
Esta é uma reflexão sobre o texto "SUICIDAS" do colega Bob Sharp.
O problema dos motoboys passa por uma cadeia de situações maior do que percebemos nas ruas. É isso que torna o problema ainda mais grave.
São Paulo é uma das maiores cidades do mundo, com uma das maiores frotas circulantes do planeta, mas que cresceu a partir de um pequeno núcleo urbano de forma explosiva e sem planejamento.
O resultado é uma cidade imensa com pouquíssimas artérias de tráfego rápido. Enquanto isso a frota circulante não para de crescer.
Hoje, congestionamentos e trânsito lento fazem parte do quadro cotidiano da cidade. Dependendo do horário, é mais rápido fazer uma viagem de ida e volta entre São Paulo e Campinas do que atravessar a cidade de ponta a ponta.
Mas a cidade é muito ativa, e a economia não pode esperar. Existem pequenas cargas e documentos que precisam sair de um lugar e chegar em outro a mais de uma dezena de quilômetros o mais rápido possível. As empresas e pessoas precisam disso e pagam por isso.
É esta oportunidade que faz aparecer empresas de entregas rápidas por todos os lados, e a motocicleta é a resposta para realizá-las rapidamente.
De um lado, o cliente paga para a mercadoria chegar com agilidade.
Do outro lado, tem um empresário que paga para quem se predispor a realizar o serviço o mais rápido possível. E nenhum dos dois se importa como o serviço é realizado.
Entre os dois, gente que se submete às condições de serviço na falta de opção melhor de emprego. Estes são os motoboys.
Ao longo de muitos anos, as empresas dos mais variados ramos de atividade, onde o trabalho oferece um fator severo de risco constante, perceberam que as pessoas têm a tendência de se acostumarem à presença constante do perigo, e se descuidam, facilitando a ocorrência do acidente.
Hoje, não só por obrigação da legislação trabalhista, mas por interesse das próprias empresas, os funcionários que realizam trabalhos perigosos são submetidos regularmente a cursos de reciclagem para que não baixem a guarda da sua segurança.
Mas esta não é a realidade dos motoboys.
O cliente paga para quem entregar mais rápido. O empresário paga mais para o motoboy que fizer mais entregas.
Se o motoboy andar de forma segura, vai andar mais devagar. As entregas demorarão pra serem concluídas e ele fará menos entregas. O cliente não vai gostar do serviço e vai pressionar o empresário, e a pressão será repassada multiplicada para o motoboy.
Então, mal começa a trabalhar, e o motoboy já se vê pressionado a deixar a segurança de lado tanto pelo lado do empresário como pelo lado do cliente.
Num ambiente que incentiva o desprezo pela segurança a favor da agilidade de serviço, não só o motoboy se submete, como assume isso com naturalidade e passa a defender essa condição.
O fator competitivo agrava ainda mais a situação. Quem entrega mais rápido entrega mais, e quem entrega mais ganha mais. Não só isto gera competição entre empresas de entregas, como gera competição entre os motoboys, tanto de empresas concorrentes como de colegas de trabalho.
A pressão para ser o mais rápido é absoluta sobre o motoboy.
Muitas empresas de entregas por motocicletas não são oficiais, e os motoboys trabalham sem carteira de trabalho assinada.
Se um motoboy se acidenta, a empresa manda outro motoboy pegar as cargas na moto acidentada e terminar as entregas, e no dia seguinte tem outro motoboy trabalhando no lugar do acidentado.
Enquanto isso, o motoboy acidentado não possui qualquer amparo trabalhista enquanto se recupera, nem tem certeza se ainda terá um lugar pra voltar quando se recuperar.
Um motoboy acidentado representa pouco prejuízo para o empresário. Isto estimula o empresário a cobrar a imprudência de seus motoboys.
Muitas destas empresas exigem que o motoboy possua a própria moto. Estas empresas pagam mais, porém o motoboy é obrigado a tirar do que ganha os custos com abastecimento e manutenção da própria moto.
