Pergunte a uma pessoa qualquer na rua qual é o carro mais fantástico que existe, e a resposta provavelmente será Ferrari. Nem vale a pena falar aqui sobre a fama e glória da empresa; todo mundo está calvo de saber.Mas depois do JJ postar seus sentimentos mais íntimos a respeito dos carros vermelhos da terra de Pavarotti, e a polêmica que se seguiu, me senti compelido a divagar um pouco sobre o tema.
Quando se fala sobre Ferrari, a primeira coisa que devemos entender é o seu criador, Enzo. Coberto por uma mística e uma cortina de fumaça de santidade inabalável, o homem com o nome Ferrari ainda é uma incógnita para a maioria das pessoas. A história oficial é tão difundida que a maioria das pessoas parece acreditar que o narigudo foi uma espécie de anjo que desceu dos céus apenas para nos brindar com seus incríveis automóveis. Obviamente, o leitor inteligente deve imaginar que a verdade deve estar muito longe disso...
Enzo na verdade era muito parecido com um cartola de futebol. Um Eurico Miranda dos automóveis, um Vicente Matheus da Fórmula 1. Gostava genuinamente da competição, de esportes, de ganhar, de conseguir gente boa para seu time. E era excepcionalmente bom nisso. Para quem acompanha a Fórmula 1, não há como não compreender a dimensão das glórias esportivas da marca.
Mas Enzo era um néscio a respeito da técnica dos automóveis. Não entendia nada sobre o funcionamento deles, na realidade, e por repetidas vezes cunhou frases absurdas que, ditas sem nenhum tom de brincadeira, de comédia, demonstram um profundo desconhecimento sobre o tema. Achava que apenas os motores eram importantes, o resto era frescura, de pneus a freios, passando por aerodinâmica e suspensões.
E como um bom cartola esportivo, seu caráter e suas motivações eram simplesmente o dinheiro e a auto-promoção. Criou um verdadeiro pedestal para si, e nele subiu para nunca mais descer, se achando superior aos meros mortais; usava as pessoas como coisas e desprezava completamente suas contribuições para a construção de sua marca. Era bebedor de lambrusco, flatulento, mas apesar da lábia irresistível, uma pessoa pouquíssimo confiável. Foi um pai ausente para seu único filho legítimo, Dino, mas depois da sua morte criou uma aura de tragédia pessoal para si que apesar de verdadeira, tinha muito de operesco e teatral.
Mas os carros que criou sempre foram fantásticos, ainda que pelo fato de que não foram criados por ele. Principalmente nos anos 50 e 60, onde eram na verdade carros de competição que eram vendidos a playboys endinheirados sedentos pela aura glamorosa das competições de Fórmula 1. Nervosos, irrascíveis e problemáticos, mas estupidamente vocais, velozes e avassaladoramente carismáticos, Ferraris eram irresistíveis.
Mas hoje em dia muito mudou. Ferraris são agora fantásticos tecnicamente, depois que, com a morte do Comendador em 1988, a Fiat finalmente pôde fazer da Ferrari um laboratório, e criar um centro de tecnologia avançada dentro de seus portões que a tornou, finalmente, tão habilidosa na tecnologia automobilística quanto seu arqui-rival de Stuttgat-Zuffenhausen.
Hoje os carros Ferrari praticamente não tem pares no mundo automobilístico. São coisas maravilhosas, onde a técnica apurada e a tecnologia de ponta se juntam ao artesanato industrial e ao desenho italiano de Sergio Pininfarina, para criar um carro ao mesmo tempo assustadoramente potente, vocal e veloz, mas também luxuoso, dócil, climatizado e perfeitamente usável. Motores irresistíveis em carros impecáveis, vestidos em couro belíssimo e alumínio esticado sobre os músculos como uma roupa de nadador moderna.

