7 milhões de um Hispano-Suiza com carroceria de madeira, fabricado por uma empresa de aviação. Também estavam expostos novamente os três BATs, um Mercedes 540K Special, Bugatti T50 Profile, um Mazda Cosmo, os conceitos Dodge Fire Arrow, entre outros. Curiosamente no dia que fomos ao Blackhawk, um evento de hot rods estava sendo feito em frente ao museu.



Mazda Cosmo, Ford T-Bird "E" Series e Jaguar E-type, ao fundo os Dodge Fire Arrow Ghia

Cadillac V16 Hartmann

Hispano-Suiza H6C Tulip Wood Torpedo

Alfa Romeo BAT5, BAT7 e BAT9d

O acervo é rotativo entre os museus do grupo, por isso alguns carros foram vistos no dois lugares. Não dá para colocar todas as fotos que eu gostaria aqui, infelizmente, então agora vão algumas mais interessantes dos carros.

Mais relatos em breve!

Saiba mais sobre os museus pelos links:
Blackhawk Auto Museum
Harrah's Imperial Collection

Uma frase de Ernest Hemingway:

"A corrida de automóveis, as touradas e o alpinismo são os únicos esportes verdadeiros... todos os demais não passam de jogos."

Que belo dia para Rubens Barrichello.

Nota: quanto às touradas, só posso dizer que são lamentáveis.

JJ



Em 1962, eu e meu irmão Ronald fazíamos o curso Construção de Máquinas e Motores na Escola Técnica Nacional, atual Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, no bairro do Maracanã, no Rio de Janeiro. Era um curso inaugural e destinado ao que haviam concluído o Segundo Grau. Era noturno e intensivo, sem férias, em dois anos.

Com 20 e 22 anos, respectivamente, vivíamos o entusiasmo pelo DKW-Vemag. Víamos, com desgosto, a marca ser derrotada nas pistas pelo Willys Interlagos, que tinha motor de mesma cilindrada (1 litro), mas pelo menos 200 kg mais leve e com uma fração da área frontal do sedã DKW. Era covardia.

Resolvemos desenhar uma carroceria tipo grã-turismo para DKW e procuramos a Carrocerias Metropolitana, fabricante de carrocerias de ônibus, através de um tio que conhecia um dos sócios diretores. Conversamos, a idéia seria produzir a carroceria em alumínio, aproveitando a expertise da Metropolitana com esse material. Montaríamos uma pequena empresa para vender e montar as carrocerias ou faríamos uma associação com a empresa. Mas os planos não foram adiante. Faltou-nos empreendedorismo.

Os anos se passaram e no começo deste o Antônio Pinho, também carioca radicado em São Paulo, diretor do MG Club do Brasil e nosso colega na escola técnica, me perguntou sobre o desenho do carro, que ele havia visto à época. Disse-lhe estar guardado e ele então me pediu que escrevesse a história e, com o desenho, a mostrasse para os sócios do clube pelo e-mail, o que foi feito.