Se a moto quebra, o motoboy fica parado se não tiver outra reserva, e durante o tempo de reparo ele não recebe e ainda tem outro trabalhando em seu lugar.
No trânsito, o automóvel é um obstáculo que pode atrapalhar, e o motorista é um inimigo que pode se mostrar letal.
Circular com o dedo no botão da buzina é a forma do motoboy obrigar os automóveis a abrirem passagem, e aquele que se meter a não respeitar pode ter uma lanterna quebrada ou um retrovisor arrancado para “aprender onde é seu lugar”.
Não há motorista que não se irrite com esta situação. Muitos motoboys reconhecem esta situação quando eles próprios estão ao volante.
Alguns motoristas podem ficar tão irritados com a atitude agressiva de um motoboy que passe por eles, que podem ir à forra na próxima motocicleta que for passar.
Competitivos entre si no trabalho, os motoboys tornam-se muito unidos contra um inimigo comum.
Um motorista que cause um acidente com um motoboy pode se encontrar em sérios apuros com seus colegas de profissão.
Tudo isso cria um ambiente mais tenso e violento no tráfego da cidade.
Não adianta falar em cursos de segurança e reciclagem para motoboys como solução isolada para o problema, porque eles são apenas o elo visível de toda uma cadeia.
A situação para eles e para o trânsito em geral só vai mudar quando toda esta cadeia for transformada.
É preciso que as empresas de entregas saiam da ilegalidade e da informalidade e se regularizem.
É preciso que elas mantenham os motoboys como funcionários devidamente registrados e com todos os direitos trabalhistas garantidos.
É preciso que os clientes se conscientizem e só usem serviços de empresas responsáveis e comprometidas com a segurança dos seus funcionários, mesmo que o serviço fique mais caro e não seja tão prontamente atendido.
Só então é que os cursos de segurança e reciclagem farão algum sentido para os motoboys.
Talvez essas medidas não sejam totalmente eficazes, exigindo outras.
Porém, enquanto todo o quadro não for alterado, os motoboys continuarão presos à corrente do suicídio. E nós, junto com eles.
O problema dos motoboys passa por uma cadeia de situações maior do que percebemos nas ruas. É isso que torna o problema ainda mais grave.
São Paulo é uma das maiores cidades do mundo, com uma das maiores frotas circulantes do planeta, mas que cresceu a partir de um pequeno núcleo urbano de forma explosiva e sem planejamento.
O resultado é uma cidade imensa com pouquíssimas artérias de tráfego rápido. Enquanto isso a frota circulante não para de crescer.
Hoje, congestionamentos e trânsito lento fazem parte do quadro cotidiano da cidade. Dependendo do horário, é mais rápido fazer uma viagem de ida e volta entre São Paulo e Campinas do que atravessar a cidade de ponta a ponta.
Mas a cidade é muito ativa, e a economia não pode esperar. Existem pequenas cargas e documentos que precisam sair de um lugar e chegar em outro a mais de uma dezena de quilômetros o mais rápido possível. As empresas e pessoas precisam disso e pagam por isso.
É esta oportunidade que faz aparecer empresas de entregas rápidas por todos os lados, e a motocicleta é a resposta para realizá-las rapidamente.
De um lado, o cliente paga para a mercadoria chegar com agilidade.
Do outro lado, tem um empresário que paga para quem se predispor a realizar o serviço o mais rápido possível. E nenhum dos dois se importa como o serviço é realizado.
Entre os dois, gente que se submete às condições de serviço na falta de opção melhor de emprego. Estes são os motoboys.
Ao longo de muitos anos, as empresas dos mais variados ramos de atividade, onde o trabalho oferece um fator severo de risco constante, perceberam que as pessoas têm a tendência de se acostumarem à presença constante do perigo, e se descuidam, facilitando a ocorrência do acidente.
Hoje, não só por obrigação da legislação trabalhista, mas por interesse das próprias empresas, os funcionários que realizam trabalhos perigosos são submetidos regularmente a cursos de reciclagem para que não baixem a guarda da sua segurança.