Mas infelizmente se tornaram mais do que automóveis. Seus preços são assustadoramente altos, e são tratados como se fossem algo sagrado e intocável. Preferidos hoje por jogadores de futebol, pagodeiros e novos ricos espalhafatosos, é inacreditável lembrar que, quando eram carros mais anti-sociais e temperamentais, eram montaria de príncipes e do jet-set internacional. Vai entender...
Mas o fato é que hoje os carros se tornaram tão reverenciados e caros que são impossíveis de se usar de verdade. Viraram um símbolo de status, um objeto de cobiça dos mais tolos, o que tornou-os, por falta de palavras melhores, bregas e cafonas. Eu hoje, mesmo que tivesse dinheiro para tal, não conseguiria nunca comprar um destes carros. Chamam a atenção demais para o dinheiro que se tem, e isto para mim é um exagero, um hábito mais característico para um pavão do que para uma pessoa normal. Fora o fato de que um Corvette ZR1 pode fazer tudo que um Ferrari Enzo faz, por uma fração de seu preço.
Mas tenho que admitir que, ainda assim, tenho um desejo incontrolável, daqueles que chegam a doer fisicamente, por 275 GTB’s e Daytonas... Os Ferraris antigos eram geniais.
Na realidade, sempre gostei mais dos Porsches, que são menos pavão e mais águia. Eficiência exata ao invés de luxúria exagerada. Talvez também pelo fato de que, ao contrário de Enzo, os Porsche e Piëch são uma dinastia de engenheiros, tenha mais empatia pelos alemães. Mas o fato é que, estranhamente, o pessoal aqui do blog parece concordar comigo e também preferir o Porsche. Por que será?
Eu acho que tem a ver um pouco, de novo, com o exagero; quando algo é caro demais, veloz demais, belo demais, famoso demais, um pouco de sua excelência se perde nessa própria fartura.
Como sempre, pode-se encontrar uma maneira melhor de dizer qualquer coisa na obra do bardo de Strattford-upon-Avon. Desta vez, encontrei-o na voz do bom Frei Lourenço, na clássica tragédia de amor “Romeu e Julieta”:
“O mel mais delicioso e mais doce é repugnante por sua própria delícia.”
MAO




Se eu fosse escolher um único carro para ter pelo resto da vida, seria este.
Nas mãos de Vicki Butler-Henderson, ex-Top Gear.
JJ

Dia desses tive a chance de dar uma volta no Smart. Um Fortwo (“para dois”) coupé. Coupé? É, é assim que ele é chamado. Um coupé de teto alto.
Aproximei-me do brinquedo por trás. Estava com uma mala pequena, dessas tamanho padrão com dimensões no limite para poder ser considerada "de mão" pelas cias aéreas. Grata surpresa, pois o porta-malas acomoda pelo menos umas três ou quatro malas dessas. Reparei na tampa sobre o motor traseiro, logo abaixo do assoalho do porta-malas. Mas como eu estava sem tempo não pude levantá-la e examinar o pequeno motor de 3 cilindros 1-litro equipado com duplo comando variável e turbo. Queria ver o turbinho, um brinquedinho também.

Fechei a tampa traseira e abri a porta. Outra grande surpresa! Eu esperava um interior apertado e claustrofóbico. Mas encontrei uma sala de estar. A porta é grande o que faz do carrinho um dos modelos mais fáceis de entrar e se acomodar. Tenho 1,88 metro de altura. Porém, o ponto H, altura do banco, é elevado. O Smart tem 1,54 metro de altura e sua posição de dirigir favorece o commanding view - visão de comando. Talvez para compensar o sentimento de inferioridade ao lado de caminhões e ônibus ou SUVs grandalhonas. Por outro lado isso eleva o centro de gravidade e como o carro é muito curto, causa uma sensação estranha de insegurança. Eu preferia estar mais próximo do chão. O teto todo de vidro ajuda a clarear o ambiente e aumentar a sensação de espaço interno.
O interior do carro é muito bem feito. Materiais simples, porém acabamento excelente. O desenho alegre compensa sua simplicidade. Acomodei-me posicionando o ajuste de altura do banco o mais baixo possível. Não encontrei o buraco da chave no lugar tradicional. Inclinei o corpo para para direita para ver melhor por trás do volante e nada de buraco. Logo me veio a cabeça a resposta para minha indagação e quase que automaticamente desci o meu braço direito para o console central. Lá estava o buraco da chave.
Olhei para a alavanca e logo notei a ausência do posição P. Posição essa necessária para dar partida em todos os carros automáticos. Devo ter pisado no freio por instinto, por isso não sei se o motor partiria caso não tivesse feito este movimento. Dei a partida. Muito silencioso, pois o motor está bem escondidinho lá atrás. Dei uma acelerada para me certificar que o carro estava ligado. Movi a alavanca do câmbio para a ré e soltei o pedal de freio bem devagar. Nada do carro começar a se mover. Cheguei a pensar que o carro estava desligado dada a total inércia e ausência de qualquer sinal de a ré estava "engatada". Mas eu tinha absoluta certeza de que o carro estava ligado. Achei isso bem bacana. Não é necessário encostar no freio ou colocar a alavanca em N para manter o carro parado.

Manobra rápida pois o diâmetro de giro é menor que 9 metros (na maioria dos carros é entre 11 e 12 metros) e logo saí para uma avenida larga e movimentada. Saí na maciota. Primeira indagação: esse carro deve ter pneus perfil 40. Apesar do asfalto novo, não era muito liso. Toda a rugosidade é transmitida na forma de aspereza. Além da falta de isolamento a suspensão é dura e numa primeira impressão me pareceu ter um curso muito curto. Talvez seja possível perceber caso passasse por cima de uma moeda.
Confesso que pensei de novo no turbinho ao me familiarizar com o pedal direito. As respostas não são imediatas até que você aprenda o truque. Nos carros automáticos modernos basta uma pressionada mais brusca no acelerador para a central da transmissão entender que você quer andar mais e fazer um redução de marcha. No Smart o kick down só ocorre no fim de curso do pedal do acelerador. Dá até pra sentir o acionamento do interruptor. Nessa condição o kick down ocorre, baixando uma ou duas marchas, eleva a rotação do motor e o miniturbo acorda soprando forte. Junto com isso vem um sorriso de satisfação como bônus.
Daí pra frente brinquei um pouco com as borboletas de troca de marcha no volante. Uma vez acionadas, a transmissão sai do modo autônomo e só obedece ao seus comandos. Achei isso muito bom. Pé direito pesado e boas cambiadas fazer o Smart ficar espertinho e sair da zona de mínimo consumo. Acho que um pouco mais de tempo a sensação estranha de insegurança passaria e a brincadeira ficaria mais lúdica. Mas a falta de tempo e o trajeto curto não me permitiram aproveitar mais.
O preço do brinquedinho é salgado, R$ 58.000,00. Mas descontando o imposto de importação (35%) seu preço seria menos que R$ 40.000,00. Parece-me compatível considerando que um Honda Fit automático não sai por menos que R$ 55.000,00.
Considerando que o Smart, que quer dizer esperto, inteligente, vivo, talentoso, espirituoso, foi concebido para ajudar a diminuir o trânsito e a reduzir o consumo de combustível e emissão de gases, acho que as pessoas deveriam comprá-lo com isso em mente. Se fosse mais barato, por volta de dos R$ 40.000,00 seria um carro legal para minha esposa ou para eu mesmo trafegar no trânsito infernal de São Paulo com um pouco mais de agilidade e sem a necessidade de carregar pelo menos uns 300 kg de peso morto -- o Smart pesa 770 kg enquanto um Fit pesa 1100 kg. Porém, no Brasil, será apenas um brinquedinho ou um aparato fashion de exibicionismo. Também não acho que seja um carro de entusiasta, ao contrario do Mini.
Mas pelo menos matei a minha vontade de experimentá-lo.