Mas esta não é a realidade dos motoboys.
O cliente paga para quem entregar mais rápido. O empresário paga mais para o motoboy que fizer mais entregas.
Se o motoboy andar de forma segura, vai andar mais devagar. As entregas demorarão pra serem concluídas e ele fará menos entregas. O cliente não vai gostar do serviço e vai pressionar o empresário, e a pressão será repassada multiplicada para o motoboy.
Então, mal começa a trabalhar, e o motoboy já se vê pressionado a deixar a segurança de lado tanto pelo lado do empresário como pelo lado do cliente.
Num ambiente que incentiva o desprezo pela segurança a favor da agilidade de serviço, não só o motoboy se submete, como assume isso com naturalidade e passa a defender essa condição.
O fator competitivo agrava ainda mais a situação. Quem entrega mais rápido entrega mais, e quem entrega mais ganha mais. Não só isto gera competição entre empresas de entregas, como gera competição entre os motoboys, tanto de empresas concorrentes como de colegas de trabalho.
A pressão para ser o mais rápido é absoluta sobre o motoboy.
Muitas empresas de entregas por motocicletas não são oficiais, e os motoboys trabalham sem carteira de trabalho assinada.
Se um motoboy se acidenta, a empresa manda outro motoboy pegar as cargas na moto acidentada e terminar as entregas, e no dia seguinte tem outro motoboy trabalhando no lugar do acidentado.
Enquanto isso, o motoboy acidentado não possui qualquer amparo trabalhista enquanto se recupera, nem tem certeza se ainda terá um lugar pra voltar quando se recuperar.
Um motoboy acidentado representa pouco prejuízo para o empresário. Isto estimula o empresário a cobrar a imprudência de seus motoboys.
Muitas destas empresas exigem que o motoboy possua a própria moto. Estas empresas pagam mais, porém o motoboy é obrigado a tirar do que ganha os custos com abastecimento e manutenção da própria moto.
Se a moto quebra, o motoboy fica parado se não tiver outra reserva, e durante o tempo de reparo ele não recebe e ainda tem outro trabalhando em seu lugar.
No trânsito, o automóvel é um obstáculo que pode atrapalhar, e o motorista é um inimigo que pode se mostrar letal.
Circular com o dedo no botão da buzina é a forma do motoboy obrigar os automóveis a abrirem passagem, e aquele que se meter a não respeitar pode ter uma lanterna quebrada ou um retrovisor arrancado para “aprender onde é seu lugar”.
Não há motorista que não se irrite com esta situação. Muitos motoboys reconhecem esta situação quando eles próprios estão ao volante.
Alguns motoristas podem ficar tão irritados com a atitude agressiva de um motoboy que passe por eles, que podem ir à forra na próxima motocicleta que for passar.
Competitivos entre si no trabalho, os motoboys tornam-se muito unidos contra um inimigo comum.
Um motorista que cause um acidente com um motoboy pode se encontrar em sérios apuros com seus colegas de profissão.
Tudo isso cria um ambiente mais tenso e violento no tráfego da cidade.
Não adianta falar em cursos de segurança e reciclagem para motoboys como solução isolada para o problema, porque eles são apenas o elo visível de toda uma cadeia.
A situação para eles e para o trânsito em geral só vai mudar quando toda esta cadeia for transformada.
É preciso que as empresas de entregas saiam da ilegalidade e da informalidade e se regularizem.
É preciso que elas mantenham os motoboys como funcionários devidamente registrados e com todos os direitos trabalhistas garantidos.
É preciso que os clientes se conscientizem e só usem serviços de empresas responsáveis e comprometidas com a segurança dos seus funcionários, mesmo que o serviço fique mais caro e não seja tão prontamente atendido.
Só então é que os cursos de segurança e reciclagem farão algum sentido para os motoboys.
Talvez essas medidas não sejam totalmente eficazes, exigindo outras.
Porém, enquanto todo o quadro não for alterado, os motoboys continuarão presos à corrente do suicídio. E nós, junto com eles.






